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Algumas das minhas palavras preferidas

Esse não é assim o blog mais visitado da história da internet, mas eu sei que tem alguns poucos leitores regulares. Pra esses: perdoem o sumiço! Não despareci, nem morri, só que às vezes falta o tempo de sentar calmamente para criar um post, mesmo que o assunto não falte.

Mas antes que a barra de rolagem do blog enferruje, eis aqui um post novo!

Eu escrevo poucos posts que sejam mais especificamente sobre aspectos da língua alemã, porque afinal de contas esse é um blog sobre como são as coisas na Alemanha, e não um blog para aprender alemão.

Mas volta e meia abro uma exceção. Tipo quando dá vontade.

E aí deu vontade de escrever sobre algumas das minhas palavras alemãs preferidas.

Posts na temática língua escritos no passado incluem um sobre interjeições alemãs, um outro sobre dialetos alemães. E faz um tempo que eu às vezes uso ou ouço uma palavra em alemão e penso “haha, adoro essa palavra, qualquer hora preciso escrever um post sobre ela”. Fora que, como qualquer pessoa que já aprendeu qualquer língua a um certo nível de fluência sabe, tem certas palavras que não tem tradução exata em outras línguas, e aí quando vc está usando a língua A, sente falta da palavra B, e vice-versa. Então essa aqui é uma lista de algumas palavras alemãs que eu sinto falta quando converso em português (tirando as específicas da profissão que vc nunca mais lembra na própria língua se trabalha em outra!). Provavelmente amanhã eu vou lembrar várias outras palavras que eu não coloquei aqui, mas aí se for um caso escrevo uma continuação um dia desses.

Em negrito, a sílaba tônica:

Supi
Essa fofa palavra nada mais é que o diminutivo da palavra super, que significa – pasmem! – super. A diferença é que em alemão a palavra super é freqüentemente usada sozinha. Em português, “super” é um prefixo com valor de advérbio, e nunca vem sozinha, mas sempre acompanhada do adjetivo que é intensificado pelo prefixo super (lógico que eu dei um rápida pesquisada antes dessa breve aula de gramática, rsrs). Em português vc diria: ‘isso é superlegal’, ‘supergostoso esse sorvete’, ‘supermercado’, ‘supermãe’, etc. Em alemão, super é usado como adjetivo, sozinha, tipo:
“- Tem sorvete na geladeira, viu?”
 – Super!!”

E aí de vez em quando usam o diminutivo supi.
“Já entreguei aquele papel, viu?”
Supi, brigado!”
Se você usar supi em vez de super, vc tira um pouco a intensidade do super. Tipo “legal” e “legalzinho”. Super é mais uma resposta tipo “Oba!” ou “Supimpa!” enquanto que supi é mais um “ok, legal.” “blza, valeu.” 

Tschüsi
Seguindo a linha das palavras diminuidas colocado um i no final, Tschüsi é a versão diminutiva de Tschüss que é a versão alemã de tchau. Tschüsi é basicamente “tchauzinho”. Se eu falo “Supi” ou “Tschüsi“, meu marido comenta que eu já tô bem saxônica, então ele (que é do Oeste) relaciona esses diminutivos com essa região da Alemanha. Mas não acho que sejam exclusivos daqui. 

Übelst
übel
significa enjoado, doente ou mal. 
Nimm es mir nicht übel” é uma expressão útil que traduz bem diretamente pra “não me leve a mal”. Übelkeit significa enjôo. 
Sabendo isso, você vai ficar com muitos pontos de interrogação na cabeça quando ouvir frases como:
Das ist aber übelst geil!
Sie ist ja übelst schön!

Eis que em linguagem coloquial, übelst (bem frequente na linguagem de pessoas mais jovens) é simplesmente um advérbio de intensidade. Que poderia ser traduzido, por exemplo, para super.
Então os dois exemplos acima traduzem para 
“Mas isso é superlegal!”
“Ela é mesmo muuito bonita!”
Segundo meu marido, Übelst tb é regional, então talvez em outras partes da Alemanha vc não vá ouvir. Aqui na Saxônia eu ouço direto.

Dingsbums
“O coiso”, ou ainda “o coiso coisado”, ou mesmo “o treco” ou “troço” (Ding significa coisa). Dingsbums é a minha palavra preferida nessa língua dos demônios pq vc pode usá-la em qualquer situação em que você não lembre (ou não saiba) o substantivo que está querendo usar, e se o contexto ajudar o seu interloculor possivelmente vai prestativamente providenciar a palavra faltante. Obviamente é uma palavra coloquial. Mas altamente útil.

Convenientemente, você pode usar Dingsbums até para se referir a pessoas cujo nome você não lembra. (Bastante útil num país com pessoas com sobrenomes como Lautenschläger, Schwerdtfeger ou Hutschenreuther).  Então por exemplo, digamos que você está no trabalho e seu chefe pergunta:
Haben Sie schon den Erläuterungstext fertig?
(Você já terminou o texto explicativo?)
Ja, ist fertig und abgeschickt.
(Sim, já terminei e enviei)
An wem? An Frau Müller?
(Pra quem? Para a senhora Müller?)
An Frau Müller und an Herrn… äh… Herrn… Dingsbums.
(Para a Sra. Müller e para o… er… pro coiso.)
Sie meinen den Herrn Kunibert Willibald Pfützenreuther-Adelwandsteiner?
(Você quer dizer o Sr. Kunibert Willibald Pfützenreuther-Adelwandsteiner?
Genau. Herrn Pfü… ähh, ja, der.
(Isso, pro Sr. Pfü… er… é, esse aí.)

(Só evite fazer isso na frente da pessoa cujo nome você esqueceu, acho que dispensa o aviso.)

Pipapo
Outra maravilha da língua alemã coloquial, o Pipapo (se pronuncia Pipapô) significa, basicamente, “etcetc” ou “os coisos todos”. 
Por exemplo:
Ich habe schon Fahrkarten besorgt und das ganze Pipapo für die Reise erledigt
(Já comprei as passagens e resolvi os coisos todos da viagem)

Mitbringsel
Mitbringsel é uma coisinha que você traz pra alguém, um presentinho, uma lembrancinha, um souvenir de uma viagem. O que eu gosto da palavra não é o significado, mas como ela é montada. Mitbringen é um verbo que significa “trazer com vc”. 
Kannst du morgen das Buch mitbringen, worüber du gesprochen hast?
(Você pode trazer amanhã com vc aquele livro que vc falou?) 
Sel é um sufixo diminutivo. Então Das Mitbringsel é literalmente “o coisinho de trazer consigo”.   

Bummsinchen
Muitos alemães não conhecem essa palavra, mas ela existe. Bummsinchen é aquele coisitcho de plástico ou de borracha que você cola na parede onde a maçaneta da porta bate quando aberta, pra não danificar a pintura/revestimento/parede. Batedor? Deve ter um nome específico pra isso em português que eu não sei assim como os alemães não sabem Bummsinchen. É uma palavra que mais quem é arquiteto ou da área que vai saber. Mas chama assim. E está na minha lista pq é uma palavra que soa ridícula e que todo mundo acha engraçada. Se você perguntar pra um alemão como que chama esse coisinho (vc pode aproveitar aqui para usar a palavra que vc acabou de aprender lá em cima, Dingsbums) de colar na parede pra maçaneta não bater na parede, e ele não souber, ele certamente vai achar bem engraçado quando vc ensinar pra ele que esse Dingsbums chama Bummsinchen. (Um nome mais neutro seria Türstopper, literalmente “Parador de porta”).

A origem da palavra Bummsinchen também é ótima. Bumm é o barulho que a porta faz quando bate na parede. Então Bummsinchen é o “negocinho de fazer bum”.

FALA se Alemão não é uma língua supimpa?? Eu diria que alemão é super!

Spelunke
Quer adivinhar o que significa Spelunke? De todas as palavras que eu conheço em português e ousaria tentar usar numa frase em alemão na esperança de que o meu interlocutor alemão entendesse do que eu estou falando, ESPELUNCA jamais estaria nessa lista. Mas eis que a tradução de espelunca é… Spelunke. 
A primeira (e pra ser sincera, a única) vez que eu ouvi a palavra Spelunke ser usada em alemão eu quase comecei a rir pq jamais imaginar que logo espelunca seria igual nas duas línguas.

Bom, pra ser precisa, há uma leve diferença. Quando eu digo espelunca em português normalmente eu tô me referindo a uma casa caindo aos pedaços. Spelunke é mais um bar toscão num porão muquifo frequentado por fulanos mal-encarados cheirando a álcool e cigarro. Ou uma casa de jogo. Esses dois significados são, na verdade, tb parte dos significados oficiais de “espelunca”, como acabei de descobrir aqui. 

Stehrümchen
Minha segunda palavra preferida em alemão (a primeira é a próxima), Stehrümchen é um substantivo usado para se referir a bobeiras inúteis que não servem pra nada e só ficam de bobeira ocupando espaço na estante. Tipo o presente de Natal do amigo secreto da firma. Aquela miniatura da Torre Eiffel que sua tia te trouxe de Paris. O cachorro  de plástico com a cabeça que fica balançando que você põe no carro. Uma bola de vidro que você chacoalha pra fazer “nevar” dentro. Um enfeitinho inútil que só ocupa espaço. 

O legal da palavra é a construção da mesma. Rumstehen significa “Stand around” (não tô achando uma boa tradução em português), ficar de bobeira. Chen é um sufixo diminutivo (A essa altura você deve estar se perguntando quantos sufixos diminutivos existem em alemão! Chen, Sel, I. Mas acho que é só, mesmo.). Então Stehrümchen traduz para “coisinha que só fica de bobeira”. O legal do alemão é que dá pra juntar as coisas e criar esses substantivos com significados óbvios.

Feierabend
E pra terminar essa lista, minha palavra alemã preferida de todas as palavras não só alemãs porém de qualquer língua. A melhor palavra já inventada. Feierabend.
Se você sabe um pouco de alemão, talvez saiba que Feier significa festa, e que Abend significa noite (não noite tipo a hora que vc dorme, mas noite tipo as horas entre o fim da tarde e a hora de ir dormir. Em português não tem uma palavra específica pra esse horário, mas é o Evening do inglês.). Assim sendo, se você ouvir a palavra Feierabend sem saber o que ela significa, vai entender “noite de festa”. O que vai gerar certa confusão na sua cabeça quando no fim do expediente na sua primeira semana trabalhando na Alemanha, seu chefe desligar o computador e comentar com você:
Jetzt machen wir Feierabend, oder?
(Agora a gente faz uma noite de festa, né?)
E vc vai ficar:
meme
“Q? Meu chefe tá me convidando pruma festa? Sugerindo algo indecente? Q q tá rolando?”
Calma, muita calma nessa hora. Não presuma assédio. 
Na verdade, seu chefe está apenas sugerindo que você pare de trabalhar e vá pra casa que já tá tarde. 
Feierabend significa, simplesmente, noite após o expediente. Qualquer noite de um dia em que vc trabalhou é uma Feierabend. Feierabend é mais que uma palavra, é um conceito. A “festa” no caso é festejar que terminou o expediente. A noite vc festeja o término do expediente, vc joga os documentos pro alto e vai pra casa aproveitar a vida! 
O brilhante dessa palavra, é que não é uma palavra utilizada em nenhum contexto especial. Ela é uma palavra totalmente normal, utilizada pra se referir a toda e qualquer noite pós-expediente. Você poderia, teoricamente, todo dia se despedir dos seus colegas e chefe no trabalho dizendo
Also, ich mach jetzt Feierabend, bis morgen!
e ninguém acharia estranho!

Essa palavra define a atitude dos alemães em relação ao trabalho. Eles são eficientes, precisos, produtivos, trabalhadores. Mas só no horário do expediente. Deu 17h: Tschüsi!

E por isso que Feierabend é minha palavra alemã preferida. Porque todo dia é dia de festejar o fim do expediente! XD

Pra terminar, uns memes com Feierabend:


(Publicado em 23 de Outubro de 2019)

Quem paga o jantar

Regras sociais na hora de pagar a conta em jantares ou outros eventos sociais podem variar muito de uma cultura pra outra. E desconhecê-las nessas situações pode resultar em grandes constrangimentos e mal-entendidos.

Mas não tema! As regras alemãs nesse quesito são bem precisas (ok, tem nuances também) e eu vou descrevê-las logo a seguir.

A primeira coisa que você precisa saber – e a mais importante – é o significado subentendido do verbo “convidar” em alemão (einladen) , ou sua tradução em qualquer língua quando expressada por um alemão. Se um alemão diz que está te convidando, isso significa que ele vai pagar pra você. Se a pessoa usar o verbo einladen significa especificamente que ela vai pagar pra você.

Da mesma maneira, você tem que tomar cuidado ao formular sua pergunta se quiser convidar alguém para alguma coisa. Se você usar o verbo einladen, “convidar”, a pessoa esperará que você pague a conta. Uns exemplos de diálogos:

Komm, lassen wir uns ein Eis essen gehen. Ich lade dich ein!

(“Bora tomar um sorvete? Eu te convido!”)

“Eu te convido” = “eu pago”, a pessoa está especificamente se dispondo a te pagar um sorvete.

Gehen wir zusammen mittagessen? Es gibt einen Italiener dort am Albertplatz, die Pasta schmeckt super!

“Vamos almoçar junto? Tem um restaurante italiano ali na Praça, a massa deles é ótima!”

A pessoa está te convidando pra ir comer junto, mas cada um paga o seu.

Também é comum que o tal “convite” seja especificado só na hora de pagar. Se na hora de pedir a conta o seu amigo disser qualquer coisa com o verbo einladen, ele está se dispondo a pagar a conta. Frases comuns:

Darf ich dich einladen? 

“Você me deixa pagar pra você?” (tradução literal: “Posso te convidar?”)

Heute lade ich dich ein!

“Hoje eu pago!”  (tradução literal: “Hoje eu te convido!”)

Muito importante também é saber o que é educado ou mal-educado responder nessas situações. Se um alemão se ofereceu para pagar pra você, não sinta a menor necessidade de dizer não por educação. “Não por educação” é um conceito inexistente aqui. Na verdade, normalmente uma recusa significa que a pessoa se ofendeu com a oferta de alguma maneira., quase só ocorre quando a oferta foi inconveniente ou indecorosa até. Por exemplo se um homem se oferece para pagar a janta ou almoço com uma colega de trabalho, ela pode interpretar a oferta como uma paquera e se ofender e recusar. Ou então duas pessoas conhecidas, mas não muito próximas, vão almoçar juntas pra discutir alguma coisa e uma delas se oferece para pagar a conta: a outra recusaria se quisesse deixar claro que não é só porque eles foram almoçar juntos que agora viraram amigos, e quiser manter uma clara distância na relação entre as duas pessoas.

E como se aceita ou se recusa a oferta, então? Alguns exemplos:

– Heute lade ich dich ein!

– Och, danke schön, das ist ja sehr nett!

(“Hoje deixa que eu pago!”

“Ah, muito obrigada, que legal da sua parte!”)

– Darf ich dich einladen?

– Ach, gerne, danke schön!

(“Você me deixa pagar pra você?”

“Uai, com prazer, muito obrigada!”)

– Ich lade dich ein.

– Nein, nein, auf keinen Fall.

(“Eu pago.”

“Não, não, de jeito nenhum.”)

Como falei, como a recusa quase só aparece numa situação em que a pessoa se ofenda com a oferta, a resposta negativa seria direta, prosaica, sem sorriso.

Alternativamente, a recusa pode ocorrer também numa situação em que a pessoa não se sentiu ofendida, mas desconfortável. Por exemplo numa situação de trabalho. Você poderia recusar a oferta se sentisse a necessidade de manter uma distância profissional da pessoa que ofereceu, mesmo que a oferta não tenha sido inadequada. Nesse caso a resposta seria direta, mas um tanto mais delicada, por exemplo:

– Ich lade Sie ein.

– Nein, nein, das müssen Sie nicht.

(“Eu pago.”

“Não, não, não precisa.”)

Da mesma maneira que a oferta de pagar pra você deve ser levada ao “pé da letra” por assim dizer, uma recusa também tem que ser interpretada como real e ser aceita. Quer dizer, se a pessoa disse que não quer que você pague pra ela, ela tem um motivo pra não aceitar e você tem que respeitar isso. Seria mal-educado insistir.

Há várias situações possíveis, claro. Às vezes, se uma pessoa sentir que tem por algum motivo alguma obrigação de pagar a conta, ela talvez faça isso antes que você possa aceitar ou recusar. O caso típico é uma pessoa mais velha, por exemplo alguém da sua família como um tio, o seu chefe em alguma situação de trabalho, coisas assim.

Na semana passada, por exemplo, fui com uma colega do trabalho e dois arquitetos de outro escritório com quem estamos fazendo um projeto em conjunto apresentar o mesmo na prefeitura, e antes da apresentação tomamos um café. Estávamos eu, minha colega, o chefe do outro escritório e uma moça que trabalha com ele. As três bem mais jovens que o chefe, que, além disso, era o único chefe presente. Ele pagou a conta sem pensar duas vezes.

Nessas situações é importante agradecer, claro. Depois da conta ter sido paga e quando estão se levantando todos para sairem do restaurante, um “Danke schön” ou “Danke für die Einladung” é essencial.

Também é importante não assumir que alguém vai pagar pra você, mesmo sendo numa dessas situações onde esse seria o esperado. Então na hora de pedir a conta, tenha a carteira em mãos, pra deixar claro que você pretende pagar sua parte.

Uma situação que pode ser problemática é alguém sente que deve sempre pagar a conta mesmo estando no mesmo “nível de hierarquia” que a outra pessoa. Porque a outra pessoa pode entender que não está sendo vista de igual pra igual. Por exemplo. Temos um amigo que ganha muito bem, além de ser gente boa e generoso, e por isso sempre que vamos jantar juntos – seja aqui na cidade em que moramos ou lá na cidade que ele mora – ele sai pagando a conta sem perguntar. Isso é uma coisa que me incomoda pra caramba, porque eu sinto como se ele estivesse desrespeitando a gente, como se ele achasse que pagar um jantar fosse fora da nossa capacidade financeira. Melhor seria se ele perguntasse antes, se nos desse a oportunidade de dizer “Não, hoje é minha vez”. Ele se dispor a pagar todas as vezes, pq sabe que ganha muito mais que os outros envolvidos, até tudo bem. Mas ir pagando sempre, sem perguntar, é desrespeitoso, uma vez que ele tem nossa idade, é um amigo de igual pra igual, não é pai, chefe ou tio.

No geral, as regras culturais de quem paga a conta não são muito diferentes do que estamos acostumados no Brasil, é mais o fator da comunicação direta que tem que ser levado em conta.

Aproveita também para ler sobre restaurantes na Alemanha!


(Publicado em 10 de Fevereiro de 2019)

Soletrando no telefone

Falar o nome de letras pelo telefone, quando você precisa soletrar alguma coisa, pode ser um certo desafio. F e S soam parecidos, B e P também, T e D, M e N… para não gerar confusão, é normal usar palavras que começam com aquela letra, para especificá-la. No Brasil, por exemplo, costuma-se usar N de Navio, D de Dado, M de Maria, A de Abelha, etc, algumas palavras escolhidas são sempre as mesmas (“N de Navio” é um clássico), outras vão da criatividade da pessoa que está soletrando.

Obviamente, na Alemanha isso também existe. Mas a diferença é que é totalmente oficial e segue uma norma específica. Tão oficial que, ao precisar soletrar por exemplo seu email por telefone, as pessoas nem falam mais as letras, só as palavras correspondentes. A norma em questão é a DIN5009 (DIN é a equivalente alemã da ABNT). Nessa lista, as palavras usadas para cada letra são, na maioria, nomes próprios.

Richard para R, Anton para A, Paula para P são alguns dos exemplos.

Ainda hoje passei por duas situações que me foram extremamente confusas, mas que são totalmente padrão em telefonemas na Alemanha. Primeiro tive que telefonar para uma pessoa e perguntar o email dela para enviar um arquivo. O fulano, Herr Thomas Müller (nome fictício) me responde: “Ah, claro, meu email é Theodor Martha Übermutt Ludwig Ludwig Emil Richard sem ponto, arroba etcetc”. Por sorte eu já tinha uma noção de que ele tava soletrando, se fosse há algum tempo atrás eu provavelmente teria enviado o email para theodormarthaübermuttludwigludwigemilrichard@etcetc. Só que ele falou tão, tão rápido os nomes que eu teria que ter estado muito pré-preparada pra entender se já não soubesse o nome dele. (Na verdade eu só sabia o segundo nome, e o email tinha a primeira letra do primeiro nome que eu obviamente não entendi na soletragem bizarra mega-rápida. Tive que ligar de novo e pedir pra ele soletrar de novo, mais devagar…)

annoyed-lady-on-phone

Telefonar em alemão ainda é uma atividade que me faz soar frio por causa dessas confusões, e como se não bastasse a primeira, no mesmo dia passei ainda por uma outra situação similar, só que ao contrário. Me liga uma pessoa que tinha tentado me mandar um arquivo, mas o email tinha voltado. Queria confirmar meu email. Não teria problema eu soletrar usando palavras ou nomes diferentes dos da norma, mas é lógico que nessa situação dá um branco total na cabeça e você não consegue pensar em absolutamente nenhuma palavra que comece com aquela letra. Especialmente em alemão!

Esse foi meu diálogo no telefone: “L de… ahm… L… L.” “De Ludwig?” “É. A de…. Ahm… não sei… A.” “Anton?” “Isso. I de… er, bem… I. S de… enfim, S. Lais.”. Foi bem constrangedor. E também não ajuda quando os nomes ou palavras tipicamente usadas pra isso são palavras que você desconhece completamente. A pessoa no telefone me soletra meu nome de volta e eu não tenho a menor idéia de que palavra ele falou quando chegou no I. Pareceu ser uma palavra começada com I, então eu confirmei, mas acho que era outra coisa porque o email voltou de novo…

Mas tudo bem, tudo bem: isso não acontecerá novamente. Logo depois do segundo telefonema fui correndo procurar a lista oficial de palavras para soletrar. Imprimi e deixei de cola do lado do telefone no escritório!

Essa lista você pode encontrar procurando por “Buchstabiertafel” (que pode ser traduzido pra algo como “quadro de soletrar”) ou pela norma, DIN5009. Ou ainda, clicando nesse link aqui do Wikipedia que mostra a lista oficial da Alemanha, a da Áustria, a da Suiça, e a de duas normas internacionais (uma dessas é aquela que sempre se ouve em filmes, usada para várias coisas internacionais como comunicação entre aviões e torres de comando: Alfa, Bravo, Charlie, Delta, Echo…).

Recomendo pra qualquer um que precise telefonar bastante na Alemanha aprender o seu nome desse jeito. O meu agora eu já sei: Ludwig Anton Ida Samuel!


(Publicado em 31 de Agosto de 2016)

A relação dos alemães com a língua alemã

Uma coisa definitivamente frustrante sobre morar na Alemanha é, claro, a língua. Não porque ela seja particularmente difícil. Sim, é difícil, mas certamente bem mais fácil que muitas outras línguas. O que torna a experiência frustrante é a relação dos alemães com a língua alemã.

Eles gostam demais da própria língua.

Você deve estar pensando que ué, não tem nada de errado nisso. Eu também gosto bastante de português. Normal gostar da sua própria língua, não é?

Claro. Só que a maneira como as pessoas lidam com pessoas que aprendem ou estão em processo de aprendizado da sua língua é variada. E a maneira como as pessoas se dispõe a tentar entender outras pessoas em outras línguas que não a sua própria também é bem variada.

Já antes de vir para Alemanha essa relação dos alemães com sua própria língua me incomodava bastante. Eu morei na Itália por um ano e lá fiz alguns amigos alemães e austríacos. E quando esses falantes nativos de alemão estavam juntos, mesmo que com outras pessoas que não entendiam nada de alemão, eles falam alemão entre si e não faziam o menor esforço em te incluir na conversa. Em várias situações em que eu estava em um grupo onde a maioria presente era falante nativo de alemão, eles se comunicavam só em alemão, excluindo da conversa, sem a menor cerimônia, eu e os outros não-alemães presentes.

E nas primeiras vezes que eu visitei o namorado na Alemanha, antes de morar aqui, passei por várias situações semelhantes. Entre amigos dele, fosse um grupo pequeno ou grande, ninguém fazia o menor esforço para me incluir na conversa sabendo que eu não entendia uma palavra de alemão. Mesmo todos sendo perfeitamente capazes de falar inglês, ninguém se dava ao esforço. E eles não achavam nem um pouco estranho nem se sentiam nem um pouco mal de te excluir completamente da conversa. É quase como se você, não falando alemão, se tornasse completamente invisível.

Aos poucos, especialmente durante meu primeiro ano aqui, fui aprendendo alemão até chegar em um ponto de fluência em que conversas cotidianas não são mais problema. Mas mesmo já podendo participar das conversas ainda sinto demais os problemas dessa relação que os alemães têm com a própria língua.

Essa exigência que os alemães fazem com os estrangeiros aqui de falar e entender alemão perfeitamente independente do tempo que vc teve para aprender acaba sendo uma maneira discreta mas muito efetiva de várias pessoas extravasarem sua xenofobia. Mesmo quem não é particularmente anti-imigrante e não tem necessariamente nada contra estrangeiros acaba revelando muito da sua xenofobia escondida quando se discute a necessidade de falar alemão.

É necessário falar alemão para viver na Alemanha? Óbvio. É necessário para um estrangeiro aprender alemão se quiser viver aqui? Necessário é, mas essa é uma questão bem relativa. Ninguém aprende uma língua de um dia pro outro. Alemão não é uma língua fácil, e para quem nunca aprendeu outra a não ser a própria língua nativa, ficar fluente em uma língua nova é um processo bem demorado. E isso é uma coisa que me parece que os alemães não estão dispostos a entender. Claro, há excessões. Mas eis um exemplo que ilustra muito bem esse problema: numa conversa entre colegas de trabalho sobre refugiados, uma mulher estava contando que foi em um evento sobre refugiados em que um jovem sírio contou a sua história. O rapaz tinha 17, 18 anos, chegou na Alemanha há uns 2 anos, e, segundo a pessoa que estava contando a história, falava alemão perfeito. Ele estava contando que nos últimos anos fez o colegial aqui na Alemanha, sem problemas, mas ao terminar o curso, não foi autorizado a participar do Abitur – a prova nacional de ensino médio que te dá acesso à universidade, algo mais ou menos equivalente ao ENEM. A mulher que estava contando essa história disse que não sabia porque ele não podia fazer a prova. Então os outros colegas em volta começaram a discutir a situação tentando imaginar qual poderia ser o motivo. A conclusão imediata, automática, foi de que provavelmente ele não sabia alemão suficiente. Vai ver – concluíram os alemães – que é necessário um determinado certificado de alemão para fazer a prova, que ele não conseguiu obter. Confusa com essa conclusão curiosa, questionei: “ué, mas você não disse que ele falava alemão perfeito?”. A resposta: “Bom, ele falava alemão muito bem, mas vai ver ele não escreve alemão bem o suficiente e por isso não passou na prova de língua”.

Quer dizer.

Um estrangeiro estava contando que não podia fazer o Abitur que lhe daria acesso à universidade. Segundo a narradora da história, ele falava alemão perfeito. E AINDA ASSIM a conclusão imediata dos alemães presentes era de que se ele não podia fazer o Abitur, devia ser quase com certeza porque ele não sabia alemão suficiente.

Burocracias complicadas referente aos direitos dos refugiados? Leis injustas para estrangeiros? Não, nada disso passou pela cabeça como possibilidade. O problema certamente era a incapacidade do menino – que falava alemão perfeito – de falar alemão. Coerência zero.

Isso para mim ilustra bem a questão: os alemães acham que para viver aqui é necessário falar alemão PERFEITO. E que qualquer coisa que você não consegue, como estrangeiro, qualquer acesso que você não tem, certamente é porque você não fala a língua suficientemente bem. Entendem o problema?

É praticamente impossível atingir um nível de perfeição em uma língua estrangeira aprendida depois de adulto. Mesmo que você fale a língua muito muito bem, seu vocabulário vai sem dúvida ser menor do que o de alguém que aprendeu a falar falando aquela língua. Sua pronúncia nunca vai ser totalmente perfeita. Nenhum estrangeiro que aprendeu alemão depois de adulto será capaz de falar alemão – gramática, vocabulário e pronúncia – melhor que um alemão. A grande maioria vai falar um alemão suficiente, mas com uma forte pronúncia e vocabulário reduzido. E ISSO TUDO BEM. Só que a língua vai sempre ser uma maneira dos alemães extravasarem discretamente sua xenofobia e insistir que é porque você não fala alemão bem o suficiente que você não consegue as coisas aqui.

Meio do gênero: “ah, não tenho nada contra estrangeiros virem morar aqui. Mas tem que falar alemão perfeito.”. Ou seja, a pessoa diz pra si mesma que não tem nada contra, mas impõe uma barreira intransponível. E não se dispõe ao menor esforço para ajudar o outro a transpor essa barreira.

Claro que não são todos os alemães que são assim. Muitos alemães – principalmente pessoas mais jovens e que já moraram um tempo em outro país e sabem o sufoco que é se comunicar diariamente em uma língua estranha – não exigem de ninguém uma pronúncia ou compreensão perfeita de alemão para respeitá-los igualmente. Muitos se esforçam pra te ajudar com a língua e não se incomodam com seus erros. E, claro, é bom lembrar que a minha frustração é muito relacionada ao fato de eu morar em Dresden – uma cidade com relativamente poucos estrangeiros, onde as pessoas têm pouquíssima convivência e tempo de convivência com pessoas de fora no seu dia-a-dia. Certamente em muitas cidades grandes da Alemanha Ocidental a experiência é bem diferente, e as pessoas são bem mais tranqüilas em relação à língua.

E, mesmo aqui em Dresden, acredito mesmo que isso melhore aos poucos nos próximos anos, com mais e mais pessoas indo morar no exterior, e mais pessoas vindo do exterior morar aqui.

Mas de uma maneira ou de outra, uma dica importante para quem está querendo vir morar na Alemanha: aprende alemão. Corre, faz curso, estuda, se esforça, porque não falar alemão vai complicar demais pra você ser aceito por aqui.


 

(Publicado em 22 de Dezembro de 2015)