preconceito

Black Lives Matter

Diante dos recentes acontecimentos nos Estados Unidos, casos de extrema brutalidade policial contra homens e mulheres negros que culminaram em enormes protestos por todo o país, eu gostaria de não ignorar esse assunto nesse blog. Embora os EUA estejam um tanto longe da Alemanha, casos de brutalidade policial contra pessoas não brancas não são exclusividade dos EUA.

O caso possivelmente mais emblemático de como esse problema se traduz na Alemanha foi o assassinato de Oury Jalloh em 2005. Oury Jalloh era nacional de Serra Leoa e estava na Alemanha há alguns anos quando foi parado pela polícia em Dessau, que investigava possíveis suspeitos de um caso de estupro, e por não ter documentos válidos foi levado sob custódia. Preso em uma cela no porão do departamento de polícia, Jalloh foi queimado vivo naquela noite. A princípio, sua morte foi tratada como suicídio, mas certos aspectos da história levaram a uma investigação posterior: um dos policiais desligou o sistema de alarme de incêndio quando este disparou, só foram checar o porão quando já era tarde demais e os bombeiros descobriram o corpo de Jalloh na cama da cela com os braços e pernas esticados, o que indica que suas mãos e pés estivessem amarrados à cama. O caso até hoje não está resolvido e nenhum policial foi preso.

Entretanto, o tema racismo – especificamente o preconceito contra pessoas de pele negra – ainda é visto na Alemanha como um problema estrangeiro, uma coisa que acontece lá nos EUA, talvez em alguns outros lugares, mas não aqui. É curioso o quanto essa discussão ainda está completamente fora do radar de um alemão médio. O termo racismo aqui denota mais xenofobia, preconceito contra pessoas de outros lugares, refugiados e imigrantes, pela sua origem e não pela sua cor de pele. Lógico que são temas interligados, mas a distinção é também importante porque o que parece ser impensável para um alemão regular é que outro alemão, nascido aqui, com um nome alemão, mesma educação cultural, moral ou religiosa que qualquer outro alemão ainda assim venha a sofrer preconceito ou tratamento desigual na sociedade alemã hoje simplesmente porque sua pele é negra. A existência desse problema, desse preconceito especificamente focado na cor da pele de uma pessoa, passa facilmente despercebido num país em que a grande maioria da população é branca, e a maioria dos alemães negros ainda têm vários outros aspectos da sua identidade que levariam as pessoas em volta a concluir que os motivos do preconceito são outros (origem da família, nome de origem estrangeira, talvez uma religião diferente, etc) e não pura e simplesmente a cor da sua pele. Não que isso justificasse um tratamento desigual, claro que não. Mas para uma pessoa daqui que se considere aberta e não preconceituosa, ainda é muito mais fácil justificar (e se identificar com) uma diferença de tratamento de alguém que tem uma religião ou cultura diferentes (nas sobrelinhas a pessoa entende valores morais diferentes) do que alguém que fosse absolutamente idêntico a si exceto pelo tom de pele.

Mas bom, não quero falar muito sobre o que é ou não é racismo na Alemanha uma vez que eu, sendo uma pessoa branca, não sou vítima desse preconceito. Se você é uma pessoa negra vivendo na Alemanha e gostaria de compartilhar situações de racismo sofridas por aqui, fique à vontade para escrever nos comentários ou mesmo mandar por e-mail pelo formulário de contato – se receber alguns relatos posso fazer um post sobre isso para dar a palavra a quem sabe do que está falando.

A ideia desse post portanto não é discutir um preconceito do qual eu não sou vítima, mas divulgar algumas organizações que trabalham contra ele, além de alguns livros sobre o assunto voltados à realidade alemã. O objetivo disso é dar um caminho para pessoas brancas de língua portuguesa morando na Alemanha que queiram começar a agir contra o racismo no seu entorno. Você pode aprender sobre o que essas organizações estão fazendo, doar para as mesmas, ler os livros recomendados para se inteirar melhor sobre o assunto, etc. Ou, claro, também para pessoas negras de língua portuguesa que estejam procurando organizações que os apoiem (por exemplo se você sofreu ou está sofrendo discriminação de cor na Alemanha e quer saber como proceder, algumas dessas organizações podem ajudar com orientações).

Se você conhece outras organizações ou livros interessantes que caberiam bem aqui, me escreve nos comentários que eu adiciono à lista. O único critério é que sejam organizações ou livros voltados especificamente para o tema racismo na Alemanha.

Algumas organizações que trabalham lutando contra o racismo ou defendendo pessoas de descendência africana na Alemanha:

Initiative Schwarze Menschen in Deutschland Bund e.V. – a iniciativa tem como objetivo prover um espaço de encontro e troca para pessoas negras na Alemanha, assim como lutar contra o racismo, providenciar apoio a negros na Alemanha e organizar projetos contra o racismo na sociedade.

Each One Teach One (EOTO) e.V. – Um projeto de empoderamento e educação em Berlim, pelo interesse de negros e africanos na Alemanha e na Europa.

Initiative in Gedenken an Oury Jalloh e.V. – Uma organização que foi formada para pressionar por justiça no caso de Oury Jalloh, que mencionei no início do post.

JOLIBA – Interkulturelles Netzwerk in Berlin e.V. – um projeto para apoiar jovens negros na Alemanha

Reach Out / ARIBA e.V. – Uma organização para orientar e apoiar vítimas de violência racista, de ultradireita ou antisemita em Berlim.

Exit Deutschland – não é diretamente ligado a racismo, mas é uma organização com um trabalho super importante que acho que cabe bem aqui: ela é voltada para ajudar pessoas que queiram sair da cena neo-nazista e deixar pra trás esse passado extremista e violento.

Alguns livros sobre o assunto racismo na Alemanha:

Was weiße Menschen nicht über Rassismus hören wollen (Aber wissen sollten) – Alice Hasters

Deutschland Schwarz Weiß – Noah Sow

Deutsch sein und schwarz dazu: Erinnerungen eines Afro-Deutschen – Theodor Michel

Alguns artigos sobre o tema:

Artigos diversos sobre pessoas de origem africana na Alemanha, no site da Bundeszentrale für politische Bildung

Afrodeutsche stehen in Berlin immer unter Verdacht – um pequeno artigo sobre o racismo do dia-a-dia sofrido por um alemão negro de 15 anos de idade.

“Ich wünsche mir ein Bindestrich-Deutschland” – um artigo sobre Aminata Touré, Vize-Landstagpräsidentin (vice-presidente do parlamento estadual) de Schleswig Holstein, uma mulher negra de 26 anos de idade.

“Weiße Deutsche machen zu, sobald das Wort Rassismus fällt” – Uma entrevista com Priscilla Layne, uma professora universitária de germanística, americana e negra, e Céline Barry, alemã negra que trabalha para a EOTO e.V. treinando pessoas contra discriminação.

É isso! Novamente, o pedido: Se você conhecer outras organizações ou livros interessantes que caibam bem nessa lista, me escreve nos comentários que eu adiciono (mas não artigos pq se eu for adicionar todos os artigos ja escritos vai ficar uma lista interminável). E se você é uma pessoa negra vivendo na Alemanha e gostaria de compartilhar situações de racismo sofridas por aqui, fique à vontade para escrever nos comentários ou mandar seu relato por e-mail pelo formulário de contato – se receber alguns relatos, compartilho os mesmos num post sobre o assunto (não esquece de avisar se quer que seu nome apareça no post ou não!).

(Publicado em 09 de Junho de 2020)

A Xenofobia dos outros estrangeiros

Há um tempo atrás eu escrevi um post sobre xenofobia na Alemanha, onde falei um pouco sobre algumas situações onde eu ou amigos estrangeiros nos sentimos discriminados pelos alemães, ou sentiram em que havia uma diferença clara na maneira como éramos tratados pelos alemães. Você pode ler esse post aqui.

Mas um outro assunto relacionado à xenofobia vem me incomodando muito e também precisa ser tratado: a xenofobia de outros estrangeiros.

Nos grupos de facebook das comunidades internacionais na Alemanha – certamente no daqui de Dresden – volta e meia aparecem posts com relatos de pessoas que foram vítimas de racismo e xenofobia em alguma situção. No mais recente que li, um homem árabe, engenheiro que mudou com a família pra cá a trabalho, contou que num domingo à tarde sua família (ele, a esposa e dois filhos) foi verbalmente agredida e intimidada num trem por um grupo grande de torcedores bêbados do Dynamo – o time de Dresden. Assustado e indignado, o homem contou que nesse dia finalmente viu de perto o “outro lado” de Dresden, o lado racista, xenófobo e preconceituoso. A torcida do Dynamo é bem conhecida na Alemanha por ser racista, agressiva e violenta, nos jogos sempre dá briga, o ambiente é sempre meio pesado. E Dresden, berço do movimento xenófobo Pegida, é conhecida na Alemanha por ser uma das cidades menos receptivas a estrangeiros.

Mas dessa vez o que mais me chocou nesse relato foram os comentários dos outros estrangeiros do grupo. Poucos eram realmente comentários de apoio: “poxa, que horror…”, “Já passei por isso, foi péssimo”, “não quero nem imaginar como vc deve ter se sentido!”, “Se quiser sair pra conversar, podemos marcar um café.”. A maioria dos comentários tentava desesperadamente defender a Alemanha e os alemães de três principais maneiras: ou invalidando a experiência que aquela pessoa compartilhou, ou generalizando a sua própria experiência positiva, ou, pior de tudo, culpabilizando a vítima da agressão racista/xenófoba pela agressão que sofreu.

O primeiro tipo – o que invalida a experiência do outro – é aquele que lê essa história e comenta “não liga”, “ignora”, “esquece” ou “Mas isso poderia acontecer em qualquer lugar”, “idiotas existem no mundo inteiro, não é só aqui”, “sempre tem uns assim, aposto que no seu país também tem”. Tinham muuuitos comentários nessa linha. Não importa se isso acontece em outros lugares com outras pessoas também, aconteceu aqui com essa pessoa que está lá desabafando que teve que passar por isso. E COMO que alguém “esquece” ou “ignora” ou “não liga” pra uma situação dessas? Um grupo de homens bêbados querendo briga xingando e intimidando vc e suas crianças pequenas num trem, com ninguém em volta te defendendo ou te ajudando? Mas, né, poderia ter acontecido em outras cidades ou outros países também, então relaxa e aproveita a Alemanha e pare de reclamar que aqui é obviamente tudo lindo e perfeito.

Depois, vêm sempre aqueles fulanos que, quando alguém conta que passou por alguma agressão racista ou xenófoba, comenta que “eu sou assim, assim e assado e nunca me aconteceu nada, logo, não é verdade que existe racismo/xenofobia”. Amigo, você não é 100% das pessoas, só porque vc não passou por nada assim – sorte sua – não faz a experiência de outros que viveram tais situações menos válidas ou menos verdadeiras.

Lendo essas coisas a impressão é de que muitos estrangeiros gostam tanto daqui que se recusam a acreditar que possa existir qualquer tipo de ponto negativo, lado ruim ou coisas que poderiam ser melhores na Alemanha. Essa impressão é reforçada cada vez que eu vejo alguém fazer qualquer tipo de crítica – por menor que seja – à Alemanha por exemplo no grupo da comunidade brasileira daqui. SEMPRE, mas sempre sem exceção, metade das respostas é “MAS É MUITO PIOR NO BRASIL!!!” “MAS AQUI TEM ISSO ISSO E AQUILO QUE É MUITO MELHOR QUE NO BRASIL!!!”. Não é essa a questão. Não importa se a Alemanha é melhor ou pior que o Brasil. Nada disso invalida uma crítica a algo que não é legal. Eu fico me perguntando porque a pessoa acha tão importante acreditar que a Alemanha é PERFEITA SEM DEFEITOS pra poder ser feliz aqui? Eu gosto de morar aqui. Não quero voltar. Mas critico a Alemanha em vários pontos. Nem de longe diria que ela é “melhor” que o Brasil, acho que todos os países têm lados melhores e piores que os outros. A qualidade de vida é melhor aqui, mas a comida é melhor lá. Aqui vc se sente mais seguro, mas as pessoas são mais simpáticas lá. Tudo tem um lado bom e um lado ruim.

Mas o terceiro tipo é de longe o mais ofensivo. A pessoa contou esse caso e um dos comentários – de uma ucraniana branca, loira de olhos azuis – dizia que basta vc ficar na sua e não chamar a atenção que nada nunca vai acontecer com você – ela diz isso por experiência já que já morou 4 anos em Berlim e 4 em Dresden e nunca aconteceu nada com ela. Nossa, será que de repente é pq vc não é negra, nem tem cara de árabe, nem oriental, mas obviamente europeia e passa despercebida aqui? “Claro que não”, responde a ilustre pessoa, “não tem nada a ver com cor de pele, pare de se vitimizar! Em todos os casos que eu presenciei algum tipo de agressão era pq a pessoa vítima da agressão estava se comportando de maneira estranha, e quando vc vai morar num país vc tem que se comportar e fazer tudo exatamente como as pessoas daquele país. Ah, e quanto a crianças, gente, um aviso, fiquem de olho nas crianças, não deixem elas correrem ou falarem alto no trem, que afinal é um lugar público e isso pode incomodar as outras pessoas. E não encare esses torcedores de futebol, eles não gostam.” e partiu daí a explicar como algumas ucranianas também foram vítimas de agressão, mas foi culpa delas mesmas por terem saídos bêbadas sozinhas de uma festa à noite. Eu ainda cortei vários trechos dos comentários dela (eram uns 5 comentários bem compridos) pra não me estressar demais transcrevendo.

Isso abre uma outra discussão importante quando a gente fala de xenofobia. Esse mito de o bom imigrante X o mau imigrante. O bom imigrante seria aquele que veio estudar, ou que veio porque a empresa realocou ele pra cá, o bem qualificado, bem educado, que já sabe a língua, que não tem uma religião diferente nem uma cara diferente. Basicamente é o imigrante que não é tão diferente. O mau imigrante seria o refugiado, o imigrante que veio porque as coisas não estavam boas no seu lugar de origem, o que não tem qualificação, não tem educação, depende de assistência governamental, demora pra aprender a língua, segue uma religião diferente, se veste diferente, resumindo: o diferente demais. Que as pessoas locais separem os imigrantes nesses dois grupos (isso as pessoas que se dizem não-xenófobas, as abertamente preconceituosas detestam todo mundo igual) é meio óbvio e esperado – embora não menos triste ou preconceituoso. Mas o que me deixa triste mesmo é ver os próprios imigrantes (os do primeiro grupo, claro), fazendo essa distinção e a partir dela sendo xenófobos com os do segundo grupo. Crentes de que por fazer parte do primeiro grupo eles estão seguros e protegidos aqui e que ninguém vai mexer com eles. E tomando as “dores” dos xenófobos locais em relação ao imigrante “diferente demais”. Só que, como deixou clara a história do rapaz engenheiro, o grupo de torcedores racistas bêbados não vai antes te perguntar se vc é refugiado ou intercambista antes de te agredir quando não tiver ninguém por perto pra te ajudar. Ninguém vai te perguntar se você é advogado ou desempregado antes de te xingar na rua. O chefe da empresa pra qual você mandou seu currículo também vai estar bem menos preocupado com a sua qualificação do que você imagina antes de descartar o currículo do fulano de nome estranho e cara esquisita (você) em favor do alemão “normal” com nome “pronunciável”. Na rua, você só vai passar despercebido se tiver a sorte de ser branco o suficiente. Então quando você reproduz o discurso xenófobo, seguro de que ele não se aplica a você, pode ter certeza que o que você está usando pra atacar os outros imigrantes é um belo dum bumerangue.

É triste demais perceber quando a comunidade internacional, em vez de se ajudar e se apoiar nesses casos, tão freqüentemente reproduz os discursos dos piores mais racistas e mais xenófobos alemães que você poderia encontrar por aqui. Eis aqui um belo exemplo: Um post no grupo da comunidade de brasileiros avisando que teria uma manifestação neo-nazi (sim, tem dessas em Dresden.) e recomendando ficar longe do local onde ocorreria a manifestação. Esse nobre comentário foi o primeiro a aparecer no post:

???

Nem sei o que comentar a respeito.

Mas pra terminar o post com um tom positivo: Eu acredito que essas pessoas não sejam a maioria, felizmente. Pelo menos dos estrangeiros que eu conheço pessoalmente, não saberia mencionar nenhum que pense assim (Bom, provavelmente eles não gostam de fazer amizade com outros estrangeiros, né…). E é assim aqui em Dresden – e acredito que na maioria das outras cidades alemãs também – tem sempre um grupo de estrangeiros e alemães que se ajudam, se apoiam no que precisar, e tal. Certamente vale a pena entrar em alguns grupos da sua cidade no facebook até achar aquele onde estão as pessoas mais prestativas e amigáveis, certamente tem um. É importante fazer amizade com pessoas locais para facilitar sua integração, mas também é muito importante pro bem estar pessoal ter um grupo de amigos que estão “na mesma situação” que você, com quem você pode desabafar quando as coisas estiverem difíceis, quando der saudades de casa, quando você estiver mega irritado com alguma característica típica daqui, quando você precisar de alguém que saiba exatamente o que você está passando…

Então fica aqui meu pequeno-longo manifesto para todos os estrangeiros na Alemanha: bora se ajudar que tá todo mundo no mesmo barco!


(Publicado em 3 de Maio de 2016)