língua

Quem paga o jantar

Regras sociais na hora de pagar a conta em jantares ou outros eventos sociais podem variar muito de uma cultura pra outra. E desconhecê-las nessas situações pode resultar em grandes constrangimentos e mal-entendidos.

Mas não tema! As regras alemãs nesse quesito são bem precisas (ok, tem nuances também) e eu vou descrevê-las logo a seguir.

A primeira coisa que você precisa saber – e a mais importante – é o significado subentendido do verbo “convidar” em alemão (einladen) , ou sua tradução em qualquer língua quando expressada por um alemão. Se um alemão diz que está te convidando, isso significa que ele vai pagar pra você. Se a pessoa usar o verbo einladen significa especificamente que ela vai pagar pra você.

Da mesma maneira, você tem que tomar cuidado ao formular sua pergunta se quiser convidar alguém para alguma coisa. Se você usar o verbo einladen, “convidar”, a pessoa esperará que você pague a conta. Uns exemplos de diálogos:

Komm, lassen wir uns ein Eis essen gehen. Ich lade dich ein!

(“Bora tomar um sorvete? Eu te convido!”)

“Eu te convido” = “eu pago”, a pessoa está especificamente se dispondo a te pagar um sorvete.

Gehen wir zusammen mittagessen? Es gibt einen Italiener dort am Albertplatz, die Pasta schmeckt super!

“Vamos almoçar junto? Tem um restaurante italiano ali na Praça, a massa deles é ótima!”

A pessoa está te convidando pra ir comer junto, mas cada um paga o seu.

Também é comum que o tal “convite” seja especificado só na hora de pagar. Se na hora de pedir a conta o seu amigo disser qualquer coisa com o verbo einladen, ele está se dispondo a pagar a conta. Frases comuns:

Darf ich dich einladen? 

“Você me deixa pagar pra você?” (tradução literal: “Posso te convidar?”)

Heute lade ich dich ein!

“Hoje eu pago!”  (tradução literal: “Hoje eu te convido!”)

Muito importante também é saber o que é educado ou mal-educado responder nessas situações. Se um alemão se ofereceu para pagar pra você, não sinta a menor necessidade de dizer não por educação. “Não por educação” é um conceito inexistente aqui. Na verdade, normalmente uma recusa significa que a pessoa se ofendeu com a oferta de alguma maneira., quase só ocorre quando a oferta foi inconveniente ou indecorosa até. Por exemplo se um homem se oferece para pagar a janta ou almoço com uma colega de trabalho, ela pode interpretar a oferta como uma paquera e se ofender e recusar. Ou então duas pessoas conhecidas, mas não muito próximas, vão almoçar juntas pra discutir alguma coisa e uma delas se oferece para pagar a conta: a outra recusaria se quisesse deixar claro que não é só porque eles foram almoçar juntos que agora viraram amigos, e quiser manter uma clara distância na relação entre as duas pessoas.

E como se aceita ou se recusa a oferta, então? Alguns exemplos:

– Heute lade ich dich ein!

– Och, danke schön, das ist ja sehr nett!

(“Hoje deixa que eu pago!”

“Ah, muito obrigada, que legal da sua parte!”)

– Darf ich dich einladen?

– Ach, gerne, danke schön!

(“Você me deixa pagar pra você?”

“Uai, com prazer, muito obrigada!”)

– Ich lade dich ein.

– Nein, nein, auf keinen Fall.

(“Eu pago.”

“Não, não, de jeito nenhum.”)

Como falei, como a recusa quase só aparece numa situação em que a pessoa se ofenda com a oferta, a resposta negativa seria direta, prosaica, sem sorriso.

Alternativamente, a recusa pode ocorrer também numa situação em que a pessoa não se sentiu ofendida, mas desconfortável. Por exemplo numa situação de trabalho. Você poderia recusar a oferta se sentisse a necessidade de manter uma distância profissional da pessoa que ofereceu, mesmo que a oferta não tenha sido inadequada. Nesse caso a resposta seria direta, mas um tanto mais delicada, por exemplo:

– Ich lade Sie ein.

– Nein, nein, das müssen Sie nicht.

(“Eu pago.”

“Não, não, não precisa.”)

Da mesma maneira que a oferta de pagar pra você deve ser levada ao “pé da letra” por assim dizer, uma recusa também tem que ser interpretada como real e ser aceita. Quer dizer, se a pessoa disse que não quer que você pague pra ela, ela tem um motivo pra não aceitar e você tem que respeitar isso. Seria mal-educado insistir.

Há várias situações possíveis, claro. Às vezes, se uma pessoa sentir que tem por algum motivo alguma obrigação de pagar a conta, ela talvez faça isso antes que você possa aceitar ou recusar. O caso típico é uma pessoa mais velha, por exemplo alguém da sua família como um tio, o seu chefe em alguma situação de trabalho, coisas assim.

Na semana passada, por exemplo, fui com uma colega do trabalho e dois arquitetos de outro escritório com quem estamos fazendo um projeto em conjunto apresentar o mesmo na prefeitura, e antes da apresentação tomamos um café. Estávamos eu, minha colega, o chefe do outro escritório e uma moça que trabalha com ele. As três bem mais jovens que o chefe, que, além disso, era o único chefe presente. Ele pagou a conta sem pensar duas vezes.

Nessas situações é importante agradecer, claro. Depois da conta ter sido paga e quando estão se levantando todos para sairem do restaurante, um “Danke schön” ou “Danke für die Einladung” é essencial.

Também é importante não assumir que alguém vai pagar pra você, mesmo sendo numa dessas situações onde esse seria o esperado. Então na hora de pedir a conta, tenha a carteira em mãos, pra deixar claro que você pretende pagar sua parte.

Uma situação que pode ser problemática é alguém sente que deve sempre pagar a conta mesmo estando no mesmo “nível de hierarquia” que a outra pessoa. Porque a outra pessoa pode entender que não está sendo vista de igual pra igual. Por exemplo. Temos um amigo que ganha muito bem, além de ser gente boa e generoso, e por isso sempre que vamos jantar juntos – seja aqui na cidade em que moramos ou lá na cidade que ele mora – ele sai pagando a conta sem perguntar. Isso é uma coisa que me incomoda pra caramba, porque eu sinto como se ele estivesse desrespeitando a gente, como se ele achasse que pagar um jantar fosse fora da nossa capacidade financeira. Melhor seria se ele perguntasse antes, se nos desse a oportunidade de dizer “Não, hoje é minha vez”. Ele se dispor a pagar todas as vezes, pq sabe que ganha muito mais que os outros envolvidos, até tudo bem. Mas ir pagando sempre, sem perguntar, é desrespeitoso, uma vez que ele tem nossa idade, é um amigo de igual pra igual, não é pai, chefe ou tio.

No geral, as regras culturais de quem paga a conta não são muito diferentes do que estamos acostumados no Brasil, é mais o fator da comunicação direta que tem que ser levado em conta.

Aproveita também para ler sobre restaurantes na Alemanha!


(Publicado em 10 de Fevereiro de 2018)

Soletrando no telefone

Falar o nome de letras pelo telefone, quando você precisa soletrar alguma coisa, pode ser um certo desafio. F e S soam parecidos, B e P também, T e D, M e N… para não gerar confusão, é normal usar palavras que começam com aquela letra, para especificá-la. No Brasil, por exemplo, costuma-se usar N de Navio, D de Dado, M de Maria, A de Abelha, etc, algumas palavras escolhidas são sempre as mesmas (“N de Navio” é um clássico), outras vão da criatividade da pessoa que está soletrando.

Obviamente, na Alemanha isso também existe. Mas a diferença é que é totalmente oficial e segue uma norma específica. Tão oficial que, ao precisar soletrar por exemplo seu email por telefone, as pessoas nem falam mais as letras, só as palavras correspondentes. A norma em questão é a DIN5009 (DIN é a equivalente alemã da ABNT). Nessa lista, as palavras usadas para cada letra são, na maioria, nomes próprios.

Richard para R, Anton para A, Paula para P são alguns dos exemplos.

Ainda hoje passei por duas situações que me foram extremamente confusas, mas que são totalmente padrão em telefonemas na Alemanha. Primeiro tive que telefonar para uma pessoa e perguntar o email dela para enviar um arquivo. O fulano, Herr Thomas Müller (nome fictício) me responde: “Ah, claro, meu email é Theodor Martha Übermutt Ludwig Ludwig Emil Richard sem ponto, arroba etcetc”. Por sorte eu já tinha uma noção de que ele tava soletrando, se fosse há algum tempo atrás eu provavelmente teria enviado o email para theodormarthaübermuttludwigludwigemilrichard@etcetc. Só que ele falou tão, tão rápido os nomes que eu teria que ter estado muito pré-preparada pra entender se já não soubesse o nome dele. (Na verdade eu só sabia o segundo nome, e o email tinha a primeira letra do primeiro nome que eu obviamente não entendi na soletragem bizarra mega-rápida. Tive que ligar de novo e pedir pra ele soletrar de novo, mais devagar…)

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Telefonar em alemão ainda é uma atividade que me faz soar frio por causa dessas confusões, e como se não bastasse a primeira, no mesmo dia passei ainda por uma outra situação similar, só que ao contrário. Me liga uma pessoa que tinha tentado me mandar um arquivo, mas o email tinha voltado. Queria confirmar meu email. Não teria problema eu soletrar usando palavras ou nomes diferentes dos da norma, mas é lógico que nessa situação dá um branco total na cabeça e você não consegue pensar em absolutamente nenhuma palavra que comece com aquela letra. Especialmente em alemão!

Esse foi meu diálogo no telefone: “L de… ahm… L… L.” “De Ludwig?” “É. A de…. Ahm… não sei… A.” “Anton?” “Isso. I de… er, bem… I. S de… enfim, S. Lais.”. Foi bem constrangedor. E também não ajuda quando os nomes ou palavras tipicamente usadas pra isso são palavras que você desconhece completamente. A pessoa no telefone me soletra meu nome de volta e eu não tenho a menor idéia de que palavra ele falou quando chegou no I. Pareceu ser uma palavra começada com I, então eu confirmei, mas acho que era outra coisa porque o email voltou de novo…

Mas tudo bem, tudo bem: isso não acontecerá novamente. Logo depois do segundo telefonema fui correndo procurar a lista oficial de palavras para soletrar. Imprimi e deixei de cola do lado do telefone no escritório!

Essa lista você pode encontrar procurando por “Buchstabiertafel” (que pode ser traduzido pra algo como “quadro de soletrar”) ou pela norma, DIN5009. Ou ainda, clicando nesse link aqui do Wikipedia que mostra a lista oficial da Alemanha, a da Áustria, a da Suiça, e a de duas normas internacionais (uma dessas é aquela que sempre se ouve em filmes, usada para várias coisas internacionais como comunicação entre aviões e torres de comando: Alfa, Bravo, Charlie, Delta, Echo…).

Recomendo pra qualquer um que precise telefonar bastante na Alemanha aprender o seu nome desse jeito. O meu agora eu já sei: Ludwig Anton Ida Samuel!


(Publicado em 31 de Agosto de 2016)

A relação dos alemães com a língua alemã

Uma coisa definitivamente frustrante sobre morar na Alemanha é, claro, a língua. Não porque ela seja particularmente difícil. Sim, é difícil, mas certamente bem mais fácil que muitas outras línguas. O que torna a experiência frustrante é a relação dos alemães com a língua alemã.

Eles gostam demais da própria língua.

Você deve estar pensando que ué, não tem nada de errado nisso. Eu também gosto bastante de português. Normal gostar da sua própria língua, não é?

Claro. Só que a maneira como as pessoas lidam com pessoas que aprendem ou estão em processo de aprendizado da sua língua é variada. E a maneira como as pessoas se dispõe a tentar entender outras pessoas em outras línguas que não a sua própria também é bem variada.

Já antes de vir para Alemanha essa relação dos alemães com sua própria língua me incomodava bastante. Eu morei na Itália por um ano e lá fiz alguns amigos alemães e austríacos. E quando esses falantes nativos de alemão estavam juntos, mesmo que com outras pessoas que não entendiam nada de alemão, eles falam alemão entre si e não faziam o menor esforço em te incluir na conversa. Em várias situações em que eu estava em um grupo onde a maioria presente era falante nativo de alemão, eles se comunicavam só em alemão, excluindo da conversa, sem a menor cerimônia, eu e os outros não-alemães presentes.

E nas primeiras vezes que eu visitei o namorado na Alemanha, antes de morar aqui, passei por várias situações semelhantes. Entre amigos dele, fosse um grupo pequeno ou grande, ninguém fazia o menor esforço para me incluir na conversa sabendo que eu não entendia uma palavra de alemão. Mesmo todos sendo perfeitamente capazes de falar inglês, ninguém se dava ao esforço. E eles não achavam nem um pouco estranho nem se sentiam nem um pouco mal de te excluir completamente da conversa. É quase como se você, não falando alemão, se tornasse completamente invisível.

Aos poucos, especialmente durante meu primeiro ano aqui, fui aprendendo alemão até chegar em um ponto de fluência em que conversas cotidianas não são mais problema. Mas mesmo já podendo participar das conversas ainda sinto demais os problemas dessa relação que os alemães têm com a própria língua.

Essa exigência que os alemães fazem com os estrangeiros aqui de falar e entender alemão perfeitamente independente do tempo que vc teve para aprender acaba sendo uma maneira discreta mas muito efetiva de várias pessoas extravasarem sua xenofobia. Mesmo quem não é particularmente anti-imigrante e não tem necessariamente nada contra estrangeiros acaba revelando muito da sua xenofobia escondida quando se discute a necessidade de falar alemão.

É necessário falar alemão para viver na Alemanha? Óbvio. É necessário para um estrangeiro aprender alemão se quiser viver aqui? Necessário é, mas essa é uma questão bem relativa. Ninguém aprende uma língua de um dia pro outro. Alemão não é uma língua fácil, e para quem nunca aprendeu outra a não ser a própria língua nativa, ficar fluente em uma língua nova é um processo bem demorado. E isso é uma coisa que me parece que os alemães não estão dispostos a entender. Claro, há excessões. Mas eis um exemplo que ilustra muito bem esse problema: numa conversa entre colegas de trabalho sobre refugiados, uma mulher estava contando que foi em um evento sobre refugiados em que um jovem sírio contou a sua história. O rapaz tinha 17, 18 anos, chegou na Alemanha há uns 2 anos, e, segundo a pessoa que estava contando a história, falava alemão perfeito. Ele estava contando que nos últimos anos fez o colegial aqui na Alemanha, sem problemas, mas ao terminar o curso, não foi autorizado a participar do Abitur – a prova nacional de ensino médio que te dá acesso à universidade, algo mais ou menos equivalente ao ENEM. A mulher que estava contando essa história disse que não sabia porque ele não podia fazer a prova. Então os outros colegas em volta começaram a discutir a situação tentando imaginar qual poderia ser o motivo. A conclusão imediata, automática, foi de que provavelmente ele não sabia alemão suficiente. Vai ver – concluíram os alemães – que é necessário um determinado certificado de alemão para fazer a prova, que ele não conseguiu obter. Confusa com essa conclusão curiosa, questionei: “ué, mas você não disse que ele falava alemão perfeito?”. A resposta: “Bom, ele falava alemão muito bem, mas vai ver ele não escreve alemão bem o suficiente e por isso não passou na prova de língua”.

Quer dizer.

Um estrangeiro estava contando que não podia fazer o Abitur que lhe daria acesso à universidade. Segundo a narradora da história, ele falava alemão perfeito. E AINDA ASSIM a conclusão imediata dos alemães presentes era de que se ele não podia fazer o Abitur, devia ser quase com certeza porque ele não sabia alemão suficiente.

Burocracias complicadas referente aos direitos dos refugiados? Leis injustas para estrangeiros? Não, nada disso passou pela cabeça como possibilidade. O problema certamente era a incapacidade do menino – que falava alemão perfeito – de falar alemão. Coerência zero.

Isso para mim ilustra bem a questão: os alemães acham que para viver aqui é necessário falar alemão PERFEITO. E que qualquer coisa que você não consegue, como estrangeiro, qualquer acesso que você não tem, certamente é porque você não fala a língua suficientemente bem. Entendem o problema?

É praticamente impossível atingir um nível de perfeição em uma língua estrangeira aprendida depois de adulto. Mesmo que você fale a língua muito muito bem, seu vocabulário vai sem dúvida ser menor do que o de alguém que aprendeu a falar falando aquela língua. Sua pronúncia nunca vai ser totalmente perfeita. Nenhum estrangeiro que aprendeu alemão depois de adulto será capaz de falar alemão – gramática, vocabulário e pronúncia – melhor que um alemão. A grande maioria vai falar um alemão suficiente, mas com uma forte pronúncia e vocabulário reduzido. E ISSO TUDO BEM. Só que a língua vai sempre ser uma maneira dos alemães extravasarem discretamente sua xenofobia e insistir que é porque você não fala alemão bem o suficiente que você não consegue as coisas aqui.

Meio do gênero: “ah, não tenho nada contra estrangeiros virem morar aqui. Mas tem que falar alemão perfeito.”. Ou seja, a pessoa diz pra si mesma que não tem nada contra, mas impõe uma barreira intransponível. E não se dispõe ao menor esforço para ajudar o outro a transpor essa barreira.

Claro que não são todos os alemães que são assim. Muitos alemães – principalmente pessoas mais jovens e que já moraram um tempo em outro país e sabem o sufoco que é se comunicar diariamente em uma língua estranha – não exigem de ninguém uma pronúncia ou compreensão perfeita de alemão para respeitá-los igualmente. Muitos se esforçam pra te ajudar com a língua e não se incomodam com seus erros. E, claro, é bom lembrar que a minha frustração é muito relacionada ao fato de eu morar em Dresden – uma cidade com relativamente poucos estrangeiros, onde as pessoas têm pouquíssima convivência e tempo de convivência com pessoas de fora no seu dia-a-dia. Certamente em muitas cidades grandes da Alemanha Ocidental a experiência é bem diferente, e as pessoas são bem mais tranqüilas em relação à língua.

E, mesmo aqui em Dresden, acredito mesmo que isso melhore aos poucos nos próximos anos, com mais e mais pessoas indo morar no exterior, e mais pessoas vindo do exterior morar aqui.

Mas de uma maneira ou de outra, uma dica importante para quem está querendo vir morar na Alemanha: aprende alemão. Corre, faz curso, estuda, se esforça, porque não falar alemão vai complicar demais pra você ser aceito por aqui.


 

(Publicado em 22 de Dezembro de 2015)