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Sobrenome dos filhos na Alemanha

Leis e costumes referentes a nomes e sobrenomes é um assunto que sempre me interessou bastante. Já escrevi vários posts diversos sobre esse assunto: um com algumas regras referentes a nomes e sobrenomes na Alemanha, outro sobre mudar de nome ao casar, e outro sobre nomes não-alemães na Alemanha.

Mas um tema relacionado que eu abordei pouco é como funciona o sobrenome dos filhos. No caso de casamento, de filhos de pais não casados, de segundo casamento ou de divórcio, em todas essas situações tem regras referentes ao nome ou à mudança de nome dos filhos.

Pensei nesse tema de novo porque recentemente comentaram comigo que a partir dos 5 anos a criança tem direito de escolher se seu sobrenome muda ou fica o mesmo no caso do sobrenome do pai responsável mudar. Então fui pesquisar a respeito e ler as regras todas que envolvem os sobrenomes dos filhos na Alemanha. Que eu vou explicar em breve a seguir.

Mas antes, uma pequena recapitulação pra quem não leu os posts que eu linkei ali em cima. Aqui na Alemanha não se fala em “nome de casado” ou “nome de solteiro”, mas em “nome de nascimento” ou “nome de família”. Aqui você não pode acumular sobrenomes, como no Brasil. Só pode ter um. Então quando um casal se casa, eles podem escolher um nome de família – ou seja, um sobrenome pra ser o sobrenome da família formada a partir daquele casamento. Você não precisa necessariamente mudar de nome ao casar, mas se você tiver filhos, um dos dois sobrenomes vai ter que ser escolhido para a criança (já que não pode ter dois), e esse sobrenome é que é então o nome de família. Se vierem outras crianças, elas automaticamente receberão o mesmo sobrenome. Se você ao casar adotar o nome do seu cônjuge, esse será o nome de família, e as crianças vão automaticamente receber esse sobrenome ao nascerem. Ok. Vamos aos casos especiais, então.

Quando a criança nasce, filha de pais casados
Se os pais compartilharem um nome, a criança recebe automaticamente esse nome, como já discutimos. Mas se os dois ao casarem mantiveram seus respectivos nomes de nascimento, um dos dois sobrenomes – o do pai ou o da mãe – terá que ser escolhido para a criança. Os pais têm um mês após o nascimento para decidir qual sobrenome a criança vai levar. Se eles não entrarem em acordo, a justiça decide qual dos dois vai escolher o sobrenome.

Quando a criança nasce, filha de pais não casados
Se os pais de uma criança não são casados no momento do nascimento da mesma, automaticamente quem tem a custódia da criança é a mãe. E portanto a criança recebe o nome da mãe. Se os pais quiserem compartilhar a custódia eles podem entregar uma declaração de custódia (Sorgerechtserklärung). Se isso tiver sido feito antes do nascimento da criança, aí os dois podem escolher qual dos dois sobrenomes a criança vai receber. De novo eles têm um mês após o nascimento da criança para decidir. Se a tal declaração for entregue após o nascimento da criança, a criança recebe o nome da mãe.

A criança que recebeu o sobrenome da mãe automaticamente pode ter seu sobrenome mudado para o do pai nas seguintes circunstâncias:
a. Se ambos os pais estiverem de acordo. Se a criança tiver 5 anos de idade ou mais, a criança também tem que estar de acordo com a mudança de sobrenome.
b. Se após o nascimento os pais entregarem a tal declaração de custódia compartilhada. Nesse caso, eles têm até três meses para decidir se a criança fica com o nome da mãe ou muda para o nome do pai. Novamente a criança também tem que concordar com a mudança de nome se tiver 5 anos de idade ou mais.
c. Se os pais se casarem e escolherem um nome de Família, esse nome vai ser automaticamente o nome da criança. Mas se a criança tiver 5 anos ou mais, ela tem que concordar. Se ambos os pais casarem e mantiverem seus nomes de casamento, eles têm então até 3 meses para decidir se a criança fica com o nome da mãe ou muda para o do pai.

Troca de sobrenome da criança em caso de divórcio dos pais
Uma situação recorrente é que o casal com mesmo sobrenome se divorcia, e a criança fica sob custódia da mãe. Muitas vezes a mãe decide voltar a usar seu sobrenome de nascimento e aparece a questão de mudar o sobrenome da criança para o sobrenome de nascimento da mãe. Se ambos os pais estão de acordo com a mudança de sobrenome da criança, não há problema. Novamente a criança de 5 anos ou mais também toma parte na decisão. Mas se o pai (na maioria dos casos) da criança não estiver de acordo, e quiser que a criança mantenha seu sobrenome, daí a mudança só é possível em casos excepcionais em que se prove que é a melhor alternativa para o bem estar da criança.
Estou usando aqui “mãe” e “pai” da maneira como essas ocasiões são mais recorrentes. Mas pode ser ao contrário também: pode ser que o nome de família do casal era o sobrenome da mãe, e aí ao se divorciar a criança ficou sob custódia do pai e ele quer trocar o sobrenome da criança para o dele. E aí só é possível se a mãe estiver de acordo. Mas convenhamos que esse é um caso raro. E também, claro, o mesmo é válido para se a criança tiver dois pais ou duas mães em vez de um pai e uma mãe.

Troca de sobrenome da criança no caso de novo casamento de um dos pais
Se o responsável pela custódia da criança – seja o pai ou a mãe – casar de novo e adotar o nome do novo parceiro como nome de família, é possível mudar o nome da criança para o novo nome de família. Mas novamente, só se a parte que não ficou como principal responsável pela criança também estiver de acordo. E a criança, se tiver 5 anos ou mais, também tem que concordar. Uma particularidade aqui é que existe ainda a opção de a criança adotar um nome hifenado. Se você leu os outros posts sobre nome você sabe que na Alemanha existem os sobrenomes hifenados, que é uma combinação de dois sobrenomes. É uma alternativa pra quem quer adotar um nome de família ao casar, mas não quer abrir mão de seu sobrenome de nascimento. Aí você pode ter um sobrenome que é a combinação dos dois com um hífen. A criança nesse caso recebe só o nome de família. Mas no caso de novo casamento da mãe (por exemplo, ou pai), e mudança de nome para o nome do novo marido, a criança pode também adotar um sobrenome hifenado: o seu de nascimento mais o novo nome de família da mãe. Nesse caso é mais fácil conseguir que a justiça autorize a mudança de nome mesmo se o pai da criança não estiver de acordo.

CONFUSO TUDO ISSO?

Então pra facilitar vou dar uns exemplos práticos.

Como de costume, vou usar aqui uns nomes bem genéricos de exemplo, digamos assim um rapaz de nome Brad Pitt e uma moça de nome, sei lá, Angelina Jolie.

Digamos que o Brad e a Angelina resolvam se casar e adotem Jolie como nome de família. O Brad Pitt passa a se chamar Brad Jolie. Brad e Angelina Jolie resolvem ter um filho, e batizar o mesmo com um nome bem genérico e comum, digamos por exemplo Knox. O sobrenome da criança vai ser automaticamente o nome de família, Jolie. Knox Jolie.

Alguns anos depois Brad e Angelina resolvem que o casamento não tá dando certo e é hora de partir pra outra, e decidem se divorciar. Brad fica com a custódia de Knox e volta a se chamar Brad Pitt. Como Knox mora com o pai e é ele quem cuida do filho e a Angelina só aparece pra visitar de vez em quando num domingo por mês ou coisa assim, Brad acha bem justo mudar o nome de Knox para Knox Pitt. Se a Angelina tiver de acordo, tá sussa. Se ela disser não, nada feito.

Nesse meio tempo Brad reecontra uma ex-namorada de muito tempo atrás, eles voltam a se ver e resolvem se casar. Uma moça com um nome qualquer, por exemplo Jennifer Anniston.  Brad e Jennifer se casam e Brad resolve adotar o nome da nova esposa, e passa a se chamar Brad Anniston.

A nova família formada por Brad, Jennifer e Knox querem compartilhar o mesmo sobrenome, e portanto mudar o sobrenome de Knox para Knox Anniston. Se a Angelina disser que tudo bem, tá feito. Se ela disser que não, fica mais difícil. Mas aí eles podem considerar chamar Knox de Knox Jolie-Anniston, e aí fica mais fácil conseguir autorização para mudar o nome de Knox mesmo a Angelina achando ruim.

E em todos esses casos, se o Knox já tiver completado 5 anos, ele também dá pitaco no assunto e tem que concordar com qualquer mudança no seu sobrenome.

É isso!

Aqui as fontes das informações todas pra quem quiser:

http://www.familien-wegweiser.de/wegweiser/stichwortverzeichnis,did=158646.html

http://www.gesetze-im-internet.de/nam_ndg/NamÄndG.pdf

https://www.finanztip.de/namensrecht-kind/


(Publicado em 15 de Março de 2018)

Nomes de ruas

Esses dias eu estava pensando em nomes de ruas daqui e como eles são diferentes dos no Brasil.

No Brasil, o mais comum é que as ruas tenham nomes de pessoas consideradas importantes, com feitos importantes para a cidade ou para o país. Em vários casos nem são assim “nossa, que pessoa realmente importante!”, mas alguém que algum vereador x queria homenagear por algum motivo qualquer. Também não é raro que alguma rua ou ponte ou local público (escola, aeroporto, cemitério) seja conhecido por um nome, mas oficialmente tenha um outro nome totalmente diferente – normalmente o de um fulano qualquer. Exemplos em São Paulo são vários: o Minhocão, de nome oficial, usado mais ou menos nunca pela população, Elevado Costa e Silva, o Aeroporto de Guarulhos, de nome oficial Aeroporto Governador André Franco Montoro, ou ainda a Ponte Estaiada, oficialmente Ponte Estaiada Octavio Frias de Oliveira. Aliás pontes são ótimos exemplos, quase todas as pontes de São Paulo tem um nome popular e um nome oficial de algum fulano que quase ninguém sabe quem é. Imagino que em outras cidades brasileiras não seja diferente.

Curiosamente, vários desses ilustres fulanos são generais e marechais e outros militares da época da ditadura que certamente não deveriam estar sendo homenageados como grandes heróis e sim vilipendiados pelos abusos e crimes cometidos durante o período de ditadura.

Essa história de dar nomes a logradouros, ou mudar nomes já consolidados para outros para homenagear alguém virou um certo jogo político no Brasil, uma oportunidade de fazer alianças ou agradar as pessoas certas na esperança de obter algo em troca.

Pensando nisso comecei a prestar atenção nos nomes das ruas alemãs.

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Entre as ruas maiores, os nomes mais comuns são nomes de cidades próximas. Principalmente em cidades pequenas ou vilarejos isso fica muito claro porque quase todas as ruas têm o nome do vilarejo vizinho com o qual elas ligam. Eu percebi isso com muita clareza certa vez: eu estava trabalhando num projeto de planejamento urbano de um vilarejo vizinho a Dresden (onde moro), e montando a planta do vilarejo pensei em colocar flechinhas nas ruas que conectavam com as cidades ou bairros vizinhos indicando quais bairros ou cidades ficavam em cada direção. Exceto que era a informação mais redundante que eu poderia ter pensado em adicionar, uma vez que todas as ruas onde eu poderia colocar uma flechinha indicando a cidade com que conectavam já levavam o nome da mesma, que já estava marcado na planta. Era algo assim:

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Aqui em Dresden são vários os exemplos de ruas com nomes de cidades vizinhas: Bautzner Str. (Bautzen), Meißner Landstraße (Meißen), Tharandter Str. (Tharandt), Görlitzer Str. (Görlitz), Dohnaer Str (Dohna), Lockwitzer Str. (Lockwitz), Chemnitzer Str. (Chemnitz), Leipziger Str. (Leipzig), etcetcetc. E essa nomeação é bem consequente: a Radeberger Landstr., por exemplo, que liga a cidade com uma cidadezinha vizinha de nome Radeberg, chama Radeberger Landstr. até o momento em que ela cruza a fronteira com o município de Radeberg, quando o nome da rua então muda para… adivinha, adivinha? Dresdener Str., claro.

(Str., pra quem ainda não sacou, é a abreviação de Straße, que obviamente significa: rua.)

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Um tanto prática essa maneira de nomear ruas, certo? Imagina se as avenidas e estradas em volta de cidades brasileiras fossem assim, e em vez de “Rodovia João Hermenegildo de Oliveira”, por exemplo, você tivesse “Rua que vai pra Mairiporã”. Ficaria um tanto fácil saber chegar em Mairiporã. E também facilitaria lembrar os nomes das ruas e avenidas que saem da cidade. Além de ajudar aqueles que não se dão muito bem com mapas a criarem um mapa mental das redondezas.

Embora ruas com nomes de cidade sejam comuns, essa não é a única maneira de nomear ruas por aqui. Uma escolha muito comum para nomear logradouros alemães são referências físicas. Por exemplo: A rua ou avenida onde fica a estação ferroviária central da cidade frequentemente leva o nome de Bahnhofstraße – Rua da Estação. Uma rua chamada Am Theater, ou Theaterstraße certamente é a rua do teatro municipal. Am Pfaffenberg, por exemplo, seria uma rua ao longo do pé de um morro chamado Pfaffenberg. Uferstraße (rua da costa), Strandpromenade (passeio da praia) ou Seeweg (caminho do mar) (por exemplo) são ruas ao longo da praia ou da costa. Outro nome que aparece de vez em quando é Stadtblick, Vista da Cidade. É, claro, uma rua em algum lugar alto estratégico onde tem-se uma vista boa da cidade.

Algumas vezes o ponto referenciado pelo nome da rua nem existe mais. Um exemplo: dei um zoom em uma cidadezinha qualquer no meio da Alemanha no googlemaps, Straßfurt, na Alta-Saxônia (Sachsen-Anhalt). Uma rua chamada Zollstraße atravessa o rio que cruza a cidade naquela que deve ser a principal ponte da mesma. Zoll significa alfândega, o que nos leva a supor que em algum momento da história esse rio deve ter sido uma fronteira, a Zollstraße era a rua onde ficava a alfândega. Pra confirmar as suspeitas, uma rua logo ao lado chama-se Grenzstraße, Rua da Fronteira. Mesmo sem saber absolutamente nada sobre o local, dá pra inferir um pouquinho da sua história simplesmente prestando atenção aos nomes das ruas.

Também comum é nomear as ruas de acordo com a espécie de árvore plantada ao longo das calçadas. Lindenstraße por exemplo, é uma rua que tem em quase qualquer cidade (Linden, Tilia sp., é uma das espécies de árvore mais comuns em cidades alemãs). É também o nome de uma das principais ruas de Berlin, Unter den Linden, Sob as Tílias (não consegui descobrir se tem um nome em português para Linden então estou usando o nome em latim).

Ruas com nomes de pessoas também tem bastante por aqui, mas são normalmente nomes bem conhecidos. Típicos homenageados são nomes importantes das ciências, artes e filosofia, como Beethoven, Dürer, Einstein, Karl Marx, Nietzsche, etc. Não apenas alemães, mas outros de nacionalidades diversas também são comuns, como Newton, Vivaldi, Mozart, Freud. Esses aparecem só com o sobrenome. Também comum é homenagear pessoas que foram perseguidas pelo nazismo como Rosa Luxemburgo, Hannah Arendt, Olga Benario. Esses aparecem com o nome completo. Aparecem ainda alguns políticos importantes para a história do país como Willy Brandt, ou ainda nomes de alguns reis de um passado mais distante, como – aqui em Dresden, a capital do extinto reino da Saxônia – Augustus (Augusto, o Forte).

Dando zooms aleatórios nos mapas de diversas cidades, me parece que os nomes mais comuns são mesmo as referências físicas: igreja, escola, lago, morro, rio, orla, mercado, castelo, estação, e cidades vizinhas. Essa impressão é corroborada por essas estatísticas aqui mostrando os cinco mais comuns nomes de ruas da Alemanha: Hauptstraße (Rua Principal), Schulstraße (Rua da Escola), Dorfstraße (Rua do Vilarejo), Gartenstraße (Rua do Parque/Jardim) e Bahnhofstraße (Rua da Estação).  Hauptstraße, a mais comum, é nome de alguma rua em nada mais nada menos que 6.284 cidades alemãs!

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No Brasil também tem alguns desses exemplos, claro. E não é por acaso, essas ruas têm esses nomes não porque alguém sentado num escritório de um edifício governamental inventou assim, mas porque elas já eram conhecidas por esses nomes antes destes serem oficializados. Mesmo ruas com nomes já oficiais acabam ganhando nomes de referência não oficiais. Não é difícil imaginar alguns dos muitos diálogos corriqueiros do dia-a-dia que se encaixam nesse contexto, digamos por exemplo a sua avó te dizendo “Ô Filha, leva esse doce aqui pra Dona Maria pra mim? Ela mora ali na rua do sacolão, na casa verde!” ou então talvez “Filha, busca pra mim um pão lá na padaria? Mas vai naquela da rua da feira, que a da esquina ali da igreja o pão é mais caro!”. Então na prática a diferença é que enquanto no Brasil quem define nome de rua são uns políticos feios e antipáticos, na Alemanha quem decide são as vovós!

Pra terminar, deixo aqui algumas referências que usei para escrever esse post:

Um artigo interessante sobre a nomeação de logradouros no Brasil e o jogo político por trás;
Um mapa com os nomes de ruas mais comuns nos diferentes países da Europa;
Um artigo interessante sobre nomeação e renomeação de ruas em Berlin.

Mas a principal referência mesmo foi o Google Maps! 😉


(Publicado em 27 de Janeiro de 2017)

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Sobre mudar de nome ao casar

Os posts estão atrasados, eu sei! Fim de ano é sempre corrido não importa se você estuda, trabalha, cuida da casa e dos filhos, ou seja lá qual for a ocupação que você escolheu para passar o tempo entre refeições.

Mas hoje tive uma conversa sobre nomes engraçados com minha colega no trabalho, e fiquei com vontade de escrever (mais) um post sobre nomes. Eu escrevi já um post sobre como funcionam nomes e sobrenomes na Alemanha, e também um outro sobre nomes não alemães na Alemanha, e também no post sobre casar aqui eu falei sobre como funcionam as regras de mudança de nome.

Esse é sobre mudança de nome também, mas não sobre regras.

Eis que na conversa com a minha colega sobre nomes engraçados, ela contou que a filha dela casou e mudou de nome, para um nome bem constrangedor. Não vou mencionar o sobrenome em especial para não ofender ninguém com o mesmo sobrenome, mas basicamente é um sobrenome com um significado bem peculiar.

Isso que me inspirou a escrever esse post. Como eu já expliquei provavelmente nos três posts que eu linkei lá em cima, ninguém é obrigado a mudar de nome ao casar aqui, claro, e você pode ou trocar seu sobrenome pelo do/a marido/esposa, ou adicionar o dele/a extra ao seu com um hífen. A Joana, por exemplo, suponhamos que o nome de nascimento dela era Joana Belo. Aí casando com o (digamos) Lúcio Peixoto, ela poderia mudar o nome dela pra Joana Belo-Peixoto, ou Joana Peixoto-Belo, ou ainda Joana Peixoto, ou deixar o Joana Belo.

Eu vou me casar no ano que vem e nunca nem de longe passou pela cabeça cogitar mudar de nome. Eu entendo que ainda hoje algumas pessoas escolham mudar de nome ao casar, ainda tem uma certa romantização da família toda ter o mesmo nome, em círculos mais conservadores ainda é um tanto inesperado que a noiva mantenha seu nome de nascimento, e, claro, em muitos casos a pessoa nem gosta de seu nome de nascimento e aproveita a oportunidade para se livrar dele para sempre. Tudo bem. Eu gosto muito do meu sobrenome, acho ele bem bonito, ele é parte da minha identidade, nunca pensei em mudar.

Mas o que me surpreende é o quanto isso – a mulher manter o nome de nascimento depois de casar – ainda é totalmente estranho para os alemães! Você imaginaria que aqui as pessoas são menos conservadoras, menos ligadas a essas tradições. Mas to-das as mulheres com quem eu falei sobre o assunto – to-das – responderam com “Não vai mudar? Mas nossa, por quê?” como se não mudar de nome signficasse que eu não amo meu noivo o suficiente ou pretendo me divorciar, ou coisa assim. Fico até com uma pontinha de dúvida se as pessoas não ficam achando que se eu não vou mudar de nome é porque eu quero casar só pra tirar o visto de permanência aqui (o qual eu nem preciso ter) ou coisa assim.

É curioso como todas as mulheres alemãs da minha geração que eu conheço aqui e que são casadas mudaram o sobrenome pro do marido. As únicas mulheres que eu conheço aqui de idades próximas à minha que mantiveram o nome ao casar são brasileiras!

E a única alemã que eu conheço que tem seu nome de nascimento é a minha sogra, que mudou de nome ao casar (era obrigatório na época) e assim que a lei mudou e passou a permitir manter o nome de nascimento (no começo dos anos 90) ela foi correndo mudar o nome de volta para o nome original! O casal continua junto até hoje, a desmudança do nome nada tinha a ver com o marido ou com a relação, é uma questão de identidade, mesmo. Acho essa história o máximo!

Isso tudo é estranho também porque aqui, diferente do Brasil, sobrenomes são muito importantes. Em ambientes profissionais quase sempre você será tratado pelo seu sobrenome, só entre colegas da mesma empresa com quem você convive diariamente é que você usa o primeiro nome. Numa reunião, por exemplo, com pessoas de outras empresas, você jamais vai usar o primeiro nome.

Então num contexto desse onde você realmente acostuma a se identificar pelo seu sobrenome, e em 2016 num país onde as pessoas acham muito sinceramente que machismo é coisa do passado ou de outros lugares do mundo, me é muito estranho que as mulheres aceitem mudar de nome tão tranquilamente, sem questionar, e que ainda lhes pareça tão estranho que alguém escolha manter o nome original. Porque Pelo Amor De Deus. Se você tá deliberadamente mudando seu nome pra algo engraçado ou constrangedor, é porque tem alguma coisa errada aí.

Mesmo no cartório, quando fomos entregar os documentos para tirar a “autorização” para casar, senti uma ligeira pressão da funcionária no sentido de mudar de nome. Ela disse que não precisa, e informou direitinho as regras, mas repetiu muitas vezes que eu posso mudar de ideia e mesmo depois de casada mudar meu nome pro do meu marido, a qualquer momento eu poderia fazer isso, viu, pode ficar à vontade, se você quiser mudar a gente muda, você pode estar com 70 anos de idade que tudo bem, quiser mudar o nome pro do marido vem aí que a gente muda! Se eu ainda tivesse expressado alguma dúvida a respeito quando ela perguntou da primeira vez… mas nós fomos bem claros desde o início que não haveria mudança de nome e mesmo assim houve uma insistência muito grande em me assegurar que eu poderia mudar de ideia…

Eu quero só ver as pessoas depois que eu casar me tratando pelo sobrenome do meu marido. Vão ouvir um “ESSE NÃO É MEU NOME!” bem grosso…


(Publicado em 9 de Dezembro de 2016)

Soletrando no telefone

Falar o nome de letras pelo telefone, quando você precisa soletrar alguma coisa, pode ser um certo desafio. F e S soam parecidos, B e P também, T e D, M e N… para não gerar confusão, é normal usar palavras que começam com aquela letra, para especificá-la. No Brasil, por exemplo, costuma-se usar N de Navio, D de Dado, M de Maria, A de Abelha, etc, algumas palavras escolhidas são sempre as mesmas (“N de Navio” é um clássico), outras vão da criatividade da pessoa que está soletrando.

Obviamente, na Alemanha isso também existe. Mas a diferença é que é totalmente oficial e segue uma norma específica. Tão oficial que, ao precisar soletrar por exemplo seu email por telefone, as pessoas nem falam mais as letras, só as palavras correspondentes. A norma em questão é a DIN5009 (DIN é a equivalente alemã da ABNT). Nessa lista, as palavras usadas para cada letra são, na maioria, nomes próprios.

Richard para R, Anton para A, Paula para P são alguns dos exemplos.

Ainda hoje passei por duas situações que me foram extremamente confusas, mas que são totalmente padrão em telefonemas na Alemanha. Primeiro tive que telefonar para uma pessoa e perguntar o email dela para enviar um arquivo. O fulano, Herr Thomas Müller (nome fictício) me responde: “Ah, claro, meu email é Theodor Martha Übermutt Ludwig Ludwig Emil Richard sem ponto, arroba etcetc”. Por sorte eu já tinha uma noção de que ele tava soletrando, se fosse há algum tempo atrás eu provavelmente teria enviado o email para theodormarthaübermuttludwigludwigemilrichard@etcetc. Só que ele falou tão, tão rápido os nomes que eu teria que ter estado muito pré-preparada pra entender se já não soubesse o nome dele. (Na verdade eu só sabia o segundo nome, e o email tinha a primeira letra do primeiro nome que eu obviamente não entendi na soletragem bizarra mega-rápida. Tive que ligar de novo e pedir pra ele soletrar de novo, mais devagar…)

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Telefonar em alemão ainda é uma atividade que me faz soar frio por causa dessas confusões, e como se não bastasse a primeira, no mesmo dia passei ainda por uma outra situação similar, só que ao contrário. Me liga uma pessoa que tinha tentado me mandar um arquivo, mas o email tinha voltado. Queria confirmar meu email. Não teria problema eu soletrar usando palavras ou nomes diferentes dos da norma, mas é lógico que nessa situação dá um branco total na cabeça e você não consegue pensar em absolutamente nenhuma palavra que comece com aquela letra. Especialmente em alemão!

Esse foi meu diálogo no telefone: “L de… ahm… L… L.” “De Ludwig?” “É. A de…. Ahm… não sei… A.” “Anton?” “Isso. I de… er, bem… I. S de… enfim, S. Lais.”. Foi bem constrangedor. E também não ajuda quando os nomes ou palavras tipicamente usadas pra isso são palavras que você desconhece completamente. A pessoa no telefone me soletra meu nome de volta e eu não tenho a menor idéia de que palavra ele falou quando chegou no I. Pareceu ser uma palavra começada com I, então eu confirmei, mas acho que era outra coisa porque o email voltou de novo…

Mas tudo bem, tudo bem: isso não acontecerá novamente. Logo depois do segundo telefonema fui correndo procurar a lista oficial de palavras para soletrar. Imprimi e deixei de cola do lado do telefone no escritório!

Essa lista você pode encontrar procurando por “Buchstabiertafel” (que pode ser traduzido pra algo como “quadro de soletrar”) ou pela norma, DIN5009. Ou ainda, clicando nesse link aqui do Wikipedia que mostra a lista oficial da Alemanha, a da Áustria, a da Suiça, e a de duas normas internacionais (uma dessas é aquela que sempre se ouve em filmes, usada para várias coisas internacionais como comunicação entre aviões e torres de comando: Alfa, Bravo, Charlie, Delta, Echo…).

Recomendo pra qualquer um que precise telefonar bastante na Alemanha aprender o seu nome desse jeito. O meu agora eu já sei: Ludwig Anton Ida Samuel!


(Publicado em 31 de Agosto de 2016)

Sobre nomes não-alemães na Alemanha

Esse post é mais um desabafo que efetivamente informação útil, mas serve.

Uma “dificuldade” inesperada que você pode talvez encontrar aqui na Alemanha é o seu nome. Tem vários nomes em alemão que são iguais ou pelo menos parecidos com nomes em português. Por exemplo Julia, Lisa, Stefanie, Carolina, Mathias, Lucas, Laura, Daniel, entre outros diversos, às vezes idênticos, às vezes com pequenas diferenças na grafia.

Vários outros nomes não são usados em alemão mas não soam estranho para os alemães, pq são nomes bem comuns em Italiano, Espanhol, ou outras línguas da europa ocidental (inclusive português).

Mas alguns nomes mais “exclusivos” do Brasil podem gerar grandes confusões para os alemães.

Mesmo nomes extremamente bonitos como, não sei, por exemplo, digamos, Laís. Laís não é o nome mais indicado para se dar para uma criança caso você planeje que a mesma viva um dia na Alemanha, vamos combinar (tudo bem, mãe, eu sei que não estava nos seus planos!). Vou escrever sobre as dificuldades do nome Laís – porque eu tenho uma certa experiência com esse nome – mas elas valem para qualquer nome um pouco menos mainstream.

A primeira dificuldade é que, ao ler seu nome, os alemães não vão ter muita idéia de como pronunciá-lo. E aí na dúvida eles preferem simplesmente não dizer seu nome nunca, pra não correr o risco de dizer errado. Se você por acaso se apresentar dizendo o seu nome – por mais devagar e claro que você o diga – eles não vão entender e também não vão fazer muito esforço pra entender e lembrar como se pronuncia. E aí quando eles precisarem falar seu nome, vai ser totalmente awkward.

Por exemplo: eu tava fazendo treino de patins na universidade há quase um ano. Era um grupo pequeno com umas 10 pessoas, só. Os dois treinadores sabiam o nome de todo mundo, e em várias situações chamavam ou se referiam às pessoas pelo nome… menos eu, óbvio. Ao invés de simplesmente perguntar, “ei, como fala seu nome, mesmo?”, eles preferiam disfarçar e evitar precisar falar meu nome, o que me fazia sentir totalmente excluída, já que eles tratavam todos os outros por nome. E consequentemente eles nunca me chamavam pra escolher time, ou pra escolher um jogo, ou pra começar um jogo, ou o que for.

Outra situação que me deixou bem ofendida foi quando um tio do meu namorado – alguém que já me conhece há uns 5 anos – precisou se referir a mim e me chamou de “coisa”, tipo “ah, vou dar carona pro Niklas e pra coisa”.  Sabe quando vc fala ‘coisinha’ quando vc não lembra o nome de alguém? Tipo isso. Guardarei rancor dessa situação pro resto da vida. Pô, alguém que eu vejo com relativa freqüência há alguns anos e a pessoa ainda não se deu o menor trabalho de tentar aprender um nome de quatro letras e duas sílabas? Obrigada.

Pela minha experiência, se algum alemão fez esforço para guardar seu nome (sendo ele um pouco diferente) e ainda acertar a pronúncia pelo menos um pouquinho, tenha esse alemão em alta estima: ele ou ela realmente se importa com você.

Uma dificuldade adicional se seu nome não termina com A nem O (que mesmo não sendo as terminações de substantivos femininos e masculinos em alemão, são interpretadas assim com facilidade) para os alemães é saber se você é homem ou mulher. Claro que se a pessoa te conhece pessoalmente não vai ser o caso, mas digamos se você manda um email pra alguém que não conhece. Em situações formais os alemães SEMPRE se dirigem a você por “Sra. Fulana” ou “Sr. Fulano” sendo Fulano seu sobrenome, claro. Como fazer se seu sobrenome não diz nada pra eles? Normalmente eu recebo cartas ou emails endereçados ao Senhor Laís. Isso me deixa mais com raiva que qualquer coisa: putz, é só digitar Laís no Google Images pra descobrir que é um nome feminino, sabe. Que dificuldade… E a impressão que dá é que eles na dúvida escolhem te tratar por “Herr” achando que um homem se ofenderia mais ao ser tratado por “senhora” que uma mulher por “senhor”. Isso que me deixa com mais raiva.

A única boa noção que os alemães têm em relação a nomes que lhe soam estranhos é de não fazer careta quando ouvem seu nome pela primeira vez. Se eles acharem seu nome estranho, feio, ridículo ou engraçado, certamente não deixam transparecer no rosto essa opinião. Só uma vez me aconteceu de dizer meu nome pra alguém e a pessoa fazer uma cara de “what?”, e é alguém que eu nem tenho certeza se era mesmo alemão, então de repente nem era e os alemães todos têm essa boa noção.

Puxa, esse post ficou amargo! Mas para compensar, podemos também mencionar alguns nomes alemães bem duvidosos: Imke, Sieglinde, Dorit, Eberhard, Inga, Uwe (e ainda se pronuncia “Uva”), Jochen, Wolfgang, Jens, Antje, Jörn, Aljoscha. Todos tirados numa rápida olhada na lista de contatos do meu namorado. Ha!

Se você quiser saber um pouco sobre nomes na Alemanha (como funcionam sobrenomes, quais nomes podem ser registrados em crianças (tem regra!) e outras coisinhas assim, dá um pulo nesse post aqui!


(Publicado em 18 de Outubro de 2015)