sistema de saúde

O Sistema de saúde alemão 4 – Programa de Bônus

Uma coisa interessante dos seguros de saúde (públicos) daqui são os programas de bônus. Acho que todos os seguros públicos oferecem algo do tipo. A idéia é encorajar as pessoas a fazerem determinadas atividades que fazem bem para a saúde e consequentemente ajudam a evitar doenças. Cada atividade te dá uma pontuação, e atingindo determinada quantidade de pontos você recebe dinheiro de volta. Não é assim, noooossa, que fortuna (30€), mas 30 euros + saúde é melhor do que 0 euros + doença, então pronto.

Os programas de bônus dos diferentes seguros de saúde são um pouco diferentes – mas seguem basicamente a mesma idéia. Então eu vou explicar com mais detalhes o do meu seguro de saúde (Techniker Krankenkasse, TK).

Primeiro como funciona a pontuação. Você tem um ano pra completar atividades e somar pontos. Com 1000 pontos você recebe 30€. E aí a cada 100 pontos além desses 1000 pontos você recebe outros 2,50€. Mas claro, nada disso tem qualquer significado sem uma noção de quantos pontos dá pra conseguir. Então vamos às atividades:

Tem duas maneiras de conseguir pontos.

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A primeira são atividades específicas, pontuais. Cada atividade te dá uma pontuação variando entre 200 e 500 pontos. Ou seja, com duas dessas atividades de 500 pontos você já atinge os 1000 pontos necessários. As atividades são as seguintes:

  • Hautkrebs-Screening – Exame para prevenção de câncer de pele. Dá 200 pontos, mas conta no máximo 1x a cada dois anos.
  • Allgemeine Krebsvorsorge – Exame para prevenção de câncer no geral. Não sei se é um exame específico or what, mas te dá 200 pontos 1x por ano.
  • Zahnvorsorge – Consulta preventiva no dentista, basicamente ir ao dentista uma vez por ano sem ter nenhuma reclamação específica, pra ver se está tudo em ordem. Te dá 200 pontos.
  • Mutterschaftvorsorge – Exames pré-natais, conta uma vez por gravidez e dá 200 pontos.
  • Rückbildungsgymnastik – Ginástica pós-natal, 400 pontos.
  • Gesundheitskurs Bewegung – Curso de “movimentação saúdavel”, sei lá, não consegui pensar numa boa tradução, mas seriam basicamente cursos curtos pra te dar dicas de como ser mais ativo no seu dia-a-dia. Conta 400 pontos, 1x por ano.
  • Gesundheitskurs zur Ernährung oder Gewichtsreduktion – Curso de nutrição ou de perda de peso, conta uma vez por ano e dá 400 pontos.
  • Gesundheitskurs zur Stressbewältigung oder Entspannung – Curso para lidar com o stress ou curso de relaxamento. Conta 400 pontos uma vez por ano.
  • Gesundheitskurs gegen Suchtmittelkonsum – Curso contra vícios, conta uma vez por ano, 400 pontos.
  • Impfvorsorge – Vacinas preventivas, conta no máximo uma vacina por ano, 400 pontos.
  • Aktive Mitgliedschaft im Sportverein, Fitnessstudio – Associação a um clube de esportes ou a uma academia, 500 pontos.
  • Schwimm-/Sportabzeichen – Ok, isso é meio difícil de traduzir que é uma coisa bem particular daqui que eu nem sabia o que era até perguntar, agora mesmo, pro marido. É basicamente um certificado de êxito em teste de determinados esportes (basicamente os atléticos). Tem uma associação alemã, Deutsches Sportabzeichen, responsável por esses tais certificados. Para tirar um desses certificados, você tem que realizar uma atividade sob determinados critérios – por exemplo, correr 500m – coisas assim. A meta que você tem que atingir, distância de corrida, tempo, distância saltada, distância nadada, etc – varia de acordo com a sua idade e sexo. É um negócio até interessante, vou fazer um post só sobre isso depois. Mas enfim, se você tirar algum desses certificados você ganha 500 pontos.
  • Sportveranstaltungen – Certificado de participação em eventos esportivos (tipo torneio de vôlei, sei lá). Não precisa terminar em nenhuma posição específica, mas precisa terminar. Não conta maratona, não sei pq. Dá 500 pontos.

E a segunda maneira de acumular pontos é fazer o “Fitnessprogramm“. É um programa pra te manter ativo no dia-a-dia. A TK conta passos dados durante a semana. O esquema é: vc tem que em 10 de 12 semanas andar pelo menos 60.000 passos. Quando você começa a fazer o programa começam a contar as 12 semanas, e você pode ficar no máximo 2 dessas 12 sem andar os 60.000 passos. O programa você pode fazer duas vezes por ano, e a cada vez (se você conseguir andar os 60.000 passos por semana) conta 500 pontos. Então só com esse Fitnessprogramm já dá pra acumular os 1000 pontos. Pra contar os passos você usa algum aplicativo de celular. 60.000 passos é 8.571 passos por dia, pra quem trabalha em escritório e não anda muito pode ser bastante. Por sorte eu ando bastante no meu dia-a-dia, então os 60.000 tão fáceis.

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Semana passada andei 88.012 passos! 🙂

Então não é difícil chegar e passar dos 1000 pontos. Eu comecei esse programa no mês passado e já acumulei 900 pontos: 400 de uma vacina que eu tomei, contra catapora, e 500 porque eu vou na academia regularmente. Se eu conseguir os 1000 pontos do Fitnessprogramm, vou receber 52,50€ ano que vem! Não é uma grande fortuna, mas pô, 50€ só pra fazer coisas que eu já estava fazendo antes não tá nada mal! E isso que ainda dá pra acumular mais uns pontos de outras coisas até lá.

Seja como for, a idéia de encorajar as pessoas a fazerem atividades que fazem bem pra saúde é ótima. E acaba virando um joguinho, esse negócio dos passos. Eu completo os 60.000 com facilidade, mas meu marido têm que sair pra andar com mais freqüência pra chegar nos 60.000. Então ele começou a correr três vezes por semana. E volta e meia a gente sai a noite pra dar uma longa volta pelo bairro e somar uns passos. Então além do dinheiro, ainda ficamos mais ativos. Acho bom!


(Publicado em 11 de Setembro de 2017)

Doação de órgãos na Alemanha

Um item que está presente na carteira de muitos alemães é esse cartãozinho aqui:

É um cartão para informar se você é doador (ou não-doador) de órgãos. O cartão é padrão, “emitido” pela BZgA, Bundeszentrale für gesundheitliche Aufklärung, ou Central federal de educação/esclarecimentos em saúde. É um instituto pertencente ao Ministério da Saúde alemão, responsável por educar a população em questões relacionadas à saúde. Eles fazem campanhas sobre AIDS e outras doenças sexualmente transmissíveis, prevenção de doenças diversas, etc. E esse cartãozinho relativo à doação de órgãos.

Esse cartão normalmente ou o seu seguro de saúde te envia junto com informações sobre a doação de órgãos, ou você pega no consultório do seu médico, ou então você pode até pedir online no site da BZgA, onde vc também pode ler as informações a respeito: como funciona a doação de órgãos, quais órgãos podem ser doados, quais doenças podem ser curadas com transplantes, etc…

O interessante nesse cartãozinho é que você não marca simplesmente se você aceita ou não ser doador de órgãos, mas você pode inclusive especificar quais órgãos você aceita ou não aceita doar. Isso pode ser particularmente útil se alguém, por exemplo por motivos religiosos, não aceita doar digamos o coração, mas o resto tudo bem. Se não tivesse essa especificação, a pessoa colocaria, simplesmente, que não é doadora. Quando na verdade a maioria dos órgãos ela não se incomodaria de doar em caso de morte.

Traduzindo o verso do cartão, para mostrar direitinho as opções:

“No caso de, após o meu falecimento, a possibilidade de doação de órgãos ou tecidos entre em questão, eu declaro que:
(  ) SIM, eu autorizo, após a confirmação médica da minha morte, a remoção de órgãos e tecidos.
(  ) SIM, eu autorizo o mesmo, com a Exceção dos seguintes órgãos ou tecidos: __________
(  ) SIM, eu autorizo o mesmo, mas Apenas para os seguintes órgãos ou tecidos: _________
(  ) NÃO, eu não autorizo a remoção de órgãos ou tecidos.
(  ) Quanto à remoção de órgãos ou tecidos, a seguinte pessoa deve ser consultada: ______”

Também é importante saber que o que você marca no cartão não é registrado em nenhum lugar. Então você pode, a qualquer momento, mudar de idéia. Basta pedir um cartão novo – ou mesmo imprimir direto do site da BZgA, e preencher com a sua nova decisão.

Eu peguei esse cartãozinho esses dias na médica e preenchi dizendo que aceito doar todos os órgãos exceto a córnea. Porque me dá uma aflição profunda, ugh, só de pensar em remoção de córnea, ugh argh. Mas aí assim que eu preenchi o cartão pensei que transplante de córnea pode evitar que alguém fique cego, e pensei em como me sentiria se precisasse muito de um transplante de córnea e não conseguisse porque todos os potenciais doadores ficaram com afliçãozinha ao imaginar o transplante de córnea e escolheram não autorizar a remoção da córnea. Fiquei com vergonha da minha decisão boba e decidi ir buscar outro cartãozinho na médica e preencher como doadora sem restrições.

Mas enfim, a decisão sobre seu próprio corpo tem que ser só sua, então vai lá, lê as informações e preencha seu cartãozinho com convicção. O que pesou para a minha decisão foi perceber que ainda que eu sinta uma certa aflição ou aversão à idéia de remoção de órgãos do meu corpo após minha morte, eu certamente gostaria de conseguir um órgão para transplante se vier a precisar de um algum dia, e gostaria que as pessoas próximas a mim possam conseguir órgãos para transplante se vierem a precisar deles. Então nada mais justo e coerente que aceitar doar os meus no caso da minha morte.

Aqui nesse link tem um PDF da brochura da BZgA com informações básicas sobre o transplante e doação de órgãos em alemão e em inglês. Uma coisa que eles falam repetidamente nessa brochura é que, qualquer que seja a sua decisão, informe seus parentes próximos. Porque se você vier a falecer em uma situação em que determinados órgãos possam ser removidos e transplantados e eles não encontrarem o cartãozinho com a sua decisão, são os seus familiares que vão decidir. Então é bom que eles saibam qual a sua vontade. Mas a diferença grande do Brasil (pelo que eu pesquisei) é que aqui a sua vontade – registrada nesse cartãozinho ou como for – será prioridade sobre a vontade dos seus familiares. No Brasil mesmo que você tenha lá na sua carta de motorista escrito que você aceita ser doador, se sua família não autorizar a remoção dos órgãos, eles não serão removidos. Então busque lá seu cartãozinho e faça a sua vontade!


(Publicado em 2 de Maio de 2017)

 

Hospitais alemães

Não faz nem dois meses que eu escrevi três posts sobre o sistema de saúde alemão, ao final dos quais eu disse que não podia falar muito sobre hospitais uma vez que nunca tinha ficado em um por aqui. Não imaginaria que em dois meses teria esse desprazer…

Eis que no domingo de manhã me deu uma dor repentina muito louca e fora do normal, que, permanecendo contínua e intensa por mais de 20 minutos, resolvemos que era melhor ir para um pronto-socorro ver o que era.

Chegamos no pronto-socorro do Diakonissenkrankenhaus, um hospital mantido pela igreja protestante, perto de casa. O pronto-socorro foi o pronto-socorro mais vazio que eu já vi, era domingo de manhã e tinham duas outras pessoas lá esperando ser atendidas. Há vantagens em se morar em cidades pequenas…

Depois de vários exames e ultrassons diversos, não conseguiram descobrir exatamente o que era, mas o que eles suspeitavam que fosse exigia uma cirurgia de emergência. A médica ligou para a cirurgiã, que marcou a cirurgia para dali a uma hora, e logo me mandaram para um quarto do hospital com um enorme questionário para responder. Dali a pouco já estavam me levando para a sala de operação e dando a anestesia…

Eu fiz uma vez uma cirurgia no Brasil, para uma hérnia de umbigo, quando eu tinha 8 anos. Eu não lembro muitos detalhes então fica difícil comparar. Mas o que chamou minha atenção positivamente no hospital alemão foi que eles me explicaram direitinho porque queriam fazer a cirurgia mesmo sem ter certeza se era necessária, e como a cirurgia seria feita, além dos riscos mais e menos prováveis, como seria o pós-operatório, e tudo. Mas foi sorte eu falar alemão, porque a médica não falava inglês… certamente se meu alemão não fosse o suficiente a situação toda teria sido bem mais assustadora e bizarra!

Outra coisa que eu não imaginaria que teria sido assim é que assim que a médica decidiu que a melhor alternativa era a cirurgia, ela me explicou tudo e me pediu para decidir e assinar o papel ali na hora – sem que eu antes pudesse pedir a opinião do meu namorado que estava esperando na sala de espera. Acho que se eu tivesse pedido para antes falar com ele eles teriam deixado, mas depois fiquei pensando que foi bem razoável que eles insistissem que a decisão fosse minha sem influências. Depois quando ela foi comigo procurá-lo para falar que eu ia passar para a cirurgia, ela mesma deu a notícia de maneira bem definitiva. Por outro lado eu fiquei com medo que por nós ainda não sermos casados, eles não deixassem ele ficar comigo depois da cirurgia ou coisa assim. Mas isso não foi problema, a única coisa que eles perguntaram foi o nome dele.

A cirurgia durou pouco menos de uma hora, e quando eu comecei a acordar da anestesia, ainda na sala de operação, experienciei a sensação mais estranha da minha vida: as pessoas à minha volta estavam falando só alemão, claro, e por causa disso eu comecei a pensar em alemão também. E não conseguia mudar a língua na cabeça para inglês ou português! Meu cérebro estava mais acordado que meu corpo, que eu quase não conseguia mexer, e eu estava sentindo uma necessidade muito forte de dizer que eu estava lá e acordada mas morrendo de sono. Estava preocupada de falar isso pro meu namorado quando chegasse no quarto, e fiquei pensando, “bom, pelo menos meu namorado fala alemão, então ele vai entender se eu falar com ele em alemão”, mas achando muito esquisito não conseguir mudar a língua. Quando cheguei no quarto, consegui falar – com mto esforço – que estava cansada (em alemão) e ele respondeu em inglês, e a língua no cérebro imediatamente mudou pra inglês e voltou tudo ao normal. Foi uma experiência bem inesperada, você fica achando que nessas situações vc só vai conseguir falar na própria língua… nem acreditei que consegui fazer tudo isso em alemão sem nenhum grande problema. Achei engraçado que a primeira frase que eu ouvi ao acordar da anestexia foi a anestesista dizendo “ela já está acordando.”. Rsrsrs, ainda bem que elas estavam prestando atenção!

O quarto em que fiquei tinha três leitos, mas deu sorte de os outros dois não estarem ocupados. Uma coisa que eu achei bem diferente (não sei se só nesse hospital é assim ou se é meio regra em hospitais alemães) é que não tinha horário pra visita, meu namorado podia ir e vir no horário que quisesse e ficar quanto tempo quisesse. Só dormir que ele não podia, lá, porque não tinha onde. Mas não tinha um horário que ele tivesse que ir embora, e isso eu achei muito conveniente.

Normalmente o seguro público cobre apenas um quarto compartilhado entre dois ou três pacientes, e você pode pagar extra para ficar num quarto privativo. Os seguros privados, dependendo de qual você tiver, às vezes cobrem um quarto privativo só pra você. Como foi só uma noite e deu a sorte de eu estar sozinha, não tenho do que reclamar. Certamente se fosse mais tempo e tivessem outras pessoas no quarto teria sido um tanto desconfortável dividir… mas enfim!

No dia seguinte de manhã tive alta – e foi outra coisa um tanto diferente. Basicamente depois da médica fazer os exames de manhã cedo para ver se estava tudo bem, uma enfermeira trouxe uma carta de alta (Entlassungsbrief) num envelope – que era basicamente uma carta para a minha médica normal (não a médica do hospital, mas a médica que me acompanha regularmente) dizendo o que tinha acontecido, como tinha sido a operação, com fotos da operação e tudo mais. Quando meu namorado chegou para me buscar, não precisamos dar satisfações a ninguém, foi só se trocar, pegar as coisas e ir embora. Achei curioso, porque eu poderia ter ido embora da mesma maneira também antes de me entregarem a tal carta. A minha impressão – em comparação com hospitais que eu visitei no Brasil para ver alguém que estava internado ou coisa assim – é que era tudo mais aberto, meu namorado podia ir e vir sem dar satisfações a ninguém, e eu tb pude sair sem dar satisfações a ninguém. Foi tudo meio na confiança de que eu seguiria as recomendações deles. Curioso.

De resto não vi grandes diferenças no hospital alemão para os hospitais brasileiros que visitei. Claro que não visitei muitos hospitais em lugares remotos do Brasil, que certamente são bem diferentes dos grandes hospitais de São Paulo. E também não tenho um conhecimento muito expert pra poder dizer se os instrumentos pareciam mais modernos e de última geração em comparação ao que se usa no Brasil ou não. Não achei nada particularmente impressionante nesse sentido, mas como falei, não tenho muita experiência no assunto. Quanto a remédios, depois da cirurgia e durante a noite eles injetaram algo para a dor, suponho que morfina, mas no dia seguinte e para o resto da semana, a médica recomendeu apenas ibuprofeno.

Mas um inconveniente é que a médica do hospital recomendou que eu tire uma semana de repouso mas não me deu o papel de licença médica do trabalho (Krankschreibung). Para pegar esse papel, terei que ir essa semana na minha médica normal com a tal Entlassungsbrief para que ela me dê a Krankschreibung que eu preciso entregar para meu chefe. Um tanto inconveniente já que não é exatamente repousante ter que sair de casa pra ir ao médico só pra buscar um papel… mas enfim!

Em tempo: Deu tudo certo a cirurgia, não era o que eles tinham suspeitado mas outra coisa que também precisava de cirurgia: um cisto que tinha se rompido e no processo machucado uns tecidos que estavam sangrando internamente! A médica e a enfermeira me disseram muitas vezes que ainda bem que eu fiquei no hospital (porque depois que eu cheguei a dor melhorou muito) e não fui pra casa, se não poderia ter sido bem pior! Mas deu tudo certo… e mais uma experiência de Alemanha pra coleção! O chato é que com essa confusão acabei perdendo as celebrações do dia da reunificação alemã, que esse ano foram aqui em Dresden… e eu estava planejando um post sobre o assunto… vai ficar pro ano que vem!


(Publicado em 04 de Outubro de 2016)

O sistema de saúde alemão 3: Receitas e farmácias

Esse é o terceiro post sobre o sistema de saúde alemão. Nos dois primeiros posts eu escrevi respectivamente sobre os tipos de seguros de saúde (público ou privado) e sobre médicos e consultas.

Nesse post – o último sobre o assunto por hora – vou falar um pouco sobre como funcionam as receitas.

Na verdade eu nem sei direito como funcionam receitas para remédios no Brasil. Todas as receitas que eu recebi lá eram para remédios que não precisavam de receitas, então não tinha nada de especial, era só um papel com o nome do remédio assinado pelo médico.

Mas uma diferença já começa aí: Aqui quase tudo precisa de receita. Remédios bem genéricos como aspirina, ibuprofeno, essas coisas típicas para dores gerais não precisam de receita. Mas, por exemplo, anti-concepcional é uma coisa que não dá de jeito nenhum pra comprar sem receita. E os anti-concepcionais vêm sempre em uma caixa com 3 ou 6 meses de pílulas. Ou seja, você tem que voltar no seu ginecologista para buscar uma receita nova a cada 3 ou 6 meses. Isso é uma coisa que eu acho meio exagerada – facilita demais você ficar sem a pílula porque não percebeu que já era a última cartela e não conseguiu ir no consultório a tempo pra buscar outra receita. E o preço dos anti-concepcionais nunca é coberto pelo seguro de saúde – seja público ou privado – o que eu também acho problemático. Mas enfim.

Tem quatro tipos diferentes de receitas, as rosas, azuis, verdes e amarelas.

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A receita rosa é a mais comum. É a para remédios em geral receitados pelo médico cujo custo é coberto – parcialmente ou no total – pelo seguro de saúde do paciente. Nesse papelzinho como na imagem acima o médico imprime os dados do remédio receitado, o nome e os dados do paciente assim como o nome, dados e assinatura do médico.

Tem ainda um monte de outros números e campos que eu não tenho a menor idéia de pra que servem (¯\_(ツ)_/¯) mas são certamente muito úteis. Uma observação é que ali do ladinho tem ainda um campo para a farmácia que te vendeu o remédio em questão imprimir a identificação deles e o valor pago pelos remédios. Assim você envia a receita para seu seguro de saúde para eles reembolsarem o preço dos medicamentos. Isso no caso de vc ter um seguro privado. Se o seu seguro for público, do valor que você paga pelo remédio já é automaticamente descontado o que o seguro público cobre, e a farmácia fica com a receita para ser reembolsada pelo seguro público. Essas receitas têm uma validade que acho que varia dependendo do remédio, pode ser entre 4 semanas e 3 meses.

Receita azul

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A diferença da receita azul para a rosa é que o remédio receitado nas receitas azuis deve ser pago pelo paciente – porque os seguros não cobrem (Por exemplo receita para anti-concepcional). Essas receitas são válidas por 3 meses.

Receita verde

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As receitas verdes são para remédios que não exigem receita (mas que só podem ser vendidos por farmácias), digamos por exemplo ibuprofeno. Essa receita obviamente não tem validade.

Receita amarela

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Já a receita amarela é para medicações mais controladas, como por exemplo morfina. Essas receitas têm uma validade de 7 dias, e o são emitidas em três cópias: uma para o médico, uma para o seguro de saúde e uma para a farmácia. O valor é coberto pelo seguro de saúde, mas normalmente o paciente tem que pagar uma parte (por exemplo um mínimo de 10 euros por medicação, algo assim dependendo do seguro).

 

Ok, receitas explicas, falta ainda saber onde comprar a medicação.

Existem dois tipos de lojas aqui que poderiam ser traduzidas como farmácias: As Apotheke e os Drogeriemarkt. 

Drogeriemarkt são grandes farmácias que vendem principalmente artigos de higiene: fraldas, absorventes, cremes, shampoos, lenços, protetor solar, camisinha e também outras coisas como elástico pra cabelo, esmalte, maquiagem, etc. Basicamente tudo o que você acha em farmácias no Brasil que não são remédios. As duas principais redes de farmácias desse tipo são a DM e a Rossmann, que você encontra fácil em qualquer lugar.

Apotheke são as farmácias que vendem medicações. Lá que você leva sua receita. Elas têm sempre esse mesmo logo, independente da loja:

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O curioso é que não é muito fácil achar farmácias abertas a noite ou em domingos. A maioria fica aberta só até às 6, 7. Se você precisa de uma farmácia em horários não-comerciais, tem uma ou outra que fica aberta, mas não aberta, aberta. Você tem que apertar a campainha e vem alguém abrir a porta e te perguntar na porta o que você precisa, e você espera lá fora! E ainda te cobram mais caro pelo medicamento.

O resto acho que é bem parecido com no Brasil. Se a Apotheke não tem o medicamento que você precisa e tem que encomendar, normalmente chega logo no dia seguinte. Eles também sugerem medicamentos (os que não precisam de receita) se você perguntar.

Acho que é isso! Por hora é o que eu tenho a compartilhar sobre o sistema de saúde alemão.  Talvez eu escreva algum dia um post sobre hospital se eu tiver a má-sorte de precisar de algum, ou então um post sobre gravidez (que certamente dá muito papo no assunto sistema de saúde) se algum dia eu resolver engravidar.


(Publicado em 4 de Agosto de 2016)

Sistema de saúde alemão 2: médicos e consultas

No primeiro post sobre o sistema de saúde alemão eu falei sobre os tipos de seguro (público e privado), como funcionam, e quem pode ter qual tipo.

Mas talvez o mais interessante sobre o assunto seja como funcionam as consultas, médicos e hospitais.

Uma diferença grande daqui pro Brasil é que é quase impossível você marcar uma consulta diretamente com um médico especialista sem antes passar por um clínico geral. Normalmente todo mundo tem um médico clínico geral que é com quem você marca uma consulta pra qualquer assunto e esse médico – se for o caso – te encaminha para algum outro especialista. Pra várias especialidades, se você ligar pra marcar consulta sem o papel de encaminhamento de um clínico geral (Chama Überweisung) eles não te aceitam. E o clínico geral trata várias coisas sem encaminhar.

No Brasil, a gente só vai no clínico geral se não sabe de onde vem o problema. Se sabe, já marca com o especialista.

Há, claro, algumas exceções: ginecologista, por exemplo, você marca diretamente sem passar por clínico geral.

Uma outra diferença por aqui – e uma muito prática, por sinal – é que vários dos exames quem faz é o próprio médico no consultório. Por exemplo exame de sangue ou os exames ginecológicos, o próprio médico ou médica já faz a coleta no próprio consultório e envia para o laboratório para a análise. E o laboratório envia o resultado de volta diretamente para o médico ou médica. Ou seja, você nem vê o resultado antes de marcar outra consulta – o que eu acho que faz muuuuuito mais sentido. Acho meio absurdo você ter acesso ao resultado do exame sem ter o conhecimento necessário para interpretá-lo, o que em vários casos deve gerar sustos super desnecessários. E a vantagem do médico fazer a coleta ali direto é, claro, que você não precisa achar um laboratório, marcar os exames pra sei lá quando, ir fazer os exames, etcetcetc. O processo todo acaba sendo bem mais rápido.

Claro que não são todos os exames que são assim, alguns mais específicos você tem que marcar em algum lugar específico, mesmo, já que o médico não vai ter todos os instrumentos possíveis lá no consultório dele.

Para marcar uma consulta não tem nada muito especial, mas nem todos os clínicos gerais aceitam pacientes novos. Então no começo você pode precisar tentar alguns até achar um para você. Alguns aceitam mas com o tempo de espera bem maior que para quem já é paciente. E mudar de um pro outro também não é muito fácil – se você não for paciente eles te perguntam se você já tem outro médico naquela cidade e porque você quer mudar de médico.

Se você tiver um seguro público, pode ser que não seja qualquer médico que te aceite. Mas não por escolha do próprio médico: o que acontece é que no sistema público tem um número x de vagas para cada especialidade por cidade. Por exemplo, digamos que em Berlim tenha, sei lá, 2000 vagas para fisioterapeutas. Se você se formou em fisioterapia e quer abrir um consultório em Berlim, mas todas as vagas já estão ocupadas, você tem que esperar abrir uma vaga (alguém fechar um consultório, se aposentar, etc) para poder atender pacientes do sistema público, e enquanto isso só pode atender pacientes com seguros privados. Pra você como médico isso é pior porque a maioria das pessoas tem seguros públicos, então sem poder atender pelo sistema público você vai ter menos pacientes te procurando. Mas se você como paciente não conseguir marcar nenhuma consulta entre os médicos que atendem o sistema público porque todos tem um enorme tempo de espera, você pode ver com o seu seguro de eles te reembolsarem uma consulta com um médico que não atende o sistema público.

Uma coisa que também é diferente é que no Brasil normalmente os convênios não cobrem dentista – exceto os planos mais caros – nem psicólogo, psicoterapeuta, psiquiatra, etc. Aqui os seguros públicos sempre cobrem ambos, e a maioria dos privados também. Alguns seguros (privados) cobrem também o custo de óculos novos a cada x anos (normalmente dois anos) e até um valor x.

Eu queria falar também sobre hospitais, mas aí me toquei que não sei nada sobre hospitais uma vez que nunca precisei de um aqui até agora, ainda bem.

No próximo e último post sobre o sistema de saúde alemão vou falar como funcionam as receitas e farmácias por aqui!


(Publicado em 3 de Agosto de 2016)

O sistema de saúde alemão 1 – Seguros públicos e privados

Faz 4 anos que eu sei que um dia teria que criar coragem pra escrever esse post. Acho que esse dia chegou. A coragem é necessária porque esse post vai ser bem cabeludo.

O tema é complicado porque o sistema de saúde daqui tem umas regras muito loucas e em certos momentos, bem sem sentido. Dependendo das circunstâncias, pode parecer que o sistema é super simples, lógico e direto. Mas se você cai em certas categorias, as regras vão ficando mega complexas.

Aqui não existe uma saúde pública como no Brasil – em que vc vai no hospital público e pronto, ninguém vai te mandar uma conta. Todo mundo, pra ter assistência médica, tem que pagar um seguro de saúde. É obrigatório ter um seguro de saúde. Se você não tiver um seguro de saúde, é lógico que eles vão te atender e te tratar no hospital, mas aí você que vai ter que pagar a conta. Mas isso nem é uma alternativa uma vez que é obrigatório ter um seguro.

Tem dois tipos de seguros de saúde: os públicos e os privados. Os dois você que paga, embora de maneira diferente. E a complicação é na hora de saber qual tipo você pode ter. Não é simplesmente uma escolha sua.

Para ter um seguro de saúde público você tem que ser ou estudante da universidade ou estar contratado em alguma empresa. Ou, se você perder o emprego ou terminar a universidade e começar a procurar um emprego, aí você tem direito a algum dos programas sociais (bolsas estilo Bolsa Família, para quem não tem renda ou não recebe mais que tantos euros, etc) e aí vc também pode ter o seguro público. Basicamente são essas as situações em que você “entra” no sistema público (Krankenkasse). Só que se você nunca tiver tido um seguro público na Alemanha (ou na Europa) e não estiver numa dessas situações em que você tem o direito de entrar no sistema público, aí você não pode ter um seguro público. Então você tem que ter um seguro privado (Privatkrankenversicherung).

A outra opção é que se você ganhar mais de 60.750 euros por ano você pode escolher ter um seguro privado sobre um seguro público. A lógica por trás dessa regra eu acho que é pra eles assegurarem que vai ter um tanto de pessoas pagando no sistema público pra poder ter capital para fazer o sistema funcionar. Como os seguros privados cobrem mais (e na situação de você poder comprovar renda e ser uma pessoa nova sem grandes doenças, o seguro privado pode ser mais barato), eles têm que ter um jeito de manter as pessoas no sistema público pra ter o capital. Acho que é isso.

Isso tudo é normalmente bem simples se você tiver nascido aqui. No começo da sua vida o seguro dos seus pais cobre você, e em determinado momento você vai poder entrar no sistema público – ou pq vc conseguiu um emprego, ou pq vc se inscreveu num dos programas de ajuda social, ou pq vc começou uma faculdade. Tem certas situações que vc pode escolher continuar no sistema privado (por exemplo: seus pais têm um seguro privado que te cobre até os 27 anos, vc começou a faculdade com 18 e como o seguro dos seus pais é bom e vc não paga nada, vc escolher continuar com ele até terminar a faculdade e conseguir seu próprio emprego – situação pela qual vc é então obrigado a mudar pro sistema público). Nesse caso você não pode mais ir pro sistema público como estudante, só depois que vc conseguir seu próprio emprego. Se vc sempre foi coberto pelo sistema público pq seus pais são cobertos por seguros públicos, aí tá sussa, vc continua pra sempre no sistema público de boas.

Os nós aparecem se você – o que é bem provável se você está lendo esse post sobre o sistema de saúde alemão, em português – não nasceu aqui mas veio pra cá em algum momento da vida.

Situações em que você chegando aqui já vai poder ter um seguro público (Krankenkasse):
– se você veio pra Alemanha porque conseguiu um emprego aqui
– se você veio pra Alemanha porque casou com um/a alemã/o (o seguro do cônjuge cobre você caso você seja desempregado)
– aaacho que se vc chegou aqui pra fazer uma faculdade (o curso inteiro, não intercâmbio). Acho que nessa situação vc tb tem direito ao sistema público, mas não tenho 100% de certeza.
– se vc tem direito a algum programa social (pouco provável sem ter trabalhado aqui, mas digamos, por exemplo, que vc seja refugiado. Aí vc conseguiu o status de refugiado e automaticamente começa a receber do sistema social até conseguir um emprego. Nesse caso vc vai ter o seguro público).
– se você é europeu e é segurado pelo sistema público do seu país (europeu) de origem

Situações em que você chegando aqui vai ter que procurar um seguro privado (Privatkrankenversicherung):
– se você veio com visto de turista tentar arranjar um emprego
– se você veio com visto de estudante para um intercâmbio, ou para estudar alemão
– se você têm passaporte europeu, mas nunca morou no país da sua cidadania e consequentemente nunca foi segurado pelo sistema público de algum país europeu (era o meu caso no início)

E aí é que a situação pode ficar difícil. Se você for estudante tá fácil, os seguros para estudantes são normalmente super em conta e cobrem tudo (e se você tiver bolsa, muitas vezes a bolsa já inclui um seguro). Se você tiver aqui com a intenção de procurar um emprego eu recomendo fortemente se inscrever num curso de alemão pra poder ter um seguro de estudante. (isso só vai funcionar no começo, pq os seguros de estudantes se você tiver aqui só estudando alemão tem uma validade de no máximo um ou dois anos). Sem ser estudante você tem que conseguir um seguro normal, e aí é que o negócio pode ficar complicado.

Quando eu cheguei, antes de ter um emprego, eu comecei a procurar um seguro privado, e o mais barato que encontrei, que não cobria um monte de coisa, o mais basicão de todos, custava 200 euros. Que é um belo de um dinheiro quando você está desempregado. Só que pra piorar as coisas eu não consegui esse seguro porque quando eu pedi o mesmo, a seguradora me falou que como eu não tinha como comprovar renda, eles não podiam me dar o seguro. MAS como é obrigatório ter um seguro, eles tinham então uma opção de um outro seguro para quem não consegue seguro por um motivo qualquer (por exemplo não poder comprovar renda). Esse outro seguro, que eu podia ter, custaria então 600 euros!!! Lógica supimpa essa: “não, vc não pode pagar então não vamos te dar o seguro de 200 euros. Mas se você quiser, pode ter o de 600!”…

Aí eu descobri que podia ter o seguro de estudante já que estava estudando alemão, e isso resolveu a história até eu começar um mestrado e depois conseguir um emprego.

Ok, resolvida as questões de como você pode ter um ou o outro tipo de seguro, a pergunta que você deve estar se fazendo agora é: mas quais são as vantagens ou diferenças entre os dois tipos?

No geral, os seguros privados cobrem mais coisas, mais exames, quarto individual no hospital, sei lá o quê. Então se for analisar a cobertura dos seguros, valeria mais a pena ter o privado. Só que os públicos são mais “justos”, digamos assim. O privado você paga de acordo com o risco que vc representa pra seguradora. Então enquanto você é jovem e saudável você paga pouco, mas à medida que você representar mais custos pra seguradora seu seguro vai ficando cada vez mais caro. O público você paga sempre a mesma coisa: uma porcentagem x do seu salário. Quando você é jovem e saudável, os dois seguros vão custar mais ou menos a mesma coisa – o privado pode ser inclusive um tanto mais barato – mas quando você for ficando mais velho o negócio muda.

E quais são os seguros de cada tipo, e como fazê-los?

Seguros públicos costumam ter K no nome: TK, AOK, IKK, Barmer GEK. Sei lá, tem vários. Eu vou ser sincera e dizer que eu não tenho idéia da diferença entre eles. Pra se inscrever num deles (se você tiver numa daquelas situações descritas anteriormente, nas quais você tem o direito de entrar no sistema público) foi a coisa mais fácil do mundo: eu liguei pra TK, falei “oi, eu fui contratada numa empresa e gostaria de ter um seguro com vcs.” Eles me perguntaram meus dados e pronto, fim. O pagamento é feito automaticamente através do meu salário (o salário vc recebe já com o valor do seguro, imposto de renda e “INSS” subtraídos), eu recebi então a carteirinha pelo correio, e fim. Nenhuma pergunta relacionado a saúde, só os dados básicos da minha pessoa.

Seguros privados também têm vários: Mawista, Allianz, Hanse Merkur, Continentale são alguns exemplos. Para se inscrever num deles é bem mais complicado (exceto se vc for estudante, aí normalmente é mais simples). Eles vão pedir toda uma avaliação médica completa pra poder saber seu atual estado de saúde e calcular seu risco e conseqüentemente o preço do seu seguro de acordo. Vão ter várias opções que cobrem coisas diferentes: quarto individual no hospital, exame sei lá qual, remédios sei lá quais, etcetcetc. As diferenças entre os seguros são bem grandes, normalmente as pessoas quando procuram um seguro privado procuram um consultor de seguros pra saber as opções e escolher a desejada.

No caso de você ter um seguro público, o pagamento de consultas e exames funciona que nem no Brasil: o médico manda a conta direto pro seu seguro e vc nem vê o preço nem nada. Se tiver alguma coisa que seguros públicos não cobrem, o médico vai te avisar antes de fazer aquele tratamento pra vc decidir se quer pagar por ele ou não.

Caso seu seguro seja privado, o médico/laboratório envia a conta pra você e você ou paga e é reembolsado pelo seguro, ou você envia a conta pra eles e eles pagam o médico diretamente. Mas de uma maneira ou de outra, a conta vem primeiro pra você. E aí tem um outro negócio meio complicado. Os médicos adicionam na conta um “fator”. Basicamente eles multiplicam o preço por um fator que pode ser 1.3, 1.8, 2.3, 2.8, 3.5. Acho que 3.5 é o máximo. NÃO ME PERGUNTE qual é a lógica por trás desses fatores misteriosos. Mas a questão é que o seu seguro vai cobrir determinado fator. Por exemplo, o seguro que eu tinha antes cobria no máximo fator 1.3. Que é o mínimo. Então eu tinha sempre que pedir pro médico escrever a conta com o fator 1.3. Porque se ele colocasse fator 2.3, aí eu teria que pagar a diferença.

Por exemplo. Se a consulta custou 100 euros e ele colocou fator 2.3, o total é 230 euros. Mas como o meu seguro paga só até o fator 1.3, que seria 130 euros, a diferença de 100 euros eu teria que pagar do próprio bolso. Então eu tinha que pedir pro médico colocar só o fator 1.3 na conta. Juro que não tenho a MENOR idéia de qual a lógica por trás desses fatores. É uma coisa meio “Ah, essa consulta custa 100 euros, mas tô a fim de cobrar 200, hoje, então bota aí fator 2.3”. (?????) Pro seguro público não tem isso (ou tem, mas como vc não vê a conta, é uma discussão entre o médico e o seguro da qual vc não participa).

Ok, por esse post já deu. No post seguinte eu vou explicar um pouco mais sobre como funciona ir no médico / fazer exame / ir no hospital, por aqui!

Uma observação: esse tópico de seguros é um que gera muuuuitas perguntas. Eu demorei 4 anos pra entender como funciona esse negócio todo.

Não me mande perguntas. 

“Ó, mas pq não, Laís, vc é tão antipática assim que nem se disponibiliza a responder uma perguntinha ou outra?”

Não é isso, a questão é que tudo o que eu sei sobre seguros está escrito nesse post. Qualquer outra pergunta que você possa pensar em me escrever, eu não vou saber responder porque eu não sou expert, nem trabalho com isso. Se você me perguntar algo que eu sei responder, é porque você não leu o post, e aí eu vou me chatear de você me perguntar dúvidas que estão respondidas no post. Então, de verdade, se esse post não resolveu suas dúvidas, ligue diretamente pra algum dos seguros e pergunte pra eles como funciona, porque eu não vou saber te responder, e eles é que são os experts, afinal. =)


(Publicado em 31 de Julho de 2016)