transporte

Trens alemães

Embora eu já tenha escrito um post sobre como viajar pela Alemanha e outro sobre transportes públicos – que mencionam algumas coisas sobre trens – vale a pena fazer um post só sobre os diferentes tipos de trens alemães.

O transporte sobre trilhos é um dos principais e mais tradicionais meios de transporte na Alemanha. Para ter uma idéia, a Alemanha é o sexto país com mais ferrovias, 41.981km, perdendo apenas para Canadá, Índia, China, Rússia e Estados Unidos, países infinitamente maiores em área que a Alemanha. Em relação à área, a Alemanha é provavelmente o país com mais quilômetros de ferrovias por km².

Todas as conexões de trem na Alemanha. Em Vermelho, conexões de ICE, em azul, conexões de IC, e em cinza, conexões de trens regionais e outros. Bahn-Streckenkarte_Deutschland.png: Qualle derivative work: YouthOfSword (talk) - Bahn-Streckenkarte_Deutschland.png - Wikipedia

Todas as conexões de trem na Alemanha. Em Vermelho, conexões de ICE, em azul, conexões de IC, e em cinza, conexões de trens regionais e outros.
Bahn-Streckenkarte_Deutschland.png: Qualle derivative work: YouthOfSword (talk) – Bahn-Streckenkarte_Deutschland.png – Wikipedia

Viajar de trem na Alemanha é portanto comum – mas não é barato. Para encontrar a opção mais econômica, é bom ter uma noção das possibilidades que a Deutsche Bahn – a companhia ferroviária alemã – oferece. A começar pelos tipos de trem. Primeiro uma definição simples: normalmente na estação você vê trens brancos e trens vermelhos. Os brancos são os trens de longa distância, e os vermelhos, os de curta distância.

ICE – Intercity Express

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“ICE3 Cologne” by Heinz Albers, http://www.heinzalbers.org–%5B%5BUser:Heinz Albers|Heinz Albers]] – Wikipedia

O ICE é a opção mais rápida, e também a mais cara. Os ICEs fazem as conexões entre as principais cidades com poucas paradas pelo caminho. São os trens mais modernos e rápidos da Alemanha, podendo atingir 320km/h!! Ó, mas que rápido! A ironia é que embora os trens tenham essa capacidade, os trilhos não têm. Sim, você entendeu certo. Os trens podem viajar a 300km/h, mas não sobre os trilhos existentes por aqui. Tem apenas duas linhas ferroviárias na Alemanha que suportam a velocidade da última geração dos ICEs, a conexão entre Frankfurt e Colônia, e uma conexão entre Nuremberg e Ingolstadt. Na maior parte das outras linhas, os ICEs têm que viajar na metade da velocidade de que são capazes. =/

O mapa abaixo mostra as linhas por onde os ICEs viajam e as velocidades permitidas de acordo com a legenda de cores.

“ICEtracks” by Classical geographer – Wikipedia.

Mas mesmo a 150km/h eles são trens super modernos e confortáveis. Achar espaço para a bagagem às vezes é um desafio se suas malas forem muito grandes, mas aqui e ali tem alguns bagageiros. Tem sempre também um vagão restaurante, e algum funcionário que passa pelos vagões oferecendo café ou outras bebidas para os passageiros. A única coisa que falta mesmo, e já está bem atrasada, é wifi grátis (Atualização em Maio de 2018: desde 2017 os ICEs agora todos têm Wi-Fi grátis! Demorou… agora falta o mesmo para os ICs…). Mas pelo menos tem tomada ao lado dos assentos, normalmente uma para cada dois assentos, no meio dos dois.

Vagão restaurante de um ICE

Vagão restaurante de um ICE

“Interior of 2nd class carriage of ICE 3 train” by Maxim75 – Wikipedia

Outra coisa legal dos ICEs é que para todas as viagens eles deixam, nas mesinhas ou nos assentos, um plano do percurso que mostra todas as cidades em que o trem para, o horário de chegada e de saída e as conexões a partir de cada cidade. Bem útil e interessante.

Reise Plan

IC – InterCity

“Leipzig IC” by ArtVandelay13 – Wikipedia

Menos modernos que os ICEs, os ICs também fazem conexões longas, mas com mais paradas pelo caminho. Eles são um pouco menos confortáveis que os ICEs, mas mais espaçosos (tem bagageiros para malas maiores em todos os vagões, e mesmo no bagageiros sobre os acentos cabem bagagens maiores). Ele é mais lento que os ICEs, e o problema é que nem sempre têm vagão restaurante no trem. Provavelmente tem na maioria das vezes, mas eu já fiz uma viagem de 8h em um IC sem restaurante, achei meio insano. (Atualização de Maio de 2018: tem trens ICs novos desde o ano passado, e eles são tão modernos quanto os ICEs, e com dois andares. Eles não têm vagão restaurante, mas tem alguém que passa oferecendo café, com quem você pode também comprar algumas coisas para comer.)

“DB Bpmz interior” by ArtVandelay13 – Own work – Wikipedia

Tanto o IC quanto o ICE têm assentos marcados, mas para reservar um assento específico é preciso pagar extra (4,50 euros por assento por trecho). Vale a pena reservar especialmente em alta-temporada ou em conexões com grande fluxo de passageiros (por exemplo Colônia-Frankfurt) para não correr o risco de ficar de pé. Sobre o assento, onde tem a indicação do número, vai aparecer ou eletronicamente (no ICE) ou um papelzinho (no IC) que diz que aquele assento está reservado da cidade x até a cidade y. Desta maneira, se você não tiver reservado um assento, saberá se aquele assento vazio está reservado para alguém ou se você pode sentar lá tranquilamente. (Na verdade, se vc estiver na Alemanha só como turista, eu recomendo reservar assento: aí você sabe que entrou no vagão certo e não num que vai para outra cidade (explico isso mais pra frente no post), e é sempre meio complicadinho entender o que está escrito nos visores que dizem se o assento está reservado ou não, e às vezes eles estão inconvenientemente desligados, awawawa mor complicado. Melhor reservar e ter seu assento ali esperandinho. E não fique constrangido, caso alguém esteja sentado no seu lugar quando vc chegar, em falar que vc reservou aquele assento. Já me aconteceu muitas vezes de ter alguém sentado no lugar que eu reservei, eu falo sem cerimônia que reservei ali e a pessoa normalmente levanta sem cerimônia.)

E se você tiver um assento reservado, antes de embarcar procure na estação a informação sobre a posição dos vagões do trem. Assim você poderá entrar no trem direto pelo seu vagão, e evitar ter que carregar suas malas ao longo de todo o trem até achar o seu lugar. O “mapa” da localização dos vagões fica em uns pôsteres ao longo da plataforma, assim:

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O desenhinho do trem mostra a localização de cada vagão (números), e na primeira linha e última linhas, em cima/embaixo de todos os desenhos de trens, aparece a localização na plataforma (letras). Na foto acima, por exemplo, o último vagão do trem EN477 das 21:07 (o último, lá embaixo) está na área B da plataforma. Você acha esse trecho da plataforma procurando umas grandes placas azuis com as letras correspondentes:

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E para saber em qual vagão você está? No seu bilhete, as informações do seu trem serão mostradas dessa forma:

reservierung

Produkte indica o tipo e o número do trem, nesse caso, IC1952. Em Reservierung você verá o número do vagão (Wg. 9, aqui), o(s) número(s) do(s) assento(s) (Pl. 95 96, aqui), e a indicação de que tipo de assento é (2 Fensters = 2 janelas; Tisch = na mesa). Finalmente, algumas informações extras sobre aquele vagão. Aqui, por exemplo, diz Nichtraucher, o que significa que é um vagão para não-fumantes (embora seja uma informação meio desnecessária já que não tem nenhum vagão para fumantes em trem nenhum). Outra informação que aparece às vezes é “Handy“, indicando que é permitido falar no celular naquele vagão.

RE e RB – Regional Express e Regional Bahn

Os trens regionais fazem conexões mais curtas, normalmente dentro de um mesmo estado, ou no máximo até o estado vizinho. Tem mais de um tipo de trem entre os trens regionais, mas normalmente esses são os mais comuns.

Trens regionais, ou aliás qualquer trem sem ser o ICE ou o IC, não têm vagão restaurante nem assentos marcados. Normalmente você compra um bilhete que não diz dia nem horário, e carimba na estação antes de entrar no trem.

A diferença entre um RE e um RB é que o RE, expresso, pára em menos estações, enquanto o RB pára basicamente em todas as estações pelo caminho.

S-Bahn

Os S-Bahns são trens locais ou metropolitanos, que conectam algumas cidades maiores às cidades ou vilarejos vizinhos, parando em todas as estações por qual passa. São um meio termo entre trem regional e metrô, basicamente.

Os mais comuns são esses trens simpáticos com dois andares:IMG_9755

U-Bahn e Straßenbahn (ou Tram)

U-Bahn e Straßenbahn são trens municipais. U-Bahn é como chama o metrô por aqui, e Straßenbahn, ou tram, são os bondes de rua, ou VLT. Eles são diferentes de cidade pra cidade.

Além desses tipos básicos, em alguns locais você vai encontrar alguns trens diferentes pertencentes a outras companhias que não a Deutsche Bahn. Normalmente eles fazem ligações regionais específicas, e funcionam como um trem regional. Nas estações de trem alemãs você poderá ainda encontrar outros trens diferentes vindos de outros países da europa, que são os correspondentes ao ICE ou IC dos seus países de origem.

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Uma coisa que convém saber sobre trens por aqui – que pode gerar confusão para quem não está acostumado a viajar de trem – é que alguns trens se dividem em dois. Eles começam juntos numa cidade, e em alguma outra cidade no caminho parte do trem é desconectada da outra e cada um continua seu próprio percurso. Então é bom prestar bastante atenção no que diz o seu bilhete e o que diz no visor do trem (lateral próximo às portas nos ICEs e ICs, e frontal, como em ônibus, nos trens regionais) e nas placas informativas na plataforma. Na dúvida, pergunte.

Exemplo de placa informativa na plataforma. Esta está indicando um trem que está para chegar (Ankunft = chegada) às 12:51, vindo de Zwickau.

Exemplo de placa informativa na plataforma. Esta está indicando um trem (RB 17221) que está para chegar (Ankunft = chegada) às 12:51, vindo de Zwickau.

Esses grandes cartazes amarelos podem ser encontrados em qualquer estação e plataforma, e indicam os trens que saem daquela estação, e os horários.

Esses grandes cartazes amarelos podem ser encontrados em qualquer estação e plataforma, e indicam os trens que saem daquela estação, e os horários.

Quanto às passagens, você pode comprá-las online, nos guichês nas estações de trem, ou nas máquinas de bilhetes das estações de trem.

No site da Deutsche Bahn você pode procurar conexões e adquirir passagens para os ICEs e ICs. Lembre-se que o quanto antes você comprar sua passagem, mais chances você tem de achar um preço bom ou alguma promoção. Nunca deixe para comprar a menos de 3 dias antes da viagem. Preste atenção nas conexões da sua passagem, algumas conexões exigem que você saia de um trem e entre no seguinte em menos de 10 minutos. Se você estiver com muita bagagem, pode ser mais seguro evitar conexões muito apertadas. Se o seu primeiro trem atrasar e você achar que vai perder a conexão, peça informações para o fiscal que passa verificando os bilhetes – ele vai poder te informar se vai ser possível pegar a conexão, e, se não, quais são as alternativas. Se você perder sua conexão por culpa de atrasos dos trens, a DB vai te indicar uma alternativa sem que você tenha que pagar nada, claro. Se for a última conexão do dia e tiverem suficientes passageiros fazendo aquela conexão, o segundo trem espera o primeiro chegar.

Pelos guichês nas estações você também pode comprar bilhetes, mas é menos prático do que parece. Você imaginaria que pelo guichê é a melhor opção para perguntar a alternativa mais econômica para a viagem que você quer saber mas que nada. Várias das promoções e descontos são disponibilizados só pelo site, então comprar online é sempre a melhor opção. No guichê eles só te perguntam origem, destino e dia/horário da viagem, e não te dão alternativas.

Para os trens regionais, a opção mais fácil é comprar o bilhete nas máquinas disponíveis nas estações.

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Para ler sobre outras maneiras de viajar pela Alemanha, este post aqui descreve as várias alternativas.

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(Publicado em 19 de Janeiro de 2015)

5 coisas da Alemanha e do Brasil das quais eu sentiria/sinto falta

Esses dias descobrimos no youtube um canal engraçadíssimo de um britânico que mora na Alemanha e faz vídeos similares aos posts desse blog, mas com uma intenção mais cômica.

É esse aqui:

http://www.youtube.com/user/rewboss?feature=watch

Claro, eu já sabia quando pensei em começar esse blog que ele não seria novidade nem inovação. Tem uma pá de expatriados de todos os países do mundo em todos os países do mundo compartilhando suas experiências com o resto do mundo. Afinal, se tem uma coisa com que absolutamente todo mundo tem que lidar ao mudar de país são, óbvio, as diferenças culturais. Que na maioria das vezes são interessantes, engraçadas ou curiosas. E o legal é que, como cada um têm suas próprias impressões, experiências, e vivências, o resultado é sempre diferente.

Mas enfim, encontrei esse canal no Youtube, me diverti com alguns dos vídeos e um deles achei que dava um ótimo post, porque é realmente específico da experiência pessoal. O vídeo era sobre 5 coisas da Alemanha das quais o moço não sentiria falta, e 5 coisas das quais ele sentiria falta.

Resolvi fazer minha versão, ligeiramente alterada: ao invés das 5 coisas das quais eu não sentiria falta, escrevo 5 coisas do Brasil das quais eu sinto falta (e que portanto eu não sentiria falta daqui se voltasse a morar no Brasil). Então vamos lá. Em alguns pontos tem links para posts onde eu já escrevi sobre aquele assunto.

5 coisas do Brasil das quais eu sinto falta aqui:

1. A facilidade em fazer novas amizades.
Sei lá, no Brasil você conhece uma pessoa, e, se der com a cara, na mesma hora vocês já estão se tratando como amigos. E uma vez que você tenha se dado bem com alguém logo de início, parece que já fica meio regra que vocês vão se dar atenção na próxima vez que se encontrarem, entende? Quer dizer, você conheceu alguém, digamos, numa aula, na próxima aula vocês vão provavelmente sentar perto e conversar. Aqui, sei lá, é uma aventura fazer amizades. É meio devagar, demora dias e dias para você sentir que tem liberdade de chamar a pessoa para fazer alguma coisa no fim de semana, ou de comentar numa foto da pessoa no facebook, sei lá. Mais daí eu também não sou a pessoa mais sociável do mundo, sou bem introvertida. Talvez pessoas mais extrovertidas não vejam essa dificuldade.

2. Co-mi-da. 
Gente, como comida alemã é bizarra, credo. Como eu sinto falta de um arroz e feijão, açaí na tigela com banana e granola, coca-cola com gelo e limão, pãozinho de padaria recém-saído do forno, bife à parmigiana, pavê, palmito, pizza normal, coxinha, tapioca, pudim de leite, omg morri escrevendo isso.

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Parecem vermes, mas é só comida alemã.

3. Pessoas que sabem falar coisas sem parecer grossas.
Claro, gente grossa tem em qualquer lugar do mundo, o Brasil certamente não é exceção. MAS a diferença é que aqui às vezes a pessoa está sendo super educada e soa totalmente grossa. Sei lá, alemão (a língua) não tem entonação nem delicadeza nas palavras escolhidas. A comunicação é sempre muito direta, e às vezes dá a impressão que a pessoa está sendo horrível mesmo quando não é o caso. É meio difícil acostumar.

4. Abraços e toques em geral (de amigos, claro, não de desconhecidos!)
Aqui encostar é mó proibido. Amigos só se abraçam na hora de falar oi e tchau, e não se encostam no meio tempo. Sei lá. Eu preciso de mais contato humano.

5. Da ausência de neve.

Schnee... schrecklich!

Schnee… schrecklich!

5 coisas da Alemanha das quais eu sentiria falta de voltasse a morar no Brasil

1. Total e completa ausência de assédio de rua.
Aqui, assediar mulheres na rua é totalmente impensável, e não importa o que ela vista, todo mundo tem noção de que respeitar as pessoas (no caso, as mulheres) não é condicional, é obrigação. Só ouvi assédio uma vez, de um cara que estava bem obviamente tentando arranjar briga com pessoas na rua. Foi um caso totalmente isolado.

2. A aversão geral e profunda à extrema-direita
Se tem neonazistas, tem 10 vezes mais gente bloqueando-os.

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3. Equidade e respeito entre as classes
Aqui ninguém se acha melhor que o garçom ou que o faxineiro. (bom, tá, “ninguém” certamente é generalização. Mas basicamente, no geral, as pessoas não acham que merecem mais respeito do resto da sociedade pq têm mais dinheiro ou pq fizeram faculdade).

4. Poder escolher seu meio de transporte à vontade
Ir de bike é possível sem ser atropelado, andar na rua é possível sem ser atropelado, andar de ônibus e metrô é possível sem ser comprimido, e enfim, é tão menos estresse na vida.

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5. Da neve.

Schnee... wunderbar!

Schnee… wunderbar!

Schnee... super!

Schnee… super!

Schnee... schön!

Schnee… schön!

Schnee... klasse!

Schnee… klasse!

Schnee... toll!

Schnee… toll!

Schnee... kalt!

Schnee… kalt!

Schnee... mal wieder...

Schnee… mal wieder…


(Publicado em 19 de Fevereiro de 2014)

 

Transporte público na Alemanha

Diante da escalada de manifestações ocorrendo em São Paulo, no Rio, e em outras cidades brasileiras, me pareceu superficial vir aqui escrever um post sobre, sei lá, os jardins que os alemães que não moram em casa alugam ou compram, às vezes bem longe de suas casas, para ter um lugar verde para plantar umas plantas e cultivar umas coisinhas. Ou um outro post, sobre, sei lá, o que os alemães fazem no seu tempo livre, ou bichos de estimação que os alemães tem, entre outros vários assuntos que tenho planejados para futuros posts.

De fato, essa semana tem que ser alguma coisa que contribua para a discussão.

O ideal seria, claro, um post sobre violência policial na Alemanha, ou repressão a manifestações na Alemanha. Existe? Existe. Aliás, aqui em Dresden, o dia 13 de fevereiro é uma ótima data para presenciar alguns absurdos por parte da polícia e da justiça, que misteriosamente não proíbem a manifestação neo-nazista, mas tentam parar os manifestantes que saem às ruas para bloquear os nazistas. Vídeos de manifestantes pacíficos, que estão simplesmente sentados no chão, sendo arrastados pela polícia para desbloquear o caminho dos nazistas, ou ainda o vídeo mais chocante que vi desse mesmo dia, em que nazistas atiram pedras em um edifício onde moram estrangeiros , xingando e gritando ameaças aos mesmos, enquanto dois carros de polícia assistem a tudo de longe sem tomar nenhuma atitude.

Outros registros, de policiais tirando seus capacetes e se juntando aos manifestantes do movimento Occupy, em Frankfurt, também existem.

Mas eu, nunca tendo participado de uma manifestação na Alemanha nem estando suficientemente informada sobre a política, a atuação das autoridades e da polícia, ou a reação do povo por aqui, não estou capacitada para escrever sobre isso.

Entretanto, um post que já estava planejado e que vem a calhar neste momento, ainda que a discussão já esteja muito além do transporte público, é esse: como funciona o transporte público alemão.

Até já escrevi um pouco sobre o assunto, nas dicas sobre Berlim e Dresden, e no post sobre empregos que não existem na Alemanha (cobrador de ônibus sendo um deles). Esse post é uma compilação do que já foi dito e outras informações adicionais.

O transporte público alemão é gerido por empresas públicas responsáveis por uma cidade ou uma região. Então em cada cidade ou região apresentará diferenças. Até aí não é muito diferente do Brasil, exceto que aqui as empresas são mesmo públicas, não tem Via Quatro criando logos para suas próprias linhas de metrô.

Tem muitos pontos positivos no transporte público por aqui. Em primeiro lugar, TUDO é 100% integrado. Não tem essa história esquisita de, ok, você pode pegar vários ônibus durante 3 horas, mas se entrar no metrô tem que pagar extra. Se você comprar um bilhete de transporte, que aqui em Dresden vale por 1h, nessa 1h vc pode pegar quantos ônibus, trams, metrôs ou trens regionais você quiser. Como assim, trem regional? Quer dizer, com o mesmo passe do ônibus você pode pegar também o trem regional que vai, sei lá, para Leipzig. Só que, claro, se você estiver só com o bilhete de Dresden, você só pode usar esse trem dentro dos limites da cidade, então você pode pegar um trem regional de uma estação para outra dentro de Dresden.

Em várias cidades, especialmente nas metrópoles, os limites da cidade funcionam por zonas. Quer dizer que você pode comprar um bilhete para uma zona, duas, três, o que for, dependendo da onde você vai. A Zona 1 seria a área principal da cidade, a zona 2 as áreas mais periféricas e a Zona 3 as cidades em volta. É um sistema que aqui faz sentido, pagar de acordo com a distância que você anda, mas obviamente só faz sentido porque não rola uma expulsão das classes mais baixas para as periferias como nas metrópoles brasileiras. Por aqui, normalmente, as cidades em volta e as áreas periféricas são escolha de famílias que preferem ter uma casa maior, jardim, mais espaço para as crianças, essas coisas.

As tarifas variam, claro, de cidade para a cidade, mas não são baratas. Em Dresden, uma cidade pequena, com distâncias facilmente realizáveis de bike, o bilhete unitário custa 2,00€, bem caro se comparado a Berlim, uma metrópole, onde o bilhete custa 2,40€.

Mas a verdade é que, se você é um usuário habitual de transporte público, você nunca vai pagar a tarifa unitária. Tem alternativas que saem muito mais em conta. Vou usar Dresden como exemplo, mas as informações são similares para qualquer cidade. Aqui, se você pega transporte público todo dia para ir para o trabalho, você tem as seguintes opções:

> o ticket mensal, por 52,50€. Se você vai e volta do trabalho 5 dias por semana, portanto usa o tram aproximadamente 42 vezes por mês. Com o bilhete mensal, você acaba pagando só 1,25€ por viagem. Mas, claro, tendo o bilhete mensal, você pode usar o transporte público infinitamente durante o mês todo. Então se além dessas idas ao trabalho vc ainda usar durante o fim de semana umas duas vezes, talvez durante a semana mais duas ou três vezes para ir para outros lugares, digamos que você acabe usando o transporte público um total de umas 62 vezes durante o mês, já sai 0,85€ a viagem. Vale muuuito a pena.

> o bilhete mensal abonado: você pode também se inscrever para receber o bilhete mensal todo mês por correio, como uma assinatura de revista. Dessa maneira, você paga só 46€ pelo bilhete, e pode cancelar sua “assinatura” quando quiser. Nesse caso, cada viagem, na estimativa só-trabalho sai 1,09€, e na estimativa trabalho+passeios, 0 74€.

> o bilhete anual, por 520,00€. Se você realmente só usar o transporte público para ir e voltar do trabalho, portanto um total aproximado de 42×11 (12 meses menos 1 mês de férias) = 462 vezes, cada viagem já sai por 1,12€, ou, naquela média de trabalho + algumas viagens extras, 62×11 + digamos só 10 vezes durantes as férias porque vc foi viajar = 692 viagens por ano. Cada viagem sai por 0,75€. Parece mais caro que o bilhete mensal abonado, mas só porque eu calculei esse mês de férias. Se você receber o bilhete assinado durante o ano todo, sai um total de 552€. Aí vale mais a pena comprar o bilhete anual, mesmo. Uma coisa interessante do bilhete anual, é que ele não vale só para a pessoa que comprou. Você pode emprestar o seu para outra pessoa sem o menor problema. E, durante o fim de semana e feriados, durante às 18h do dia anterior ao feriado até às 6 da manhã do dia do feriado (ou sábado ou domingo), ele serve como bilhete família. Você pode levar com você portanto outro adulto e duas crianças.

E o bom também do bilhete anual e do bilhete mensal abonado é que você pode levar com você a sua bike OU o seu cachorro grande. Nos bilhetes normais, para levar bike ou cachorro grande tem que pagar extra.

O que nos leva para o próximo item: o que pode levar no transporte público?

Bom, basicamente qualquer coisa que passe pelas portas, exceto que para algumas coisas você tem que pagar extra. Mas já ouvi história até de gente mudar de casa de tram. Tipo levando móveis e tal. O meu namorado me jurou que junto com 4 amigos, trouxeram de uma loja até a universidade, de tram e ônibus, 5 pacotes de 25kg de concreto. Nada é impossível.

Mas oficialmente te dizem que você pode levar com você, gratuitamente:

> 1 carrinho de bebê (com ou sem bebê dentro)

> 1 cadeira de rodas (com você nela, não uma pessoa extra)

> 1 par de Esquis (mas não pode ir usando)

> 1 trenó (o tipo pequeno, sem renas)

> 1 animal pequeno (dentro de caixinha)

ou

> 1 bagagem de mão

E pagando extra você pode também levar

> uma bicicleta

> um cachorro grande

ou

> bagagem grande

E o que é “extra?” Para levar a bicicleta com cachorro dentro da mala, você tem que ter um bilhete extra, de tarifa reduzida. O bilhete de tarifa reduzida é o mesmo que serve para crianças de até 14 anos, e custa 70% do bilhete normal. Então o unitário reduzido custa 1,40€

Mas se você leva sempre sua bike ou seu São Bernardo com você pro trabalho, e você tiver o bilhete mensal não-abonado, que não inclui bicicleta ou São Bernardo, você pode comprar o bilhete mensal de bicicleta, por 16€, que é mais barato que o bilhete mensal reduzido. Isso também pode lhe ser útil caso você seja estudante. O que nos leva a ainda mais uma questão importante: mas e estudante não paga meia?

Melhor que isso. Estudante não paga! Bom, quase. Primeiro, lembro que isso varia de estado para estado e caso para caso. Mas, no geral, se você é estudante você tem um bilhete semestral para o transporte público, que você pode usar também infinitamente naquele semestre. Aliás, mais do que isso. É melhor ainda que um bilhete mensal ou anual, porque não vale só na cidade em que você estuda, mas no estado inteiro. Então se você estuda, digamos, na universidade de Dortmund, e sua família é de Colônia, você pode ir para casa todos os fins de semana sem pagar nada. Muito prático. Se a sua família não é do mesmo estado onde você estuda, pelo menos dá pra ir passear nas cidades próximas sem pagar nada, o que também é legal. Só se você estudar em Berlim, Hamburg ou Bremen é que você sai em desvantagem, já que essas cidades são estados separados. =( Qüé qüé qüé…

E porque “quase” não paga?

Bom, aqui na Alemanha praticamente todas as universidade são públicas. Mas não são 100% gratuitas. Você paga uma taxa de matrícula a cada semestre. Essa taxa varia de estado para estado, e costuma ser entre 100 e 300 euros. Parte (a maior parte) dessa taxa vai para pagar esse bilhete semestral, e o que resta financia o grêmio estudantil e as organizações estudantis que organizam moradias para os alunos e coisa do tipo. Escrevo mais sobre isso num post sobre universidades. Mas portanto você acaba pagando uns 150 euros para esse bilhete, que vale infinitamente durante todo o semestre. Mas, se não me engano, ele não inclui bicicletas ou São Bernardos, daí o bilhete mensal de 16€ caso você queira muito levar todo o dia o seu São Bernardo para assistir a aula com você.

Quem não leu ainda nenhum dos outros posts que mencionam transporte públicos pode estar se perguntando: e como funcionam esses bilhetes? É um cartão, tipo o bilhete único de SP? É um bilhete tipo o do metrô, que você passa numa catraca? Como funciona?

Para os bilhetes normais (unitário, de 4 viagens, diário, tal), você valida o bilhete no tram ou ônibus, ou na plataforma do metrô ou trem. Validar significa que você carimba o bilhete numa maquininha dentro do ônibus ou na plataforma. Não tem cobrador, você que se auto-cobra, digamos. Se você não carimbar o seu bilhete, viaja de graça. A não ser, claro, que entre o fiscal no seu ônibus para fiscalizar as passagens de todo mundo. A multa por não carimbar o bilhete, se você for pego por um fiscal, é de 40 euros. E eles calculam a quantidade de fiscalizações necessárias para que, estatisticamente, não valha a pena o risco de não carimbar.

Para os bilhetes mensais ou anuais, não precisa carimbar, o bilhete já vem com o mês em que é válido impresso.

O bilhete semestral de estudante é, na verdade, a carteirinha da universidade. Mas você tem que ter em mãos também uma identidade sua para provar que você é você, já que o bilhete semestral só vale para você.

Mas e como é o transporte público na Alemanha? É bom? É cheio? Fica lotado? É organizado?

Super. Organizado demais. Todos os trens, ônibus, trams, metrôs, o que for, tem horário marcado para passar em cada ponto, e raramente eles vêm fora do horário. Em várias estações tem displays eletrônicos que mostram o tempo para o próximo ônibus de cada linha chegar. Todas as estações, com ou sem display, tem um mural com uma folha para cada linha mostrando os horários da mesma. Então você sempre sabe, quando está no ponto, quando vem o próximo ônibus. E, claro, as informações também são facilmente encontráveis na internet, e tem aplicativos para o celular, de maneira que você sempre pode planejar, com bastante precisão, qual ônibus quer pegar.

Os ônibus aqui também ficam cheios, na hora do rush. Nas cidades grandes, claro, mas mesmo em Dresden, lá pelas cinco da tarde os trams ficam bem cheios. Mas nunca vi nada chegar perto de uma Estação da Sé às 18h ou dos trens híper-lotados da CPTM, por exemplo. Aqui o transporte fica cheio. Às vezes bem cheio. Mas não superlotado. E as pessoas são super tranquilas em termos de dar espaço para passar, para sair, etc. Regras básicas como deixar as pessoas saírem antes de entrar e ficar à direita na escada rolante do metrô são respeitadas à risca. Os ônibus esperam calmamente até todo mundo conseguir descer no ponto, se estiver muito cheio, ninguém perde o ponto porque estava longe da porta. As pessoas são bem tranquilas para levantar só quando chegar no ponto, e não 20 minutos antes. Se alguém precisar entrar ou sair com carrinho de bebê, cachorro ou bicicleta, sem problemas, com um pouco de paciência as pessoas se re-arranjam para dar espaço. Minha impressão é que os alemães são bem tranquilos e respeitosos no transporte público. Sempre tem lugar pra velhinha sentar. O motorista não acelera loucamente assim que você entra no ônibus, derrubando todo mundo que está de pé.

E os trens e ônibus são super modernos, silenciosos e confortáveis. Dentro do ônibus sempre tem um visor que vai mostrando as próximas estações, e as conexões possíveis. Você nunca vai precisar perguntar nada para o motorista, informação sobre o percurso não falta, nos pontos e dentro dos ônibus. E funcionam 24h.

E finalmente, talvez o ponto mais importante sobre o transporte público daqui, tomando Dresden como exemplo novamente. Aqui o tram é prioridade sobre tudo. Até sobre pedestre. Se tem um tram chegando, fecham todos os semáforos para o tram passar primeiro, sempre. De maneira que ir de tram é muito mais rápido que outros meios de transporte. As ruas são estreitas, muitas delas têm só uma faixa para carro, os semáforos tem longos períodos em que ficam abertos para pedestres, estacionar na rua é caro, não tem estacionamentos particulares, praticamente, só públicos, alguns bolsões ou estacionamentos subterrâneos, que também são pagos, e a gasolina é cara. Andar de carro, nas cidades alemãs não vale muito a pena. O transporte público é pensado para que seja mais rápido e barato e fácil que o particular e isso funciona. Claro, tem congestionamento também. Mas vindo de São Paulo, os congestionamentos daqui quase não são dignos do nome.

As tarifas para o transporte público de cada cidade podem ser facilmente encontradas na internet no site das empresas que fazem o transporte municipal. Aí vão os links das cidades mais importantes para ajudar:

Berlim (BVG); Bremen (BSAG)Colônia (KVB); Dresden (DVB)Düsseldorf (Rheinbahn); Frankfurt (RMV); Hamburg (HVV): Hannover (Üstra); Munique (MVV); Nuremberg (VAG); Stuttgart (VVS).


(Publicado em 17 de Junho de 2013)

Como levar as crianças para a escola

Esse post é a parte 4 do post sobre bikes: “E o que fazer com as crianças?”. Mas vou um pouco além para abordar, de maneira mais geral, como levar as crianças pra escola. Esse post estou planejando há meses (na verdade era uma das idéias que inspirou a criação do blog), mas precisei de um tempo para colecionar todas as fotos necessárias. E ainda vou precisar pegar umas da internet. Mas vamos lá.

Então, a questão final de adotar bikes como meio de transporte: Mas não dá, eu tenho crianças pequenas!

Keine Sorge!

Os alemães tem mil e duzentas alternativas diferentes para levar o(s) nenê(s) na bike de maneira segura e confortável.

A primeira, mais prática e fácil, são as cadeirinhas de nenê que podem ir na frente ou atrás. Na frente é meio raro achar, porque acho que as opções são cadeirinhas menores. Para trás, as cadeiras disponíveis carregam crianças de 9 meses até 4 anos de idade. e são ajustáveis para encaixar sua criança que muda de tamanho a cada mês.

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E claro, você pode facilmente combinar ambos e colocar um nenê na frente e outro atrás.

Mas se vc ainda estiver na dúvida achando perigoso, ah, sei lá, eu sou meio desequilibrado, vou cair com a bike e as crianças, aí vai todo mundo ter que correr pro hospital, desastre, perigoso, awawa awawa. Ok, tem outras soluções.

Você pode também conectar à sua bike um trailer de criança. É super complexo, com cadeirinhas, cintos de segurança, fecha para não chover na criança, e tem carrinhos com tamanhos diferentes para uma ou duas crianças.

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Esses trailers são super práticos. Além de conectar à bike, você pode também levá-lo separado, quando estiver andando, como se fosse um carrinho de bebê. É super comum, por aqui, ver esses carrinhos conectados às bikes ou sendo levados à parte. São caros, claro, mais ou menos o preço de uma bike nova. Mas bem seguros e confortáveis.

Essas opções são as mais comuns: as cadeirinhas e os trailers.

Outras alternativas menos frequentemente encontráveis existem. Tem uma opção de trailer que fica na frente da bike, também. Mas esse eu só vi uma vez e nem consegui achar nenhuma foto.

A opção provavelmente mais simples e mais barata e adicionar um banquinho, que nem o banco da bike, só que menor, na frente. A criança fica sentadinha lá como se estivesse dirigindo a bicicleta.

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É provavelmente a opção menos segura, mas para percursos curtos e crianças um pouco maiores, que já conseguem se equilibrar bem, pode ser uma boa alternativa.

E uma outra alternativa, para crianças que já estejam aprendendo a andar nas suas próprias bicicletas, você pode conectar à sua bike uma meia-bicicleta infantil. Fica assim:

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Aí a criança já vai pedalando, mas você não precisa ir devagar para esperar o pentelhinho te alcançar. Nunca vi, mas achei na internet uma foto com uma meia-bicicleta-de-criança-para-duas-crianças-conectável-à-bike-de-adulto:

E com cestinha na frente e atrás, ainda!

E, claro, se você for paciente e não tiver pressa, tem opções de bicicletas infantis para crianças de praticamente qualquer idade. Para as mais pequenininhas, as bikes não tem pedal, a criança só senta e vai empurrando o chão.

Mas, como eu falei, eu ainda quero abordar algumas outras opções de nenêmóveis comuns por aqui…

Quando o tempo está bom, é frenquente ver professoras do jardim da infância e do primário levando a turminha pela cidade para um centro de esportes, para um museu, para um parquinho ou simplesmente passeando pela cidade para aprender alguma coisa. Numa cidade pequena como Dresden, as crianças sempre vão a pé, mesmo, em duplinhas, com dois ou três adultos tomando conta. São bonitinhos.

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Mas mais bonitinho ainda é quando as crianças ainda são bem pequenas, e para facilitar o passeio as tias colocam quatro ou cinco crianças sentadinhas num carrinho-de-mão fofo e colorido para ir empurrando:

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Bem engraçadinhos!

Mas claro, todas essas opções são para quando não tá muito frio, né… E como faz quando neva horrores?

Leve as crianças de trenó.

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É SUPER comum, quando neva, ver pais levando os pimpolhos para escola sentadinhos em trenozinhos de madeira. Fico imaginando as crianças acordando e vendo super felizes que nevou, e gritando pela casa: “MÃÃÃÃÃEEEE NEVOOOOU, VAMOS DE TRENÓ????””

E ainda dá pra conectar dois trenós e levar toda a criançada de uma vez só!

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Só cuidado para não perder nenhuma pelo caminho…

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Para saber mais sobre bikes na Alemanha, veja as partes 1, 2, e 3 do post Pedalando na Alemanha: Parte 1 – Onde e para quem?, Parte 2 – Quando pedalar e onde estacionar?Parte 3 – Com chuva e carga?


(Publicado em 26 de Maio de 2013)

Pedalando na Alemanha – Parte 3: com chuva e carga?

Essa é a terceira parte do post sobre bicicletas na Alemanha. A primeira e a segunda partes você encontra aqui e aqui, respectivamente.

Esse post é mais simples, basicamente para discutir questões de praticidade que pessoas que não usam bike como meio de transporte costumam perguntar, ou usar de desculpa para ir de carro até a padaria da esquina.

O que fazer se eu estiver indo de bike e começar a chover?

Aqui é muito simples. Se vc realmente não quiser se molhar (um pouquinho de chuva só faz mal se vc for feito de açucar), termine o percurso de tram. Vc pode deixar a bike onde está e buscar quando passar por lá de novo, ou, mais prático ainda, levar a bike com você no tram. Estou falando de tram pq é o principal transporte público de Dresden, que é onde eu moro, mas vale, em outras cidades, para metrôs e ônibus também.

Sempre dá pra levar a bike junto, normalmente você paga uma tarifa um pouco maior para levar bicicleta ou cachorro.

Aqui em Dresden, o bilhete para uma viagem de tram/ônibus/trem custa 2,00€. Para levar bicicleta ou cachorro você compra também um bilhete de preço reduzido (que é o mesmo que vale para crianças de 6 até 14 anos) por 1,40€. Então para ir de tram com a sua bike ou o seu cachorro, você paga um total de 3,40€. Parece muito, mas aqui, e em qualquer cidade da Alemanha e provavelmente da europa inteira, tem várias opções diferentes de bilhete. Você pode comprar o bilhete para uma viagem, ou o bilhete de 4 viagens, que sai mais barato, ou o de um dia inteiro, ou o de uma semana inteira, ou o de um mês, ou o de um semestre. Para a bike, tem a opção de bilhete mensal de bike. Então, por exemplo, se vc usa trem todo dia, digamos, vc vai de bike até a estação, daí pega o trem, e aí vai o resto do caminho de bike, vale a pena comprar um desses bilhetes mensais de bike, que custam só 16€. (ainda precisa do seu bilhete próprio, também, claro. O mensal custa 52,50€. Enfim, eu falo mais das várias opções de bilhetes de transporte público em um post futuro sobre transporte público.

Mas não ficam lotados, os trams/ônibus/metrôs? Cabe a bike?

Às vezes eles ficam bem cheios, sim. Não é assim, uma estação da Sé às 18h, mas em alguns horários pode ser um pouco complicado colocar a bike pra dentro, sim. Mas os alemães são muito tranquilos em relação a transporte público. Não tem empurra-empurra, mesmo quando está lotado todo mundo que quer descer consegue descer, é tudo muito tranquilo. E se tem alguém com uma bicicleta ou um carrinho de bebê, sempre arranjam um jeito de abrir espaço para a pessoa. Mas, claro, se realmente não der, sempre tem a possibilidade de estacionar a bike em algum lugar e buscar depois.

A outra questão é, como levar coisas na bicicleta?

Tem várias opções. Você pode colocar uma cestinha na frente, uma cestinha atrás, uma cestinha na frente E uma atrás…

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Ou, se você não é fã das cestinhas, tem a opção de colocar uma bolsa de bicicleta, que fica do lado da roda traseira. (Nesse caso o ideal é colocar duas, para equilibrar o peso, mas funciona só com uma, também)

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Você pode dar um jeito de prender suas coisas na garupa…

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E, claro, se você prefere uma bike mais simples e clean, a opção é levar as coisas na mochila, ou, ainda, na mão mesmo. não é tão difícil quanto parece.

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No próximo e último post sobre bikes: E o que fazer com as crianças?


(Publicado em 16 de Maio de 2013)

Pedalando na Alemanha – Parte 2: Quando pedalar e onde estacionar?

Antes de partir para os próximos dois tópicos do assunto bicicletas, um detalhe que esqueci no post anterior.

Às vezes você vai encontrar, em calçadas e áreas para pedestres, essas duas placas:

placasAs duas placas indicam que o tráfego é compartilhado entre bikes e pedestres. A diferença é que, na placa da esquerda, não tem separação entre onde vai a bike e onde vai o pedestre. A placa da direita indica que um lado da calçada é ciclovia e o outro é para pedestres. (Normalmente a ciclovia terá um piso vermelho).

Mas vamos para o assunto do dia.

Primeiro: Quando andar de bike? De manhã? De tarde? A Noite? Na hora do rush? De fim de semana? No domingo? Todo dia? Só às quartas?

Vai de bike quando quiser. Mesmo na hora do rush, no problem, vai tranquilo. A única restrição que eu sugeriria é não ir na neve. No inverno a quantidade de bikes que você vê pela rua diminui drasticamente, pq o ventinho de -20˚C batendo na sua cara e na sua mão, precisa ter nascido na Sibéria ou ser descendente direto de ursos polares pra suportar. E, lógico, se tiver nevado digamos que não é a opção mais segura.

Nossa, mas tá a maior neve, o transporte público resolveu entrar em greve e eu preciso chegar no trabalho, como faz? Bom, dependendo do caminho que você for fazer, dá pra ir de bike na neve também. Depende de ser um caminho bem mantido. Isso significa que o caminhão da prefeitura terá passado por lá de manhã espalhando areia ou pedrinhas. No centro da cidade não será um grande problema, além de ser bem mantido, como o tráfego de pessoas e carros é alto, a neve derrete rápido.

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Mas fica ruim de andar na rua porque ela fica mais estreita, já que a areia ou pedrinhas estará só no meio.

De qualquer maneira, durante o inverno poucas pessoas vão de bike. E por tal motivo, é a melhor época do ano para comprar uma bike usada, as lojas estarão cheias de opções.

Aí tá, cheguei no lugar de bike, tal, que que eu faço agora? Pode parar em qualquer lugar? Tem bicicletário? Vão roubar minha bike?

Lugar para estacionar a bicicleta não falta. Espalhados pela cidade, você vai encontrar diferentes tipos de paraciclos. Parte dos equipamentos urbanos, eles ocuparam por vezes o espaço de uma ou duas vagas, ou o espaço extra da calçada que alarga na esquina, ou ainda praças ou calçadas generosas.

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Especialmente em pontos estratégicos, como em estações de trem, a oferta de locais para estacionar a bike vai ser bem ampla. (e mesmo assim pode ser um desafio encontrar um espaço vazio)

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De qualquer maneira, na falta de um lugar apropriado, opções alternativas não faltam. Sinta-se livre para prender sua bike num poste de rua, em um portão, um guarda-corpo ou mesmo em uma árvore. Fique tranquilo que, se o dono (do portão, digamos) se incomodasse, teria uma plaquinha avisando.

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Lojas, supermercados, farmácias e outros estabelecimentos comerciais com freqüência têm seu próprio mini-paraciclo-portátil que eles colocam na frente da loja ao abrir a mesma. Só tome cuidado em não esquecer a bicicleta parada num desses paraciclos quando a loja fechar: eles colocarão o paraciclo com bike e tudo pra dentro da loja, e aí, só no dia seguinte…

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E na falta de qualquer uma dessas opções, você pode sempre encostar sua bike no muro ou parede mais próximo e resolvido. Claro que nesse caso sua bicicleta estará um pouco menos segura, mas sério, pra alguém passar e sair carregando sua bike na boa sem ninguém perceber, pouco provável, se for durante o dia. E por aqui me parece que a quantidade de roubos de bicicleta é bem pequena, pelo menos em Dresden, onde eu moro. Talvez em cidades maiores valha a pena ser mais cuidadoso, mas, por aqui, vejo até bike sem corrente nenhuma parada num canto tranquilamente. (Não recomendaria, claro). E também é raríssimo ver bikes com partes roubadas abandonadas em postes. (roda da frente, banco, a bicicleta inteira menos a roda, etc, variando de acordo com o que está preso no paraciclo, e o que é facilmente retirável).

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Mas claro, o ideal é sempre prender a bike em um paraciclo ou poste, e passar a corrente pelo quadro e pela roda da frente, que é mais fácil de tirar.

Espaço para guardar a bike em casa também não deve ser problema. Todos os prédios vão ter algum canto para guardar a bike, normalmente um mini-paraciclo onde deixar sua bike se vc usa bastante, e um bicicletário fechado, trancado e tal, para guardar a sua bike durante o inverno, ou quando estiver viajando.

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Finalmente, recomendo ainda cuidado ao parar a bike em algum poste muito perto da rua. Se ocorrer de alguém esbarrar na sua bicicleta e derrubá-la, e parte dela acabar ficando pro lado da rua, desastres podem acontecer.

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Não deve ser animador encontrar sua bike assim!

No próximo post: O que fazer na chuva e como carregar coisas na bike!


(Publicado em 8 de Maio de 2013)

Pedalando na Alemanha – Parte 1: Onde e pra quem?

Há tempos estou planejando um post sobre bicicletas por aqui (ok “tempos” é um certo exagero já que o blog existe faz um mês e pouco) mas tem tanta coisa para falar sobre bicicletas que fica difícil escrever um texto que englobe tudo.

Mas para comemorar a recente aquisição na minha nova super fofa bike Diamant Topas Damen vermelha, começo hoje com um post sobre bikes, a primeira de três ou quatro partes.

Então, como o título sugere, a parte 1 será sobre onde pedalar e quem pedala.

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O vô e a vó também vão de bike

Todos os alemães tem uma bike. Da vovó mais velhinha até o criança mais novinha, do entregador de pizza até o(a) diretor(a) geral da BMW, eu diria que 100% dos alemães que já aprenderam a andar têm uma bike. Na dúvida até duas. Logo, fazer as coisas de bike é a coisa mais normal do mundo. A bicicleta é o principal meio de transporte de estudantes, principalmente nas cidades pequenas com grandes universidades.

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Estudante em cidade pequena com grande universidade indo para a aula de bike. (atenção: legendas das fotos do blog podem incluir especulações)

Ok, tô na Alemanha, tenho uma bike. Onde andar? Na calçada? Na rua? Na guia? Tem ciclovia?

A maioria das cidades têm ciclovias pelo menos ao longo das grandes avenidas com maior movimento. Andando na ciclovia, você é como um carro numa faixa mais estreita. Significa que, por exemplo, se vc quer ir em frente e um carro atrás de você quer fazer uma conversão para a direita, ele vai esperar calmamente você seguir antes de virar. Em casos onde tem uma faixa para conversão, a ciclovia segue em frente no lado esquerdo da faixa para conversão. Em cruzamentos complicados, onde tem ciclovia, vai tranquilo que você pode fazer todas as conversões que os carros também podem. Se não tem ciclovia, você é um carro que fica sempre na faixa da direita.

E vai pedalando calmamente no seu ritmo, sem desespero, que ninguém vai buzinar loucamente achando que a rua lhe pertence.

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Total madness!

Na foto acima, diversos cruzamentos e conversões possíveis e a sua complicada mistura de faixas para carros com ciclovias!

As ciclovias nem sempre estão nas ruas, claro, às vezes estão nas calçadas. Na sua maioria, são identificadas pela cor vermelha (especialmente se estiver na calçada), mas pode ser também indicada por essa linha branca tracejada com espaços pequenos como na foto acima.

Quando tem ciclovia, tem atê semáforo pra bike:

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Como nos semáforos para carro daqui, o amarelo acende também antes do verde, não só antes do vermelho, para avisar pra você ir se  preparando que já vai dar verde. (normalmente entre o vermelho e o verde o amarelo acende bem rapidinho, tipo 2 segundos). O branco em cima do vermelho tem em semáforos de pedestre também, e é para indicar que alguém já apertou o botão para atravessar e daqui a pouco vem o sinal, espera aí de boa. O botão para atravessar, também para bikes, e  o farol branco não estão presentes em todos os semáforos para bikes, mas só nos ao longo de ciclovias que estejam em calçadas, e portanto você-bike terá que atravessar a rua como pedestre e não como carro, daí o botão.

Bom, então nas avenidas maiores tem ciclovia, normalmente uma de cada lado da rua para cada sentido. E nas ruas mais estreitas, onde não cabe ciclovia, devo ir pelo leito carroçável, e não pela calçada, beleza. Mas e se a rua for mão-única? Posso ir de bike?

Depende. Regra geral, você vai de bike no mesmo sentido dos carros, sempre. A exceção é quando são ruas muito pequenas no meio do bairro onde o tráfego de bicicletas é alto. Normalmente nessas ruas você pode ir de bike também na contra-mão. Você vai saber que pode quando vir essa placa aqui:

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A placa redonda vermelha com o traço branco indica que vc não pode entrar de carro nessa rua porque é contra-mão. A plaquinha embaixo, branca com a bicicletinha e a palavra “frei” ou “livre”, indica que o tráfego é livre para bikes em ambos os sentidos.

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Note que nesse exemplo a rua é não apenas mão única, mas tem realmente só uma faixa. Não dá nem para ultrapassar o caminhão de lixo. Fica meio apertadinho para encaixar uma bike + um carro em sentidos diferentes, mas não se preocupe, os carros, vendo você vir no sentido oposto, vão diminuir a velocidade e quase parar na hora de passar do seu lado para evitar acidentes. No caso de você estar descendo a rua de bike no mesmo sentido dos carros, os carros atrás de você não vão tentar te ultrapassar até ter suficiente espaço para uma ultrapassagem segura. Enquanto não tiver, eles vão calmamente dirigindo atrás de você sem stress.

Ao invés da plaquinha com a palavra frei, às vezes aparecem também plaquinhas de bike com flechinhas pra cima e pra baixo, que significa a mesma coisa, que o tráfego de bikes é permitido em ambos os sentidos.

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Na verdade, a diferença aqui é que, nesse caso, a placa “Einbahnstraße” indica que é uma rua de mão-única (e você pode entrar nela, porque você está no sentido certo), e a plaquinha extra da bicicleta para te avisar que, apesar de ser mão-única, tem tráfego de bicicletas nos dois sentidos, então preste atenção ao entrar na rua. A plaquinha de antes estava indicando que, embora carros não possam entrar naquela rua por ser contra-mão, bicicletas podem porque o tráfego é liberado. Então a placa com as flechinhas é também para avisar os carros que terão bikes vindo no sentido contrário.

Tá, então, mas é que eu sou mó desequilibrado e acabei de aprender a andar de bike e morro de medo de andar na rua… posso andar na calçada?

Quando tiver ciclovia, não. Os pedestres ficarão bravos com você. Se não tiver ciclovia, a princípio o certo é você andar na rua, mas não é o fim do mundo andar na calçada. Desde que você vá devagar e com cuidado para não atropelar ninguém, não tem tanto problema. Inclusive é bem comum andar na calçada quando é uma mãe ou pai na sua bike junto com a criança pequena na bicicletinha de criança. As crianças vão sempre andar pela calçada, claro.

Para proteger a identidade desta criança desconhecida, adicionei uns óculos-escuros-photoshop

Para proteger a identidade desta criança desconhecida, adicionei uns óculos-escuros-photoshop

E numa rua de pedestres? Tipo um calçadão, e tal? Pode andar de bike?

Na grande maior parte das vezes, pode. Você saberá que pode, novamente, pela plaquinha “Frei.” como nesse exemplo:

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A placa azul da mamãe (ou papai escocês) com a criança indica que o local é exclusivamente para pedestres. A plaquinha embaixo com a bike, e novamente a palavra “frei”, indica que você pode também ir de bike. Mas na calçada ou rua de pedestres aposente a buzininha da bike que a prioridade é da mamãe (ou papai escocês) com a criança. Vá devagar, parando, desviando, e com cuidado.

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Ciclistas em rua de pedestres desviando com segurança e cuidado de velhinhos que andam devagar.

Ok, chega por ora! No próximo post sobre bikes, você descobrirá Quando andar de bike e Onde estacionar sua bike!

Mas antes disso vem um post sobre 1˚ de Maio e tradições do dia!


(Publicado em 29 de Abril de 2013)