médico

Doação de órgãos na Alemanha

Um item que está presente na carteira de muitos alemães é esse cartãozinho aqui:

É um cartão para informar se você é doador (ou não-doador) de órgãos. O cartão é padrão, “emitido” pela BZgA, Bundeszentrale für gesundheitliche Aufklärung, ou Central federal de educação/esclarecimentos em saúde. É um instituto pertencente ao Ministério da Saúde alemão, responsável por educar a população em questões relacionadas à saúde. Eles fazem campanhas sobre AIDS e outras doenças sexualmente transmissíveis, prevenção de doenças diversas, etc. E esse cartãozinho relativo à doação de órgãos.

Esse cartão normalmente ou o seu seguro de saúde te envia junto com informações sobre a doação de órgãos, ou você pega no consultório do seu médico, ou então você pode até pedir online no site da BZgA, onde vc também pode ler as informações a respeito: como funciona a doação de órgãos, quais órgãos podem ser doados, quais doenças podem ser curadas com transplantes, etc…

O interessante nesse cartãozinho é que você não marca simplesmente se você aceita ou não ser doador de órgãos, mas você pode inclusive especificar quais órgãos você aceita ou não aceita doar. Isso pode ser particularmente útil se alguém, por exemplo por motivos religiosos, não aceita doar digamos o coração, mas o resto tudo bem. Se não tivesse essa especificação, a pessoa colocaria, simplesmente, que não é doadora. Quando na verdade a maioria dos órgãos ela não se incomodaria de doar em caso de morte.

Traduzindo o verso do cartão, para mostrar direitinho as opções:

“No caso de, após o meu falecimento, a possibilidade de doação de órgãos ou tecidos entre em questão, eu declaro que:
(  ) SIM, eu autorizo, após a confirmação médica da minha morte, a remoção de órgãos e tecidos.
(  ) SIM, eu autorizo o mesmo, com a Exceção dos seguintes órgãos ou tecidos: __________
(  ) SIM, eu autorizo o mesmo, mas Apenas para os seguintes órgãos ou tecidos: _________
(  ) NÃO, eu não autorizo a remoção de órgãos ou tecidos.
(  ) Quanto à remoção de órgãos ou tecidos, a seguinte pessoa deve ser consultada: ______”

Também é importante saber que o que você marca no cartão não é registrado em nenhum lugar. Então você pode, a qualquer momento, mudar de idéia. Basta pedir um cartão novo – ou mesmo imprimir direto do site da BZgA, e preencher com a sua nova decisão.

Eu peguei esse cartãozinho esses dias na médica e preenchi dizendo que aceito doar todos os órgãos exceto a córnea. Porque me dá uma aflição profunda, ugh, só de pensar em remoção de córnea, ugh argh. Mas aí assim que eu preenchi o cartão pensei que transplante de córnea pode evitar que alguém fique cego, e pensei em como me sentiria se precisasse muito de um transplante de córnea e não conseguisse porque todos os potenciais doadores ficaram com afliçãozinha ao imaginar o transplante de córnea e escolheram não autorizar a remoção da córnea. Fiquei com vergonha da minha decisão boba e decidi ir buscar outro cartãozinho na médica e preencher como doadora sem restrições.

Mas enfim, a decisão sobre seu próprio corpo tem que ser só sua, então vai lá, lê as informações e preencha seu cartãozinho com convicção. O que pesou para a minha decisão foi perceber que ainda que eu sinta uma certa aflição ou aversão à idéia de remoção de órgãos do meu corpo após minha morte, eu certamente gostaria de conseguir um órgão para transplante se vier a precisar de um algum dia, e gostaria que as pessoas próximas a mim possam conseguir órgãos para transplante se vierem a precisar deles. Então nada mais justo e coerente que aceitar doar os meus no caso da minha morte.

Aqui nesse link tem um PDF da brochura da BZgA com informações básicas sobre o transplante e doação de órgãos em alemão e em inglês. Uma coisa que eles falam repetidamente nessa brochura é que, qualquer que seja a sua decisão, informe seus parentes próximos. Porque se você vier a falecer em uma situação em que determinados órgãos possam ser removidos e transplantados e eles não encontrarem o cartãozinho com a sua decisão, são os seus familiares que vão decidir. Então é bom que eles saibam qual a sua vontade. Mas a diferença grande do Brasil (pelo que eu pesquisei) é que aqui a sua vontade – registrada nesse cartãozinho ou como for – será prioridade sobre a vontade dos seus familiares. No Brasil mesmo que você tenha lá na sua carta de motorista escrito que você aceita ser doador, se sua família não autorizar a remoção dos órgãos, eles não serão removidos. Então busque lá seu cartãozinho e faça a sua vontade!


(Publicado em 2 de Maio de 2017)

 

O sistema de saúde alemão 3: Receitas e farmácias

Esse é o terceiro post sobre o sistema de saúde alemão. Nos dois primeiros posts eu escrevi respectivamente sobre os tipos de seguros de saúde (público ou privado) e sobre médicos e consultas.

Nesse post – o último sobre o assunto por hora – vou falar um pouco sobre como funcionam as receitas.

Na verdade eu nem sei direito como funcionam receitas para remédios no Brasil. Todas as receitas que eu recebi lá eram para remédios que não precisavam de receitas, então não tinha nada de especial, era só um papel com o nome do remédio assinado pelo médico.

Mas uma diferença já começa aí: Aqui quase tudo precisa de receita. Remédios bem genéricos como aspirina, ibuprofeno, essas coisas típicas para dores gerais não precisam de receita. Mas, por exemplo, anti-concepcional é uma coisa que não dá de jeito nenhum pra comprar sem receita. E os anti-concepcionais vêm sempre em uma caixa com 3 ou 6 meses de pílulas. Ou seja, você tem que voltar no seu ginecologista para buscar uma receita nova a cada 3 ou 6 meses. Isso é uma coisa que eu acho meio exagerada – facilita demais você ficar sem a pílula porque não percebeu que já era a última cartela e não conseguiu ir no consultório a tempo pra buscar outra receita. E o preço dos anti-concepcionais nunca é coberto pelo seguro de saúde – seja público ou privado – o que eu também acho problemático. Mas enfim.

Tem quatro tipos diferentes de receitas, as rosas, azuis, verdes e amarelas.

Receita rosaKassenrezept_Muster_2008.svg

A receita rosa é a mais comum. É a para remédios em geral receitados pelo médico cujo custo é coberto – parcialmente ou no total – pelo seguro de saúde do paciente. Nesse papelzinho como na imagem acima o médico imprime os dados do remédio receitado, o nome e os dados do paciente assim como o nome, dados e assinatura do médico.

Tem ainda um monte de outros números e campos que eu não tenho a menor idéia de pra que servem (¯\_(ツ)_/¯) mas são certamente muito úteis. Uma observação é que ali do ladinho tem ainda um campo para a farmácia que te vendeu o remédio em questão imprimir a identificação deles e o valor pago pelos remédios. Assim você envia a receita para seu seguro de saúde para eles reembolsarem o preço dos medicamentos. Isso no caso de vc ter um seguro privado. Se o seu seguro for público, do valor que você paga pelo remédio já é automaticamente descontado o que o seguro público cobre, e a farmácia fica com a receita para ser reembolsada pelo seguro público. Essas receitas têm uma validade que acho que varia dependendo do remédio, pode ser entre 4 semanas e 3 meses.

Receita azul

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A diferença da receita azul para a rosa é que o remédio receitado nas receitas azuis deve ser pago pelo paciente – porque os seguros não cobrem (Por exemplo receita para anti-concepcional). Essas receitas são válidas por 3 meses.

Receita verde

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As receitas verdes são para remédios que não exigem receita (mas que só podem ser vendidos por farmácias), digamos por exemplo ibuprofeno. Essa receita obviamente não tem validade.

Receita amarela

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Já a receita amarela é para medicações mais controladas, como por exemplo morfina. Essas receitas têm uma validade de 7 dias, e o são emitidas em três cópias: uma para o médico, uma para o seguro de saúde e uma para a farmácia. O valor é coberto pelo seguro de saúde, mas normalmente o paciente tem que pagar uma parte (por exemplo um mínimo de 10 euros por medicação, algo assim dependendo do seguro).

 

Ok, receitas explicas, falta ainda saber onde comprar a medicação.

Existem dois tipos de lojas aqui que poderiam ser traduzidas como farmácias: As Apotheke e os Drogeriemarkt. 

Drogeriemarkt são grandes farmácias que vendem principalmente artigos de higiene: fraldas, absorventes, cremes, shampoos, lenços, protetor solar, camisinha e também outras coisas como elástico pra cabelo, esmalte, maquiagem, etc. Basicamente tudo o que você acha em farmácias no Brasil que não são remédios. As duas principais redes de farmácias desse tipo são a DM e a Rossmann, que você encontra fácil em qualquer lugar.

Apotheke são as farmácias que vendem medicações. Lá que você leva sua receita. Elas têm sempre esse mesmo logo, independente da loja:

Deutsche_Apotheke_Logo.svg

O curioso é que não é muito fácil achar farmácias abertas a noite ou em domingos. A maioria fica aberta só até às 6, 7. Se você precisa de uma farmácia em horários não-comerciais, tem uma ou outra que fica aberta, mas não aberta, aberta. Você tem que apertar a campainha e vem alguém abrir a porta e te perguntar na porta o que você precisa, e você espera lá fora! E ainda te cobram mais caro pelo medicamento.

O resto acho que é bem parecido com no Brasil. Se a Apotheke não tem o medicamento que você precisa e tem que encomendar, normalmente chega logo no dia seguinte. Eles também sugerem medicamentos (os que não precisam de receita) se você perguntar.

Acho que é isso! Por hora é o que eu tenho a compartilhar sobre o sistema de saúde alemão.  Talvez eu escreva algum dia um post sobre hospital se eu tiver a má-sorte de precisar de algum, ou então um post sobre gravidez (que certamente dá muito papo no assunto sistema de saúde) se algum dia eu resolver engravidar.


(Publicado em 4 de Agosto de 2016)

Sistema de saúde alemão 2: médicos e consultas

No primeiro post sobre o sistema de saúde alemão eu falei sobre os tipos de seguro (público e privado), como funcionam, e quem pode ter qual tipo.

Mas talvez o mais interessante sobre o assunto seja como funcionam as consultas, médicos e hospitais.

Uma diferença grande daqui pro Brasil é que é quase impossível você marcar uma consulta diretamente com um médico especialista sem antes passar por um clínico geral. Normalmente todo mundo tem um médico clínico geral que é com quem você marca uma consulta pra qualquer assunto e esse médico – se for o caso – te encaminha para algum outro especialista. Pra várias especialidades, se você ligar pra marcar consulta sem o papel de encaminhamento de um clínico geral (Chama Überweisung) eles não te aceitam. E o clínico geral trata várias coisas sem encaminhar.

No Brasil, a gente só vai no clínico geral se não sabe de onde vem o problema. Se sabe, já marca com o especialista.

Há, claro, algumas exceções: ginecologista, por exemplo, você marca diretamente sem passar por clínico geral.

Uma outra diferença por aqui – e uma muito prática, por sinal – é que vários dos exames quem faz é o próprio médico no consultório. Por exemplo exame de sangue ou os exames ginecológicos, o próprio médico ou médica já faz a coleta no próprio consultório e envia para o laboratório para a análise. E o laboratório envia o resultado de volta diretamente para o médico ou médica. Ou seja, você nem vê o resultado antes de marcar outra consulta – o que eu acho que faz muuuuuito mais sentido. Acho meio absurdo você ter acesso ao resultado do exame sem ter o conhecimento necessário para interpretá-lo, o que em vários casos deve gerar sustos super desnecessários. E a vantagem do médico fazer a coleta ali direto é, claro, que você não precisa achar um laboratório, marcar os exames pra sei lá quando, ir fazer os exames, etcetcetc. O processo todo acaba sendo bem mais rápido.

Claro que não são todos os exames que são assim, alguns mais específicos você tem que marcar em algum lugar específico, mesmo, já que o médico não vai ter todos os instrumentos possíveis lá no consultório dele.

Para marcar uma consulta não tem nada muito especial, mas nem todos os clínicos gerais aceitam pacientes novos. Então no começo você pode precisar tentar alguns até achar um para você. Alguns aceitam mas com o tempo de espera bem maior que para quem já é paciente. E mudar de um pro outro também não é muito fácil – se você não for paciente eles te perguntam se você já tem outro médico naquela cidade e porque você quer mudar de médico.

Se você tiver um seguro público, pode ser que não seja qualquer médico que te aceite. Mas não por escolha do próprio médico: o que acontece é que no sistema público tem um número x de vagas para cada especialidade por cidade. Por exemplo, digamos que em Berlim tenha, sei lá, 2000 vagas para fisioterapeutas. Se você se formou em fisioterapia e quer abrir um consultório em Berlim, mas todas as vagas já estão ocupadas, você tem que esperar abrir uma vaga (alguém fechar um consultório, se aposentar, etc) para poder atender pacientes do sistema público, e enquanto isso só pode atender pacientes com seguros privados. Pra você como médico isso é pior porque a maioria das pessoas tem seguros públicos, então sem poder atender pelo sistema público você vai ter menos pacientes te procurando. Mas se você como paciente não conseguir marcar nenhuma consulta entre os médicos que atendem o sistema público porque todos tem um enorme tempo de espera, você pode ver com o seu seguro de eles te reembolsarem uma consulta com um médico que não atende o sistema público.

Uma coisa que também é diferente é que no Brasil normalmente os convênios não cobrem dentista – exceto os planos mais caros – nem psicólogo, psicoterapeuta, psiquiatra, etc. Aqui os seguros públicos sempre cobrem ambos, e a maioria dos privados também. Alguns seguros (privados) cobrem também o custo de óculos novos a cada x anos (normalmente dois anos) e até um valor x.

Eu queria falar também sobre hospitais, mas aí me toquei que não sei nada sobre hospitais uma vez que nunca precisei de um aqui até agora, ainda bem.

No próximo e último post sobre o sistema de saúde alemão vou falar como funcionam as receitas e farmácias por aqui!


(Publicado em 3 de Agosto de 2016)