pessoas

Impressões sobre o Brasil

Há alguns dias atrás voltei de uma curta viagem a São Paulo, a terceira desde que mudei pra Alemanha, mas a primeira desde 2015. Fazia 4 anos desde minha última visita!

Eu achei que fosse parecer tudo muito estranho, sei lá, diferente ao mesmo tempo que familiar. Mas não, tava tudo igual. Na verdade o mais estranho dessa viagem foi chegar e tá tudo bem normal e me sentir tão normal quanto se eu tivesse ficado fora um fim de semana. E aí voltar pra cá alguns dias depois e ter exatamente o mesmo feeling. Foi como se a gente não tivesse viajado continentes mas só ido visitar a mãe noutra cidade rapidinho!

Mas claro, houveram algumas coisinhas que eu notei. A maioria das coisas que eu achei que fosse estranhar depois de tanto tempo fora eu não estranhei nenhum pouco, foram totalmente normais. Mas uma em especial eu estranhei demais, algo que eu, enquanto morava no Brasil, nunca tinha notado. Nem quando mudei pra cá tinha percebido a diferença. Só agora voltando depois de vários anos que eu notei. Que coisa é essa?

1 . BARULHO, VOLUME, ALTO, SOCORRO

Todo o resto das coisas diferentes eu achei adaptável, pelo menos assim só por duas semanas. Mas isso me incomodou DE-MAIS. Tudo. É. MUITO. Barulhento. A cidade é barulhenta, tem muito carro, muito ônibus, motos extremamente barulhentas em grandes quantidades, tudo muito denso, os prédios muito altos em grandes quantidades só contribuem pra reverberação infinita dos barulhos, nas casas os materiais mais comuns refletem em vez de absorver os sons (pisos frios, janelas de alumínio…), e nenhum lugar tem nenhum tipo de isolamento acústico. E como tudo é muito barulhento, as pessoas ficam menos sensíveis ao volume e coisas que nem precisavam ser barulhentas acabam sendo. Como restaurantes, vários dos quais tem música de “fundo” tão alta que você tem que levantar a voz pra conversar com seu amigo. E aí o restaurante é grande e como brasileiros têm muitos amigos e famílias grandes, vão todos em grandes grupos no restaurante, e todos tem que levantar a voz, e aí fica maior barulho e aí todo mundo tem que falar ainda mais alto e aí fica mais barulho e aí as pessoas têm que falar ainda mais alto e etc etc espiral infinita de volume cada vez maior e sensibilidade para barulho cada vez menor.

Nesses poucos dias que estivemos lá, fomos num show com amigos e tivemos que sair mais cedo por causa do som em volume exagerado. Mas era exagerado MESMO. Era num volume absolutamente intolerável, de doer os ouvidos. E antes mesmo de começar o show (tinha um DJ colocando algumas músicas pra ir animando a platéria) o volume já estava exageradamente alto a ponto de ser completamente impossível conversar. Completamente impossível. Isso antes do show começar… não deu pra ficar. Que decepção.

Tudo bem que eu sempre fui particularmente sensível a barulhos muito altos (se quiser me ver desejar a morte lenta e dolorida de alguém, basta passar de moto com o escapamento alterado por perto), mas até passar um tempo num país e cidade onde as casas e apartamentos são super bem isolados acusticamente, as pessoas no geral fazem menos barulho e o trânsito é bem mais tranquilo, nunca tinha percebido o quão exagerado é o volume de São Paulo. Sério, foi uma coisa que me incomodou demais nesses últimos dias. A única coisa que me incomodou, na verdade. Outras coisas eu tinha esquecido ou achei curioso lembrar que era assim ou assado, mas essa foi a única que me incomodou profundamente.

Mas já que esse não é um post de um tema só, vou continuar e comentar as outras coisas que eu notei diferentes (que eu obviamente já sabia ser diferentes, mas que foi interessante perceber com clareza de novo):

2 . Pessoas muito simpáticas, muito fáceis de conversar, tudo fácil

MEUDEUS como os brasileiros são simpáticos! Que alívio passar alguns dias numa cidade onde as pessoas sorriem ao conversar com você SEM MOTIVO ESPECÍFICO! Apenas pq estão sendo tão simplesmente simpáticas e só isso! E as pessoas desconhecidas não fazem um tremendo esforço sobrehumano pra fingir que todas as outras pessoas na rua são absolutamente invisíveis! Elas pedem desculpas se esbarram em você! Elas falam com você quando necessário! Elas sorriem quando querem ser educadas! Elas riem pra ser simpáticas, só pq faz bem! Dava vontade de abraçar todo mundo!

Não estou dizendo que os alemães são maus. Mas é que na Alemanha, as pessoas só são simpáticas com você (talvez) quando elas te conhecem. Não assim, na rua, só porque sim. Entre desconhecidos, os alemães tentam sempre não ver ninguém. A diferença já notamos logo no ônibus do aeroporto pra casa (ao voltar pra Alemanha, digo). Nossas malas estavam no espaço do ônibus para malas, bicicletas ou carrinhos de bebê. Ao fazer uma curva mais brusca, as nossas e a mala de uma outra senhora escorregaram rápido em direção à porta do ônibus. Nós teríamos ficado de pé na frente das malas para evitar que isso ocorresse, já que elas têm rodinhas, mas assim que colocamos as malas lá um outro fulano – um com mala pequena de carregar no ombro – colocou a sua lá também e postou-se de pé na frente de todas as outras malas. Quando as mesmas escorregaram na curva, dito fulano pula para longe das mesmas deixando-as escorregar descontroladamente e cair-se umas por cima das outras. Uma mãozinha estendida teria evitado que as malas escorregassem. Até aí até tudo bem. Nós levantamos para colocar as malas de volta no lugar (desta vez, claro, deitadas), mas o fulano tinha se postado do lado da sua mala não espaçosa de maneira a ocupar todo o espaço dedicado a malas. A gente colocou uma no cantinho que ele deixou sobrando, meu marido pediu licença, ele ignorou, e ficaram as duas outras malas (a nossa e a da outra senhora) no meio do corredor. Porque o fulano queria ficar lá de pé no lugar dedicado as malas para não ficar longe da sua MALINHA DE OMBRO que tinha que ficar no chão. Ah, não…… após colocar nossas malas de volta no local – depois da pessoa mega simpática finalmente descer do ônibus – eu e meu marido comentamos um pro outro: “ah, que alívio voltar pra Saxônia, não?”…

Mas sério. De verdade. Eu sei que você vai dizer “Ai, magina, aqui no Brasil tem muita gente mal educada!” ou então talvez “Ah, quando eu estive na Alemanha achei todo mundo muito simpático.”, mas acredita no que alguém que mora aqui há sete anos tá dizendo: os brasileiros são MUITO simpáticos e amigáveis. MUITO. Existe amor em SP e como!

3 . Amigos tranquilos, soltos, relax

Não apenas as pessoas no geral são mais simpáticas, mas inclusive os amigos são mais soltos. O que quero dizer com isso é que, entre alemães demora demais pra uma amizade chegar num nível tal que as duas pessoas se sintam plenamente confortáveis uma com a outra pra falar sobre assuntos mais difíceis ou íntimos. Eu tenho duas amigas alemãs que eu gosto muito e com quem me dou muito bem, mas mesmo com elas ainda tem uma certa pequena barreira ainda existente, em que nem eu nem elas nos sentimos 100% no pleno conforto de uma amizade próxima. Com os amigos do Brasil – lógico que eles são amigos de mais tempo, mas mesmo assim – rola uma tranquilidade maior na relação, um comforto muito grande. Aliás eu sinto essa tranquilidade e abertura mesmo com amigos brasileiros que eu fiz aqui, quer dizer, que são mais recentes. Sei lá, tem um nível de tranquilidade entre as pessoas que aqui na Alemanha parece que só se atinge depois de décadas de amizade, sei lá.

4 . Trânsito muito lento, mesmo quando não tem mto trânsito

Quando a gente reclama de trânsito em São Paulo, ou outras grandes cidades brasileiras, normalmente a gente pensa que a causa desse problema é ou a quantidade de carros ou a quantidade de faixas disponíveis para carros. Como boa urbanista que sou, meu argumento teria sido quantidade de carros e insuficiência do transporte público. Tá certo, claro. Mas é mais que isso. Tem um outro fator que eu desconhecia, que eu só percebi agora após reaprender a dirigir na Alemanha, ter um pouco de experiência no tráfego urbano alemão (como pedestre, ciclista e motorista) e voltar para o Brasil.

Esse fator é a organização do tráfego.  A impressão que eu tive nessa curta viagem a São Paulo é que os carros têm que parar com muita freqüência, mesmo quando a rua está vazia, e as paradas são muito longas. Você estará pensando “Pô, isso não precisa ir pra Alemanha pra perceber, eu sou motorista no Brasil e sempre reclamei dos muitos semáforos e que ficam muito tempo no vermelho.”. Tanto não sou a primeira pessoa a achar isso que umas pessoas lá a uns anos atrás resolveram desenhar uma cidade inteira pensando no bom fluxo ininterrupto de carros.

Então o que estou dizendo é que o modelo de Brasília é a solução pro trânsito das metrópoles brasileiras ou mundiais? Não mesmo. Nem de longe.

O que eu percebi e não sabia antes foi só a comparação de como funcionam as coisas aqui. Em primeiro lugar: muitas ruas não tem semáforo pq a regra de quem tem preferência é sempre MUITO clara. Se você já leu meu post sobre a prova teórica para habilitação alemã, você já tem uma idéia: tem várias regras diferentes e específicas e placas específicas diversas definindo quem tem a preferência em cada caso. Foi o fator que eu mais senti dificuldade em me acostumar ao tirar a carta de motorista aqui, porque no Brasil é uma coisa bem mais instintiva. Às vezes tem placa de pare, mas muitas outras vezes a regra é mais vaga e as pessoas se entendem ao chegar no cruzamento. Dá certo também, mas não quando é uma rua com mais movimento. Aí tem semáforo. Aqui é sempre bem precisa, a regra. Então tem menos semáforo.

Em segundo lugar: quase sempre (exceto em avenidas grandes) você pode fazer a conversão à esquerda num cruzamento daqui, raramente você precisa dar a volta no quarteirão virando à direita três vezes pra conseguir entrar à esquerda.

E finalmente, quando tem semáforo, são normalmente só duas fases, e não  três. O que quero dizer é: num cruzamento com semáforo na Alemanha, tem a fase em que está vermelho pra rua Norte-Sul (por exemplo) e verde pra rua Leste-Oeste, e aí a fase em que está vermelho pra rua Leste-Oeste e verde pra Norte-Sul. No Brasil em cruzamentos maiores têm ainda a terceira fase: vermelho pras duas ruas e verde pros pedestres.

Você está pensando: mas nossa, super centrado no motorista esse sistema, péssimo pro pedestre, você não consegue atravessar é nunca!

Pois é, aí que está a GRANDE diferença. Por lei, e isso é igual na Alemanha e no Brasil, na conversão a preferência é do pedestre. Isso significa que, ao virar à esquerda ou à direita para entrar numa rua, você tem que parar se tiverem pedestres atravessando (ou ciclistas à sua direita que sigam em frente). Se essa regra é levada a sério, como é aqui, você não precisa da terceira fase do semáforo, nem precisa sempre de semáforo pros pedestres conseguirem atravessar com segurança, pq quando está vermelho pra rua que você está atravessando, os carros entrando da rua em que está verde vão necessariamente esperar você atravessar antes de fazer a conversão.

A diferença de respeitar regras que são mais difíceis de multar (multar violação do semáforo é fácil, é só colocar um radar. Mas multar o não respeito à preferência do pedestre na conversão, ou o não respeito às regras de preferência gerais, precisa necessariamente de um fiscal de pé na esquina assistindo o trânsito) é uma coisa tão profundamente cultural que eu fico meio desenperançosa que dê pra mudar no curto prazo, no Brasil. Interessante que é o nosso próprio desrespeito como motorista às regras de trânsito que faz com que a gente fique parado no trânsito mais tempo….

Então não vejo que simplesmente adotar o sistema alemão de tráfego resolveria os problemas do trânsito paulistano. Teria que ter uma mudança muito mais profunda da cultura de respeito às regras… sei lá… acho que investir em muito metrô é uma solução mais realista (e bom, essencial AINDA QUE o sistema alemão pudesse ser adotado no Brasil).

5 . MUITO plástico

Uma coisa muito positiva dos alemães é que eles realmente não são fãs de plástico. Qualquer coisa de plástico é vista como tosca e se dá sempre preferência a outros materiais como madeira, metal, louça, vidro ou o que for dependendo do objeto em questão.

Mas uma reclamação recorrente por aqui é a quantidade de plástico em embalagens de supermercado. Em muitos supermercados, as frutas e verduras já vêm pré-embaladas em plástico, algo que mais e mais alemães criticam. Não é incomum por aqui a embalagem ser critério de decisão na compra de um produto – muita gente prefere comprar a marca que vem menos embalada.

Embora isso também venha mudando no Brasil, a diferença ainda é gritante. Sacos plásticos ainda são muito comuns, mesmo em situações em que qualquer sacola é completamente desnecessária. Tipo, sei lá, comprar frutas ou verduras no supermercado e colocar as frutas/verduras escolhidas numa sacolinha transparente que depois vai dentro da sacola das compras no caixa. Tá, se você estiver comprando trinta limões, tudo bem colocá-los numa sacola ali na hora de escolher pq não é muito fácil carregar trinta limões na mão, assim. Mas se for um ou dois limões, que vão no carrinho, e depois vão na sacola quando passarem no caixa, pq uma sacola extra? Na feira, a mesma coisa, vc compra um abacaxi, sei lá, e você tem lá sua sacola retornável, e mesmo assim te dão o abacaxi numa sacola plástica pra vc colocar dentro da sacola retornável. como se as frutas e verduras diferentes não pudessem se encostar, sei lá? E na hora de passar no caixa, no supermercado, é um exagero de sacolas, como se cada produto ligeiramente diferente precisasse de uma sacola pra si porque ai de todos nós se a banana encostar no Iogurte. ?? Sei lá, é um exagero grande de plástico, um uso completamente desnecessário…

Mas, como eu falei, isso vem mudando bastante também no Brasil. Da última vez que eu fui pra lá, em 2015, isso me incomodou também, e era bem pior que agora. Dessa vez, se eu não quisesse sacola plástica, eu conseguia que não me dessem nenhuma sacola. Da outra vez eu lembro de precisar tirar as coisas de sacolas que eu não queria e devolver as mesmas pq antes que eu pudesse dizer que não precisava de sacola para levar A UMA CAIXINHA DE ASPIRINA que eu tinha comprado na farmácia, a mesma já tinha sido colocada dentro de uma sacola plástica altamente desnecessária. Dessa vez senti que em vários lugares as pessoas perguntavam se eu queria sacola, antes de ir colocando as compras na mesma.

 

Enfim, acho que esses foram os pontos principais! Eu gostei muito de voltar pro Brasil – a longa ausência já estava ecoando. Pena que foram poucos dias e acabou não dando pra rever todo mundo que eu gostaria de ter revisto. Mas fez bem, voltar. E o marido desatou a falar um português que impressionou todos!


(Publicado em 12 de Maio de 2019)

 

Diferenças entre a Alemanha e a América do Norte

O blog anda meio parado, mas é por um bom motivo: passei as últimas três semanas de férias. Aproveitamos o tempo para viajar para os Estados Unidos e Canadá, e fazia já um tempo que eu não viajava para fora da Europa (2 anos e meio desde minha última visita ao Brasil). Essa viagem foi interessante para eu perceber como várias coisas que são diferentes aqui eu já me acostumei tanto que até esqueci que são diferentes em outros lugares. Nesse sentido é interessante também notar o quanto os países do continente americano têm muitas semelhanças entre si. Diferenças também, claro. Mas muitas coisas que eu notei serem diferentes nos EUA daqui são no Brasil assim também.

Então resolvi fazer um post listando as principais diferenças que notamos entre a América do Norte e a Alemanha/Europa.

Restaurantes/Comida
A primeira coisa que notamos – e que nos incomodou muito – foi que nos EUA em fast foods e cafés você sempre seeeempre recebe talheres e pratos e copos descartáveis. Não importa se você especificar que vai comer no local, em qualquer restaurante ou café onde você tem que pedir a comida no balcão vem tudo, sempre, em pratos e copos de papelão ou plástico. Não dá pra acreditar a quantidade desnecessária de lixo gerado. Cada cafézinho num copo descartável, que desespero! Na Alemanha as coisas realmente só vem em copos descartáveis quando você especifica que quer não vai comer no local. Mas isso também é uma diferença que notamos: na América do Norte as pessoas frequentemente tomam café e comem andando na rua, indo de um lugar pro outro. Principalmente em cafés eram poucos os que sentavam para tomar o café no local. Aqui sentar num café pra tomar uma xícara de café com calma e comer um bolinho é um costume bem típico.

Aliás comida foi outra coisa, embora não seja nenhuma surpresa: nossa, como foi difícil achar comida decente nos EUA! Tudo fast food, tudo cheio de açucar, cheio de óleo… eu não sou nenhuma fã de comida alemã, mas pelo menos em qualquer supermercado você encontra várias coisas saudáveis e não se costuma colocar tanto açucar em tudo.

E finalmente, em relação a restaurantes, outra diferença grande é como se dá a caixinha. Na Alemanha você recebe a conta e na hora de pagar diz quanto quer que o garçom cobre, adicionando normalmente algo entre 5 e 10% de caixinha. Normalmente as pessoas arredondam o valor da conta em algo próximo a 10%. Por exemplo, se a conta deu algo entre 22 e 23,5 euros, você falaria para cobrar 25. Se você estiver pagando com cartão ou com diheiro a mais. Se você está pagando com 25 euros, digamos, uma conta de 22, aí vc diz “está certo assim”. Nos EUA a caixinha varia entre 15% e 20%, ou até 25% se o cliente for bem generoso. Mas nunca se dá a caixinha direto pro garçom, você sempre deixa na mesa depois de pagar a conta. No Canadá a caixinha era sempre 15%, e na hora de passar o cartão a maquininha pergunta se você quer deixar uma caixinha e você digita a porcentagem que quer deixar de caixinha.

Pessoas
O que eu mais gostei durante essa viagem foi da simpatia das pessoas. As pessoas na América do Norte (e isso vale 100% pro continente americano inteiro) são muuuuuuuito mais simpáticas e amigáveis que os alemães meudeusnemsecompara. Os alemães (pelo menos – ou principalmente – os saxões) são com bastante frequencia super grossos sem a menor necessidade. As palavras trocadas com desconhecidos são sempre limitadas ao mínimo necessário, e sorrisos parece que custam dinheiro. Nos EUA era tão fácil falar com as pessoas em qualquer situação… No Canadá nem tanto porque estávamos na parte francesa e alguns realmente não queriam falar inglês. Mas fora esses, os outros eram bem simpáticos também.

Outra coisa é que nesses dois países a sociedade é tão diversa e misturada (mais que no Brasil) que ninguém se sente peixe fora d’água. Você pode ter qualquer cara e se encaixar bem por  lá (numa cidade grande, claro, não numa vilazinha no meio do nada onde todo mundo vota Trump, né). Aqui se você é um pouquinho diferente em aparência, todo mundo te olha o tempo todo. É bizarro. Eu tenho a sorte de passar um tanto despercebida por aqui em termos de aparência, mas vejo isso com clareza quando estou com amigos mais obviamente estrangeiros que eu. Não quero nem imaginar como uma pessoa negra ou árabe se sente o tempo todo aqui. Um amigo meu brasileiro que parece um pouco árabe nos poucos dias que passou aqui me visitando para o meu casamento relatou todo tipo de olhar feio e falta de educação que ele passou. No tram as pessoas evitando sentar perto dele, ignorando totalmente quando ele tentava parar alguém pra pedir informações de como chegar em algum lugar… se foi assim em poucos dias, imagina morar aqui…

Aliás, uma coisa que notei é que nos EUA e Canadá as pessoas SEMPRE perguntam de onde você é. Sempre mesmo, as pessoas têm essa curiosidade, e eu acho que é na maior parte das vezes só curiosidade mesmo, não uma necessidade de categorização. Aqui um desconhecido nuuuuunca te perguntaria de onde você é, nunca mesmo. E as pessoas conhecidas esperam um tanto pra perguntar. Eu acho que as pessoas acham que é um pouco mal-educado perguntar, talvez pq pareça que elas queiram te julgar de acordo, se perguntarem? Não sei, mas o fato é que não se pergunta nunca.

Carro
Uma diferença gritante é em relação ao uso de carro. Aqui na Alemanha as pessoas adoram carro, claro, no país da VW, Porsche, Audi, Mercedes, BMW e tantas outras marcas de carro não tinha como ser diferente. Mas nossa, nem se compara às américas. Nos EUA e Canadá – e no Brasil também é assim – as cidades são feitas pra carros. É comum morar em subúrbios onde se faz tudo de carro, todo mundo tem carro e todo mundo usa carro diariamente. Aqui é comum deixar o carro em casa em várias situações, muita gente vai pro trabalho de bicicleta ou transporte público e o mais comum é ter só um carro por família, e não um pra cada membro maior de 18 anos. E a gasolina nos EUA é absuuuurdamente barata, chegamos a pagar uns 2,80$ por galão, que são 3,7L. Ou seja, 0,75$ por litro. Na Alemanha custa por volta de 1,30€ (1,57$) por L, o dobro do preço!

Pagamentos
E finalmente, um ponto bem diferente é como as pessoas pagam por coisas. Aqui na Alemanha é comum pagar as coisas do dia a dia (comida, restaurante, supermercado, coisas do dia-a-dia) com dinheiro. Vários lugares nem aceitam cartão de crédito, só o cartão de débito europeu. Alguns não aceitam cartão nenhum. Então tem que sempre ter dinheiro na carteira. Nos EUA, Canadá, e no Brasil também, qualquer lugar aceita cartão. Não sei exatamente como é no Brasil atualmente, mas nos EUA você pode pagar qualquer quantia com cartão de crédito, até uma garrafinha de água. E quase todo mundo paga tudo sempre com cartão. Bem mais prático, mas perigoso de gastar muito dinheiro sem perceber. Já escrevi um post falando sobre esse costume alemão e suas origens aqui.

É isso! Bom, não, tem várias outras diferenças, claro, mas isso foi o que a gente notou com mais clareza e imediatamente.

Coisas que eu aprendi na Alemanha

Semana passada completei 4 anos de Alemanha. Acho que estou ficando velha, porque embora pareça que eu me mudei pra cá faz tempo, quando eu digo “4 anos” não parece muito tempo.

Mas com certeza esses 4 anos foram bem marcantes na minha vida em vários aspectos.

Coincidentemente, encontrei num canto um papel em que eu tinha escrito, há alguns meses atrás, uma lista de coisas q eu aprendi desde que mudei pra cá. Achei que caberia muito bem um post sobre isso bem nessa data importante.

Você provavelmente está achando que eu vou escrever sobre como eu, sei lá, aprendi a ficar do lado direito da escada rolante ou dar preferência pra pedestres ou sei lá o quê que as pessoas acham que se aprende quando se mora na Europa.

Mas não é nada disso. Acho que esse post poderia ser escrito por qualquer pessoa que se mudou pra outro país em que se fala outra língua. (Quase. Alguns itens são, mesmo, relacionados à Alemanha).

Vejamos, vejamos…

1. A responder “sim” ou “não” de acordo com o que a pessoa espera ouvir como resposta

Isso, lógico, da época que eu ainda não entendia alemão muito bem. Fiquei craque em reconhecer se uma pessoa desconhecida me perguntando alguma coisa espera ouvir “sim” ou “não” como resposta. Tive várias conversas com desconhecidos em que a pessoa me perguntou algo, eu respondi o que ele esperava ouvir, e ele foi embora satisfeito e eu fiquei pra sempre sem saber o que ele tinha perguntado.

Os exemplos são bem mais bobos do que você está provavelmente imaginando. São coisas como, vc encontra seu vizinho na escada e ele te pergunta alguma coisa. Pode ter sido algo como:

“Não foi você que esqueceu a porta aberta hoje de manhã, não, foi?”
“Não, não.”
“Ah, então tá. Que não pode deixar aberta, mas tem alguém que sempre esquece.”

ou então o mesmo vizinho talvez esteja saindo com o carro e te viu indo pegar sua bicicleta, pergunte:

“Você tá de saída, né?”
“Sim, sim!”
“Ah, vc fecha a porta pra mim, então, por favor?”
“Sim, sim!”
“Obrigado!”

Juro, tive vários diálogos desse gênero que eu até hoje não sei com o que eu concordei ou o que eu neguei. Mas as pessoas pareceram satisfeitas, e eu evitei a chateação embaraçosa de explicar que não entendi o que ele estava falando, e às vezes é só isso que importa.

2. A ler expressões faciais, coisas faladas nas entrelinhas e linguagem corporal.

Todo mundo gosta de acreditar que é muito bom nisso, de saber o que o outro está pensando. Não é verdade, a maioria das pessoas é bem ruim disso. Para não cometer o mesmo erro, não vou dizer que fiquei muito boa nisso, vou apenas dizer que eu era beeeem pior em ler sutilezas de expressões faciais, linguagem corporal e coisas assim e que melhorei pra caramba essa habilidade depois que vim pra cá. Eu não tinha idéia que eu era relativamente ruim em ler essas coisas até melhorar muito essa habilidade. O motivo, óbvio, era que por um bom tempo esses eram os únicos instrumentos que eu tinha pra me comunicar. Ou melhor, pra entender a outra pessoa.

Quando você não fala bem a língua e tem que se expressar e compreender pessoas se expressando nela constantemente, é inevitável que você melhore muito sua habilidade e compreender outros aspectos da comunicação além das palavras que estão sendo ditas. Isso, lógico, se relaciona super com o item anterior, o de saber o que a pessoa espera como resposta mesmo sem ter ideia de qual foi a pergunta. O fato é que, quando vc entende as palavras, vc acaba ignorando muitos outros aspectos da comunicação pq o significado das palavras têm prioridade no seu entendimento do que está sendo dito. Quando vc perde esse aspecto, vc tem que melhorar nos outros. É que nem aquilo de cegos serem muito bons de reconhecer sons e cheiros. Quando vc perde o sentido principal, os outros ganham uma importância tremendamente maior.

De novo, não quero cometer o erro de dizer que sou muito boa nisso – já que quase todo mundo acha que é. Não sei o quão boa eu sou nisso, só sei que sou muito melhor que antes de vir pra cá.

3. Respeitar pessoas diferentes

Isso com certeza não foram os alemães que me ensinaram, vale observar. Mas desde que eu vim pra cá eu passei a ter muito mais contato com pessoas de culturas e origens muito diferentes da minha. Fiz amigos muçulmanos, hindus, budistas. Não é que eu fiquei necessariamente mais tolerante que antes – eu sempre tentei ser tolerante. Mas a convivência diária realmente é o que te mostra que as pessoas no final das contas são todas muito parecidas, e o que muda é só o contexto e o passado delas, e ninguém simplesmente nasce mau ou bom. A convivência diária também faz com que você trate fatores que antes eram coisas inimagináveis e impensáveis pra você como normais e sem importância. Por exemplo, os hijabs, aquele pano que as mulheres muçulmanas usam para cobrir os cabelo. É uma coisa que antes de vir pra cá – por mais que eu me esforçasse em não julgar – eu via como necessariamente uma imposição, uma opressão, uma coisa que certamente qualquer moça independente dona de si imediatamente desistiria de usar na primeira oportunidade. Depois de fazer amizade com uma palestina muito querida, e conviver diariamente com alguém que em muitos sentidos é parecida comigo mas vem apenas de uma cultura diferente, o fato de ela usar ou não um pano na cabeça me parece a coisa mais sem importância possível. Porque isso me incomodava tanto, antes? Se a menina quer usar um pano na cabeça, usa, ué. Ela tava morando sozinha na Alemanha, fazendo um mestrado, a família na Palestina, quase nenhum muçulmano por perto, se ela continuou usando o hijab é porque ela quer, ué. Achar que a mulher não tem capacidade de crítica e de decisão também é machismo, ora.

Enfim. Essas coisas que quando estão totalmente fora da sua realidade parecem totalmente sem sentido, mas quando estão lá na sua cara de repente viram uma coisa boba.

Pra ser justa, acho que eu teria aprendido isso se tivesse ficado no Brasil também, uma vez que a quantidade de imigrantes lá – pelo menos em São Paulo da última vez q estive lá – aumentou pra caramba nos últimos anos! (Acho isso ótimo.)

4. Quem no Brasil realmente se importa comigo – e com quem no Brasil eu realmente me importo

Essa é clássica pra quem vai morar fora, mesmo que por um tempo relativamente curto. Eu já tinha percebido quando passei um ano na Itália fazendo intercâmbio. Quando você está fora, todo e qualquer contato com seus amigos só acontece se existe um esforço por trás. Lógico que dar um like ou outro no facebook não exige esforço. Mas contato, mesmo, contar da sua vida e querer saber da vida do outro e ele se interessar em saber da sua, isso exige um esforço extra. E o fato é que as pessoas só fazem esse esforço quando é com alguém que realmente importa.

Depois de 4 anos, eu sei exatamente quem no Brasil realmente se importa comigo – com sinceridade, porque gosta de mim, não porque está simplesmente curioso de saber como é viver na Alemanha ou, pior, que está curioso de saber como está a sua vida apenas porque está torcendo loucamente pra dar tudo errado, por inveja. (tem desses, também). E eu imagino que para os meus amigos de lá também (espero) tenha ficado bem claro o quanto eu me importo de fato, com sinceridade, com eles, e o quanto eu quero saber que eles estão bem e estão felizes. Depois de um tempo fora é inevitável, vc sabe exatamente quem são de fato seus amigos.

E mesmo a quantidade de comunicação com cada amigo é diferente. Tem uns que não são tão ligados nas internets quanto eu, e que portanto eu tenho menos contato. Mas não necessariamente isso significa que eles não se interessam ou não se importam, e mesmo com esses fica claro.

Priiiincipalmente quando você volta. Quando você vai viajar rapidinho e tem pouco tempo pra ver todo mundo. Aí fica óbvio pra TODO MUNDO (pra vc e pra eles) quem realmente importa pra quem, porque:
a) você não tem tempo pra ver todo mundo, então vc acaba limitando só aos realmente muito importantes, e sempre tem alguns que vc deixa pra trás que gostariam de ter sido lembrados

b) tem outros que você sugere encontrar e vc percebe que a pessoa fez zero esforço pra te ver naquelas semanas que vc passou lá, mesmo você tendo insistido.

(Lógico que eu estou falando aqui de amigos mais próximos. Tem vários amigos que são queridos, que eu gosto de saber que estão bem e estão felizes, mas não são necessariamente próximos o suficiente para eu marcar alguma coisa quando volto pro Brasil.)

5. Manter contato intercontinental

Bem relacionado ao item anterior. Mas uma coisa que você percebe quando está longe é que o contato físico é importante e que só emails e conversas no facebook não bastam para matar a saudade de alguém. O que isso significa é que receber cartas ou pacotes pelo correio têm um significado gigante quando você está fora. E embora seja pouco freqüente eu receber coisas pelo correio do Brasil, eu tento sempre enviar alguma coisa para os amigos mais próximos (às vezes alternando que o dinheiro não nasce em árvore, né). Principalmente no Natal eu tento sempre enviar alguma coisa. Às vezes você vê algo que te lembra muito alguém e aproveita pra mandar pro correio – sem nenhum motivo especial – e a pessoa fica profundamente contente de receber um presente inesperado seu vindo direto da Alemanha. Acho que essas coisinhas super ajudam a manter o contato com as pessoas de lá.

6. O preço de morar fora

Morar fora tem um preço que a gente não tem idéia de quão alto é até ter que pagar. Lógico que não estou falando de dinheiro. Tem coisas que não são segredo, que você sabe que vão ser assim e você sabe que vão ser difíceis. Mas essa dificuldade é muito vaga na sua cabeça antes de você passar por ela pra vc ter idéia dela de fato e ter noção de se o preço vale a pena. Isso você só descobre quando já está longe.

No final do ano passado minha avó materna faleceu, e estar longe naquele momento foi bem mais difícil do que eu imaginaria que fosse ser. Eu sabia que seria difícil perder uma avó querida, sabia que quando isso acontecesse eu provavelmente não teria como pular correndo num avião para chegar a tempo do enterro. Sabia dessa coisas. Mas não tinha ideia de como elas seriam difíceis de lidar. Minha avó se importava muito comigo e isso sempre ficou muito óbvio. Quando acontecia algum acidente em que a vítima era alguém da mesma idade e gênero de algum dos netos dela, ela imediatamente ficava toda preocupada que pudesse ser o neto em questão. Caiu um avião na Alemanha – “Ai, meu Deus, a Laís não estava nesse avião, não, né? Melhor ligar pra ter certeza!”. Na última vez que eu visitei ela, ela disse que se ela morresse (ela já estava bem mal) ela viria pra Alemanha me visitar. “Mas como você vai saber onde eu moro, vó?” “Ah, espírito sempre acha!”.

Quando ela faleceu eu não estava lá para me despedir, nem dela viva nem na hora do enterro. E o pior, todas as pessoas que estavam passando pelo mesmo que eu, que também estavam sofrendo com a morte dela, todas estavam longe. Eu percebi como o enterro/velório é mais que uma oportunidade pra se despedir da pessoa, mas é também uma oportunidade pra você encontrar e abraçar as pessoas que estão sofrendo com essa perda como você. Não ter tido essa oportunidade é algo que eu nunca teria imaginado que me chatearia tanto. É um dos preços a pagar por escolher morar longe.

Nessa semana nasceu minha primeira sobrinha, filha do meu irmão, e eu já estou planejando de ir visitá-los em Janeiro, mas é super decepcionante não poder ir lá no hospital logo depois do nascimento. E principalmente de saber que você não vai poder assistir a criança crescer e ter a oportunidade criar um vínculo forte com ela que você como tia gostaria de ter, de ir passear com a sobrinha uma vez por mês ou coisa do tipo, estar em todos os aniversários e momentos importantes, etc.

(Mas em minha defesa, se eu tivesse ficado no Brasil seria igual uma vez que meu irmão também mora fora)

7. A parar de achar que tudo aqui é melhor

É lógico que tem muitas coisas aqui que são bem melhores. Mas é uma ingenuidade imensa achar que TUDO aqui é MUITO melhor que no Brasil. Tem coisas melhores e coisas piores. Tudo depende do que é mais importante pra você. E a questão é que as coisas piores você só vai descobrir que são piores quando você estiver morando aqui de fato.

8. A não discutir problemas do Brasil com europeus

Outra coisa que eu parei completamente é de criticar o Brasil para europeus. Sério, se tem uma coisa que eles não precisam é mais motivo pra se acharem melhores que o resto do mundo. Eu deixo as críticas para discutir entre outras pessoas que também são de fora.

9. A ser direta, a me comunicar, a dizer o que eu quero.

Isso sim é uma coisa bem relacionada à Alemanha. Como já discuti em outros posts, os alemães são bem diretos, não fazem grandes cerimônias para responderem “sim” ou “não” de acordo com o que querem ou não querem. Isso é algo que eu incorporei e acho muito mais prático do que o nosso
“Você quer alguma coisa pra comer?”
“Não, não, tô bem, obrigada!” *morrendo de fome*
“Mas tem certeza?”
“Magina, não precisa se incomodar!” *morrendo de fome*
“Mas magina, não é incômodo nenhum, pega aqui um pedaço dessa torta que eu fiz ontem!”
“Não, magina, deixa aí pra vc comer mais tarde!” *morrendo de fome*
“Quê isso, eu não vou agüentar essa torta inteira, pega um pedaço!”
“Ah, mesmo, mas você não vai querer, depois?” *morrendo de fome*
“Não, pega, ó, vou cortar aqui um pedaço pra você!”
“Ah, tá, brigada então!”

10. A procurar amigos

Eu nunca tive nenhuma dificuldade super gigante em fazer amizades, mas também nunca fui mega sociável daquelas pessoas que conversa com qualquer um com a maior facilidade. Eu já escrevi um post sobre como fazer amizade com alemães no qual eu expliquei já na primeira linha que eu não sei como se faz amizade com alemães. Embora o post eu tenha escrito há dois anos atrás, a resposta para essa pergunta continua em aberto. Se alguém souber me avisa.

A verdade é que os alemães são bem diferentes nesse quesito, e o processo de fazer uma nova amizade aqui é uma coisa diametralmente oposta ao que a gente está acostumado no Brasil.

Nesses 4 anos o que eu percebi é que de longe o mais fácil é fazer amizade com americanos (do continente inteiro, não só dos Estados Unidos. Mas também dos Estados Unidos) ou com alemães que já moraram no continente americano. Na verdade foi bem surpreendente pra mim perceber o quão parecido a gente é com os americanos (agora falando dos dos Estados Unidos, mesmo) em vários sentidos e o quanto isso ajuda pra caramba a fazer amizade com eles. No momento meus amigos principais são ou americanos (EUA) ou sul-americanos, e uns poucos alemães americanizados (no continente, não necessariamente nos EUA).

Mas na verdade não era disso que eu queria falar, mas sim sobre como fazer amizades aqui. Ou melhor, como eu descobri como procurar amigos aqui.

Pra mim a solução apareceu só no ano passado. Existe um grupo de facebook especificamente para mulheres internacionais em Dresden, e foi lá que eu finalmente comecei a fazer umas amizades mais efetivas. Até então eu tinha alguns amigos, mas ninguém que fosse de fato muito próximo. Através desse grupo eu comecei a participar de coisas como clube de leitura, trabalho voluntário com refugiados, e outros eventinhos onde conheci pessoas muito legais e muito fáceis de conversar. Isso faz um ano. Ou seja, demorou 3 anos para eu realmente começar a fazer amizades aqui de fato, de pessoas q eu tenho certeza que mesmo que se eu voltasse pro Brasil ou elas para seus países, continuaríamos em contato.

Mas isso é completamente diferente dependendo das circunstâncias. Acho que a maioria dos brasileiros é bem mais sociável que eu e faz amizades com mais facilidade que eu. E quem vem pra cá estudar tb tem essa facilidade extra de fazer amizade com os colegas de classe. (Eu fiz um mestrado aqui mas era um grupo bem pequeno e acabou não rolando nenhuma amizade forte no grupo).

Outra coisa que ajudou PRA CARAMBA fazer amizade aqui: ir atrás de pessoas que pudessem cuidar dos meus gatos quando a gente viaja. A minha melhor amiga daqui é uma americana que eu conheci quando ela postou naquele grupo de mulheres internacionais perguntando se alguém podia cuidar do gato dela ou dos dois cachorros por um fim de semana. Aí nós montamos um grupinho de donos de bichos pra ter quem pedir ajuda pra cuidar dos bichos durante viagens, e através desse grupinho conheci mais um monte de gente legal.

 

É isso! Eis aqui uns posts relacionados:

10 costumes alemães que eu incorporei
10 costumes alemães que eu não incorporei
5 coisas do Brasil e da Alemanha que eu sinto/sentiria falta


(Publicado em 30 de Julho de 2016)

O Meio-Ambiente em obras alemãs

Recentemente uma comissão do senado, no Brasil, pré-aprovou uma lei que basicamente torna o licenciamento ambiental para obras descenessário. Isso poucos dias depois do aniversário de 6 meses do desastre de Mariana, o maior desastre ambiental da história do país, resultado da negligência e descaso de grandes empresas com o meio ambiente.

Nesse triste contexto, achei que valia a pena fazer alguns posts sobre o assunto meio ambiente, e como a Alemanha lida com isso. Planejei três posts: um sobre como se lida com o impacto ambiental em obras aqui, o segundo sobre rios e o terceiro sobre árvores na cidade. São três assuntos com que, como arquiteta paisagista, eu lido diariamente, então acho que dá pra falar alguma coisa a respeito.

Esse primeiro post, então, é sobre como o meio-ambiente influencia o andamento de obras na Alemanha. Nele, vou contar quatro histórias. Eu tive a ideia desse post durante essa semana quando meu namorado – também arquiteto – me mandou umas fotos de um falcão. A história é essa:

Estava o humilde arquiteto tranquilamente em seu escritório projetando uns projetos quando recebeu uma ligação de uma pessoa do departamento de meio ambiente da prefeitura. O telefonema era a respeito de uma família de falcões da espécie Falco tinnunculus, uma espécie de falcão relativamente comum na Europa. Eis que a família de falcões em questão está alojada no telhado do prédio em que o dito arquiteto está pra começar uma obra de reforma do último andar e do térreo. Segundo a pessoa da prefeitura, a espécie é protegida (não ameaçada de extinção, somente protegida por ser uma ave silvestre) e portanto enquanto a família de falcões permanecer alojada no telhado a obra não pode ser continuada porque é contra a lei fazer qualquer coisa que atrapalhe o casal de falcão em seu trabalho de gerar e criar novos falcõezinhos. Para complementar o aviso, a prefeitura ainda enviou por email umas fotos do casal em questão:

Turmfalke +

Falco tinnunculus – fêmea

Turmfalke >

Falco tinnunculus – macho

A reação do arquiteto? Encaminhar imediatamente o email pra namorada (no caso eu) com o comentário “olha só o que encontraram no nosso prédio! É aquele falcão que estávamos procurando pra fotografar!! Vou levar a câmera lá amanhã e ver se consigo vê-los!”. (adoramos bichos e já faz um tempo que estamos passeando por parques quando o tempo está bom para “caçar” (com câmeras fotográficas) as diferentes espécies de aves locais)

Mas falando sério: a fauna silvestre é de fato bem protegida por aqui, e a simples presença de um ninho de alguma ave silvestre ou algum outro animal é o suficiente pra parar temporariamente uma obra ou impedir uma árvore de ser cortada. Por isso que com árvores, por exemplo, os responsáveis pelos projetos que envolvem algum corte de árvore têm que sempre calcular pra tirar as árvores durante o inverno, que se chegar na primavera sem cortar, a chance de algum bichinho se apropriar dos galhos e buracos no tronco pra se reproduzir e proteger os filhotes é bem alta. E aí não pode mais nem encostar na árvore. A proibição em relação à obra nesse prédio por causa dos falcões não é apenas uma norma que você recebe uma multinha boba se desobedecer, mas é considerado de fato um crime!

Como o departamento de meio ambiente da prefeitura sabe tão bem onde moram todas as famílias de falcões da cidade já é uma outra questão que eu não saberia responder. Imagino que os falcões em questão não tenham suficiente conhecimento das leis alemãs pra saber que poderiam chamar a polícia, então suponho que a prefeitura monitore bem de perto as populações de fauna silvestre na cidade.

Histórias de como a fauna pode influenciar obras diversas são várias. Em um outro projeto que o meu namorado conduziu recentemente, uma reforma de uma escola primária, o departamento de meio ambiente da cidade também esteve presente checando a presença de aves locais. Eles observaram as aves voando nas redondezas e se elas tinham habitats nos telhados da escola, se existiam vestígios de determinadas espécies (ossos, dejetos, etc) e até usaram um instrumento não sei qual para escutar sons de morcegos (se eles estiverem presentes). Nesse caso a presença das aves não inviabilizou ou atrasou a obra – uma vez que elas não estavam em período reprodutivo, que é o fator limitante – mas fez com que fosse necessário instalar, em algumas das paredes externas, caixas de reproduções adequadas para determinadas espécies de pássaros.

15-D-DD-NP-IMG_8722

Recentemente no escritório em que trabalho fizemos um projeto de análise de impacto ambiental de uma obra de turbinas eólicas. O vilarejo ao lado do qual as 24 turbinas seriam implantadas nos contratou para verificar se todos os requisitos em relação a meio ambiente tinham sido respeitados. Obviamente a empresa responsável pelo projeto também tem que fazer essa análise, mas não é incomum que grandes empresas tentem dar uma disfarçada aqui e ali pra passar um projeto lucrativo. E só porque a empresa é de turbinas eólicas, não significa que eles estejam tão super preocupados com o meio ambiente quanto dão a entender pros seus clientes. Verificamos vários fatores, não apenas ambientais, mas também sociais. Os principais argumentos que levantamos que podem realmente atrasar, parar, ou pelo menos forçar a empresa a alterar o projeto foram dois: o primeiro é que parte da área onde seriam construídas as turbinas está dentro de um raio de tantos metros de um castelo protegido como monumento histórico. De acordo com a lei, dentro desse raio não podem ser realizadas obras de determinado porte, de maneira que o projeto em questão não poderia avançar para dentro desse raio. O outro argumento importante era que a área em questão era uma conexão importante para populações de morcegos da região, além de algumas aves. Como esses animais podem ferir e prejudicar esses animais, o projeto talvez tenha que ser alterado ou movido para outro local.

Morcegos, aliás, também criaram problemas para a obra de uma ponte nova recentemente construída aqui em Dresden. Muitos não queriam que a ponte fosse construída, especialmente pelo impacto visual que ela geraria para a paisagem da cidade. O projeto e construção da ponte gerou várias polêmicas a serem decididas pela justiça. Uma das questões foram os tais morcegos da espécie Rhinolophus hipposideros. A obra não foi cancelada pela presença dos morcegos, mas foi alterada por eles: eles tiveram que colocar um determinado tipo especial de iluminação que não atrai insetos, para consequentemente atrair menos morcegos na ponte (que são predadores de insetos), e durante a noite entre abril e outubro a velocidade máxima para os carros que atravessam a ponte é de 30km/h  – para evitar colisões com os tais morcegos. E, finalmente, uma série de árvores e arbustos teve que ser plantada nas margens do rio próximos à ponte pra “redirecionar” os morcegos a atravessarem a ponte por baixo da mesma, em vez de por cima. E toda essa discussão sobre morcegos atrasou o início da obra em 6 meses. Já a questão do impacto visual para a cidade não foi limitante – e há conseqüências. A área das margens do rio Elba ao longo da cidade tinha o título de patrimônio mundial da humanidade pela UNESCO, título esse que foi perdido após a construção da ponte.

A questão aqui não é dizer se é certo ou errado construir essa ponte (ou qualquer um dos projetos mencionados anteriormente) nem se a cidade ficou mais feia ou mais bonita depois da construção, mas apontar que precisa realmente haver discussões nesse nível de detalhe em relação a meio ambiente quando uma obra de grande porte (ou mesmo pequeno porte) está pra ser iniciada. Os prós e contras de cada lado precisam ser balanceados antes que se construa projetos cujos impactos podem ser irreparáveis. As questões que dizem respeito ao meio ambiente precisam ser analisadas por especialistas e seus argumentos precisam ser ouvidos e valorizados pela justiça e pela sociedade.

Não é que no Brasil exemplos similares aos que eu citei não existam – certamente existem. Conheço engenheiros ambientais, biólogos e ecólogos que trabalham justamente fazendo esse tipo de análise e projetos no Brasil também. E é justamente isso que a PEC 65 – se aprovada – vai anular completamente. Não é questão de se deve ou não deve ser construída uma determinada ponte ou seja o que for – é questão de analisar TODOS os fatores e possíveis conseqüências de cada obra e o fator meio ambiente ser valorizado da maneira necessária. Pode parecer bobo e insignificante que uma determinada espécie de ave seja prejudicada por um projeto que traga outros benefícios pra sociedade, mas não é tão simples assim. Aquela espécie de ave que você acha insignificante é a mesma que se alimenta de insetos e consequentemente controla – por exemplo – as populações do Aedes aegypti, de maneira que prejudicar essas aves pode resultar em um aumento dos casos de dengue na cidade. Ou então pode ser uma espécie responsável pela polinização de uma determinada espécie de planta – que por acaso é a planta usada como ingrediente em determinados remédios. Tudo no meio ambiente é interligado, como num jogo de pega-varetas, onde é quase impossível mexer em uma vareta sem que as outras se movam também.

pegavaretasalagoasdigital

No próximo post (já estou preparando a um tempo, mas é um post longo cheio de fotos bonitas, então dá trabalho) vou falar um pouco sobre os rios e sua situação urbana na Alemanha.


(Publicado em 27 de Maio de 2016)

Pressa, impaciência e pontualidade

Ontem eu fui numa reunião em que algumas coisas aconteceram que eu achei muito emblemáticas de certas características típicas dos alemães: pressa, impaciência, pontualidade. Ou, resumindo: nóia.

A reunião era na prefeitura de uma cidadezinha (vilarejo é a palavra mais apropriada) pra apresentar o projeto da pracinha da cidade que fizemos. Na verdade a ocasião em si era o encontro, sei lá, mensal ou semanal do conselho da cidade, aberto aos cidadãos para discutir as questões diversas que dizem respeito ao local: projetos, verbas, eventos, etc.

A reunião estava marcada para as 19:00, e nós chegamos às 18:05. Isso porque da última vez que tivemos uma reunião em outra cidade, nos atrasamos 15min porque tinha nevado muito na noite anterior. Então dessa vez o chefe resolveu sair com 1:30 de antecedência, embora só precisássemos de meia hora pra chegar lá. Só que quando chegamos, a prefeitura estava fechada, e ninguém lá dentro ou por perto pra abrir a porta pra gente. Então demos uma volta, olhamos o vilarejo, voltamos, ficamos conversando na porta da prefeitura, até que, às 18:50, começaram a chegar as pessoas que participariam da reunião. Entramos na sala onde a reunião ia acontecer e começamos a ligar o computador ao beamer, essas preparações básicas pré-apresentação. Só que o laptop que levamos não estava conectando ao beamer imediatamente. Mas assim. Não conectou imediatamente. Mas o computador estava reconhecendo o Beamer e eu precisava de tipo 10 minutos pra descobrir que botão precisava apertar pra conectar o negócio direito. Não era nada impossível de resolver, eu só precisava sentar no computador 10 minutos pra olhar com calma e descobrir o que estava faltando fazer pra conexão funcionar.

SÓ QUE:

Tenta fazer isso com uns 6 alemães atrás de você super noiados em começar a reunião pontualmente às sete e comentando coisas como “Não, aperta esse botão!” “Aperta aquele” “Tem que reiniciar o computador!” “Não, tem que reiniciar o beamer!” “Ai meu deus, será que não vai funcionar?” “Traz o outro laptop lá, fulano!!” “Não, pera, tenta com o meu, aqui!” “Mas o seu não tem o programa que a gente precisa!” “O fulano trouxe o dele também, ele instalou o programa, pega lá!”. Gente, que stress… eu só precisava de 5 minutos de silêncio e tranquilidade pra descobrir o negócio…

E isso tudo porque a reunião precisava a todo custo começar EXATAMENTE às 19:00. Às 19:00 estavam as pessoas do conselho sentadas na mesa e perguntando pra gente – que estava obviamente ainda tentando resolver o negócio – se podiam começar.

Às 19:01, após colocar o cabo em outro computador e o mesmo conectar-se ao beamer, a reunião começou. Com o presidente do conselho tocando um SININHO oficial de início da reunião do conselho, um sino, mesmo, de verdade. Uma coisa que se você fosse cego ficaria em dúvida se era a reunião do conselho da cidade que estava começando, ou o Papai Noel chegando no seu trenó para entregar os presentes de Natal.

Lembrando que essa situação toda não era uma reunião de uma prefeitura de uma grande cidade, num enorme auditório, com centenas de pessoas assistindo. Era uma prefeitura de um vilarejo, tinha ao todo umas 20 pessoas na sala onde a reunião ia acontecer, incluindo os 4 arquitetos do projeto…

Esse tipo de situação é bem típica. Os alemães são pontuais e extremamente paranóicos quando as coisas não estão andando como planejado e eles acham que estão DOIS MINUTOS E DEZESSETE SEGUNDOS ATRASADOS, MEUDEUSQUEVERGONHA! Nóia com pontualidade vai ser bem visível se vc fizer um curso de qualquer coisa aqui. Não apenas os professores começam a aula exatamente no horário marcado, mas eles fazem questão de terminar a aula EXATAMENTE no minuto marcado pra aula terminar. Semana passada mesmo minha professora de alemão se desculpou por terminar a aula TRÊS MINUTOS antes do horário. TRÊS MINUTOS. Era pra terminar às 20:45, e ela terminou às 20:42. “Bom, é isso, tá um pouco mais cedo, mas acho que tudo bem eu terminar agora, né?”. Gente… E era a mesma coisa na faculdade. Os professores chegavam, preparavam lá no powerpoint no computador, e ficavam de pé olhando pro relógio no computador esperando ele marcar exatamente o horário de início da aula, pra só então começar a falar. Mesmo que já tivesse todo mundo na sala sentado esperando. E se terminasse 2 minutos mais cedo, eles pediam desculpas… como se a gente fosse estar super noiado pensando “Não, mas e os meus últimos 2 minutos de aula, gente! Eu paguei por 3h de aula, não 2h58!!!!”

E a pressa característica também se traduz em outras atitudes um tanto irritantes. Como por exemplo quando você está andando na rua com um alemão. Uma coisa que os alemães super gostam de fazer é sair pra dar uma volta. Assim, uma volta sem nenhum objetivo específico, só pra andar um pouco, tomar um ar fresco, e tal. Até aí, legal. Só que eles não saem pra andar calmamente apreciando a paisagem. Eles andam como se tivessem atrasados pra chegar em algum lugar… mesmo que não tenha nenhum destino específico nem nenhuma pressão de horário. Já tô num relacionamento de 6 anos e até hoje eu ainda tenho que puxar meu namorado quando a gente tá andando na rua, porque além de CORRER, ele tem pernas tipo gigantes, então se deixar em 30 segundos ele já está 5 passos à frente e nem se toca…

E a impaciência vai ficar óbvia se você precisar pagar qualquer coisa e tiver que procurar dinheiro na carteira. Recomendo estar sempre com o dinheiro preparado e contado, que os alemães vão te fuzilar com olhar de laser se você ficar contando moedinha por moedinha com eles ali esperando você pagar.

Os alemães certamente têm vários outros hábitos que são bem legais e exemplares. Mas às vezes tudo o que eu queria era poder chacoalhar a Alemanha inteira gritando “MEEEEU, RELAAAAXAAAA!”…


(Publicado em 21 de Abril de 2016)

Olhando nos olhos

Esse é um assunto que eu já mencionei de passagem em alguns outros posts, mas vale a pena um post só pra falar disso.

Eu tenho percebido cada vez mais claramente que os alemães olham nos olhos uns dos outros MUITO mais que a gente. Isso é uma coisa que eu jamais teria imaginado, porque eu nunca achei que eu ou as pessoas no Brasil evitassem olhar nos olhos umas das outras. Olhar nos olhos é uma característica forte da cultura ocidental, da qual nós também fazemos parte. Então é uma surpresa pra mim perceber que isso aqui é tão diferente.

Os alemães olham nos olhos das pessoas com quem estão falando SEM.PRE. Em qualquer diálogo, por mais curto que seja, eles olham bem diretamente nos olhos da outra pessoa.

A primeira situação em que eu percebi isso foi na hora de brindar. Os alemães ADORAM brindar, eles brindam em tipo QUALQUER situação. E aí, eu já estava morando aqui há uns 2 anos quando uma amiga brasileira comentou que tinha aprendido que é uma regra mega importante olhar nos olhos durante o brinde. Nunca tinham me falado isso, mas desde então eu comecei a prestar atenção e, de fato, as pessoas estavam sempre me olhando nos olhos quando brindavam comigo! Realmente era uma regra tão básica que ninguém nunca tinha pensado em me falar… eu escrevi um pouco sobre esses e outros costumes que os alemães não te avisam que é assim porque é óbvio demais pra eles nesse post aqui.

Depois disso, eu comecei a prestar atenção e perceber que várias outras situações em que eu desviava o olhar e a outra pessoa estava olhando diretamente pra mim. A primeira e que mais me “chocou”, por assim dizer, foi em lojas/padarias/restaurantes ou similares. Eu percebi que eu nunca olhava no olho da pessoa do balcão, do caixa, etc. Quando eu comecei a prestar atenção nisso, vi que aqui as pessoas do outro lado do balcão estavam sempre me olhando nos olhos quando vendiam alguma coisa, pegavam o dinheiro que eu estava pagando, pegavam meu pedido, o que for. Pode parecer meio absurdo o que eu estou falando, mas presta atenção: normalmente nessas situações a gente tende a desviar o olhar – você olha pro dinheiro, pro pãozinho que vc está comprando, pro menu, o que for. Quando vc olha pra pessoa, vc olha rápido e meio de lado, não diretamente nos olhos. Aqui as pessoas realmente se olham nos olhos nessas situações.

E mais recentemente, eu andei notando isso novamente em outras situações. Como nos últimos meses eu tenho passado mais tempo com alemães que eu não conheço super bem (colegas de trabalho, por exemplo), eu andei percebendo também que eles fazem questão de olhar nos olhos do interlocutor em situações que a gente não faz, por exemplo, quando eles estão andando lado-a-lado com alguém na rua conversando, ou então no carro, um dirigindo e um sentado no banco do passageiro. Nessas situações eu notei que eu costumo mais olhar pra frente, ou por onde estou andando, e não necessariamente virar pra olhar a pessoa com quem eu estou falando o tempo todo. Mas eles realmente me olham diretamente quando estão falando comigo, mesmo andando ou dirigindo.

Não sei se sou eu que evito olhar nos olhos das pessoas quando não sou super próxima delas por alguma fobia social (não sou lá a pessoa mais confortável em situações sociais), de repente é isso. Mas acho mesmo que no Brasil as pessoas não se olham tão diretamente em todas as situações, porque eu nunca tinha sentido esse olhar direto tão freqüentemente por lá.

Pode ser um pouco desconfortável em algumas situações, mas certamente olhar nos olhos do seu interlocutor mostra um respeito pelo mesmo, mostra que você está realmente prestando atenção nele e no que ele está dizendo, e isso é bem positivo. E talvez seja a maneira dos alemães compensarem pelo fato de eles nunca encostarem uns nos outros e não serem tão simpáticos e delicados como nós, hehehe!

Se você tem uma experiência similar ou totalmente oposta nesse assunto com os alemães, conta lá nos comentários!


(Publicado em 4 de Março de 2016)

Manda um abraço!

Os alemães levam tudo a sério. Já discuti aqui como se um alemão te oferece alguma coisa você pode aceitar tranquilamente porque não é só por educação. E se vc disser não, eles não vão insistir. Assim como se você oferecer algo, tenha em mente que eles vão se sentir na liberdade de aceitar. Sarcasmo não é uma figura de linguagem comumente empregada por alemães nem em piadas nem em conversas, e se usado em discussões será um tanto ofensivo para os eles.

E uma das coisas que eles levam muito a sério são cumprimentos remotos. Sabe quando vc fala pra alguém “ah, manda um abraço para o fulano!”? Eles mandam. Mesmo.

Essa diferença você percebe bem rápido ao conhecer alemães, quando começa a receber cumprimentos remotos dos familiares ou amigos de amigos que te conhecem. Uma coisa bem comum, por exemplo, é, após um telefonema do meu namorado com alguém da sua família, ele vir me dizer que o tio/tia/pai/mãe/primo/irmã/avó me mandou um abraço. Tá, com telefonemas não é tão estranho, porque você está ali do lado quando a pessoa te manda o abraço, então está fácil para o “entregador” do abraço remoto lembrar de te avisar que a outra pessoa pensou em você. Mas eles levam a sério mesmo. Ontem encontrei uma amiga para um café, é bem no final, quando estávamos nos despedindo, ela falou: “ah, já estava esquecendo! O Andreas [namorado dela, também meu amigo] te mandou um abraço! Ah, e fala pro seu namorado que eu mandei um abraço pra ele também!”. E ela falou de um jeito tão sério que deixou bem claro que era realmente importante, para ela, lembrar de me dizer que o Andreas lembrou de me mandar um abraço.

Claro que eu não lembrei de repassar o abraço para o meu namorado como ela pediu, porque para mim lembrar de mandar um abraço para alguém da família do seu amigo é algo que vc faz não para que esse familiar saiba que vc lembrou dele, mas para que o seu amigo saiba que vc lembrou das pessoas que lhe são importantes. Pra gente, no Brasil (me corrijam se discordarem), o importante do cumprimento remoto é mostrar para o seu interlocutor que você lembra dos nomes das pessoas importantes para ele, das pessoas com quem ele vive, e tal. Certo que em algumas situações vc lembra sim de repassar o abraço – digamos por exemplo se você encontrar alguém que você não vê há um tempo e a pessoa manda um abraço pro seu marido. Aí a noite você encontra seu marido e comenta “ah, eu encontrei o fulano, hoje, imagina!” “Puxa, sério? Que legal, como ele tá?” “Tá ótimo, te mandou um abraço!”. Mas para pessoas que você encontra regularmente, jamais lhe ocorreria de lembrar de comentar que a pessoa mandou um abraço. E os alemães fazem questão não apenas de repassar os tais abraços, como de lembrar de mandá-los em basicamente todas as situações.

E depois que você percebe isso, uma dúvida cruel segue: será que eles te acham super antipático se você não mandar um abraço? Ou se você não repassar o abraço enviado por outro, corre o risco de fazer com que este seja falsamente acusado de antipático por ter esquecido de mandar um abraço, quando na verdade foi você que esqueceu de repassar?

Não tenho certeza da resposta. Na dúvida, o mais seguro é sempre lembrar de mandar e repassar abraços (eu ainda não me acostumei).

E, aliás, uma observação. Na verdade em alemão não é abraço que se manda, mas um cumprimento, mesmo. Em alemão se diz, por exemplo, “Grüß den Andreas von mir!”, ou “Cumprimente o Andreas por mim!”. Claro, eles não mandariam abraços, é íntimo demais, né? E cumprimentos remotos eles mandam realmente pra todo mundo, lembro de receber cumprimentos remotos de familiares do meu namorado antes mesmo de conhecê-los pessoalmente…


(Publicado em 21 de Novembro de 2014)